Em destaque Afeganistão enfrenta ‘tempestade perfeita’ de crises, alerta a ONU

Afeganistão enfrenta ‘tempestade perfeita’ de crises, alerta a ONU

O Afeganistão está a enfrentar uma ‘tempestade perfeita’ de crises sobrepostas, alertou na quarta-feira o enviado cessante da ONU ao Conselho de Segurança, enquanto uma defensora dos direitos das mulheres afegãs afirmou perante o órgão que as políticas dos Talibãs equivalem a ‘apartheid de género’ que está a sufocar toda uma geração de raparigas. 

Roza Otunbayeva, a representante especial do secretário-geral para o Afeganistão, disse aos embaixadores que, embora o país tenha registado um declínio relativo no conflito armado desde a tomada de poder pelos Talibãs em 2021, a situação humanitária, económica e dos direitos humanos deteriou-se significativamente. 

É uma questão em aberto saber se existe pragmatismo suficiente entre as autoridades de facto [os Talibãs] para gerir esta tempestade perfeita de crises, ou se as decisões motivadas pela ideologia irão impedir soluções sustentáveis”, disse ela.

Mulheres e raparigas marginalizadas

No centro da crise, sublinhou a representante especial, estão as amplas restrições impostas pelos Talibãs às mulheres e raparigas afegãs.

Escolas para raparigas acima do sexto ano estão encerradas há quatro anos, o que representa um custo económico estimado de 1,4 mil milhões de dólares por ano, segundo o Banco Mundial. Uma sondagem recente da ONU Mulheres revelou que a maioria dos afegãos se opõe às proibições.

“Isto é particularmente evidente nas políticas das autoridades de facto em relação às mulheres afegãs”, disse ela. “Uma geração corre um sério risco de perder-se, com um enorme custo a longo prazo para o país.”

“Apartheid de género”

Também tomou a palavra no Conselho Hanifa Girowal, a vice-presidente do grupo afegão Women’s Rights First, que foi ainda mais direta ao descrever as políticas dos Talibãs como “perseguição de género” e “apartheid de género”.

Falando em nome das mulheres dentro do país e no exílio, a responsável contou a história de uma jovem em Kandahar que lamentou: “A esta altura já devia ter concluído o meu mestrado e tornado-me professora de Direito…em vez disso, por quatro longos anos, eu tenho vivido em incerteza, sem poder de decidir meu próprio futuro. Quanto mais tempo terei de esperar?”

Hanifa Girowal, que também já foi vice-governadora de Cabul, alertou que a exclusão sistemática de metade da população “não é apenas a negação da educação, é uma política deliberada de confinamento forçado, exclusão e subjugação.”

Hanifa Girowal, a vice-presidente do grupo afegão Women’s Rights First, descreveu as políticas dos Talibãs como “perseguição de género” e “apartheid de género”. Foto ONU/Loey Felipe

Ajuda em risco

A ONU forneceu quase de 13 mil milhões de dólares em assistência humanitária e para necessidades básicas desde 2021, grande parte entregue apesar das restrições e com salvaguardas reforçadas para evitar desvios.

No entanto, a assistência humanitária está sob pressão, advertiu Roza Otunbayeva, com o financiamento internacional reduzido em quase 50 por cento este ano. 

“Estes cortes são parcialmente resultado das políticas anti-mulheres do Afeganistão”, disse, acrescentando que a aplicação das proibições às mulheres afegãs de trabalharem em ONGs e na ONU já dificultou os esforços de ajuda, inclusive após os recentes sismos.

“Esta restrição grave dificulta a capacidade da ONU de ajudar o povo afegão no seu momento de maior necessidade”, alertou ela. 

A responsável apelou ao Conselho para adotar uma resolução que reafirme  o propósito incondicional da ajuda humanitária e estabeleça um mecanismo de monitorização independente e internacional, com o objetivo de rastrear desvios e garantir a responsabilização.

Pressões económicas e climáticas

Para além da ajuda, a economia do Afeganistão continua em estado crítico. O crescimento de 2,7 por cento está a ficar atrás do aumento da população, enquanto 75 por cento dos afegãos vivem ao nível de subsistência, agravado por cortes no setor público.

As alterações climáticas estão a agravar as dificuldades. Uma nova seca ameaça a população maioritariamente rural, muitos dos quais são agricultores de subsistência.

Hanifa Girowal alertou também que Cabul, cidade com quase seis milhões de habitantes, poderá tornar-se “a primeira cidade moderna a ficar sem água” dentro de alguns anos, e não décadas.

A proibição do cultivo de papoila, aplicada desde 2023, reduziu a produção de ópio, mas devastou os agricultores pobres que antes dependiam dela para sobreviver. Entretanto, mais de dois milhões de afegãos regressaram do Irão e do Paquistão nos últimos dois anos, privando a economia de mil milhões de dólares em remessas e sobrecarregando os serviços locais.

Progresso e envolvimento limitados

Hanifa Girowal observou alguns desenvolvimentos positivos desde 2021, incluindo a amnistia geral dos Talibãs para ex-oponentes, uma estabilidade relativa após décadas de guerra, e medidas para acabar com a tortura e permitir o acesso dos direitos humanos da ONU às prisões. 

A proibição contínua do cultivo de papoila também traz benefícios a nível regional, disse ela, desde que sejam encontradas alternativas sustentáveis para os agricultores. 

No entanto, ressaltou que novos progressos dependem de um envolvimento significativo com os Talibãs no âmbito do processo de Doha, liderado pela ONU, que procura equilibrar o pragmatismo com o respeito pelas normas internacionais.

“A maioria dos afegãos quer que o envolvimento entre a comunidade internacional e o seu país continue, apesar dos obstáculos”, afirmou, apelando ao Conselho de Segurança que mantenha a unidade sobre o Afeganistão.

O tempo está a esgotar-se

Reiterando o apelo à unidade e à ação do Conselho de Segurança, Hanifa Girowal defendeu o estabelecimento de critérios claros para o envolvimento com os Talibãs.

Segundo ela, esses critérios devem incluir a reabertura de escolas e universidades para raparigas, a restituição do direito das mulheres ao trabalho e o acesso total dos observadores da ONU.

Apelou também aos países para que suspendam as deportações forçadas de afegãos, referindo que mais de dois milhões regressaram do Irão e do Paquistão só em 2025, o que, segundo afirmou, levou à perseguição e até a assassinatos.

“Estamos a ficar sem tempo”, disse. “A situação no terreno está apenas a piorar…mas a boa notícia é que vocês podem fazer algo quanto a isso.”

*Artigo da autoria da ONU News