Mais de 23 milhões de pessoas no Afeganistão precisam de assistência humanitária. O corte de financiamento já resultou no encerramento de mais de 200 unidades de saúde, afetando cerca de 1.8 milhões de pessoas.
A representante especial do secretário-geral da ONU para o Afeganistão sublinhou, esta segunda-feira, a necessidade de um envolvimento realista com o país, à medida que as crises humanitária e de direitos humanos se agravam no contexto de um crescente isolamento internacional.
Ao informar os embaixadores no Conselho de Segurança, Roza Otunbayeva alertou que o envolvimento político com os Talibãs tem produzido poucos avanços, enquanto cresce a frustração entre os atores internacionais.
“O espaço para o diálogo está a estreitar-se”, afirmou, acrescentando que alguns governos começam a questionar se o diálogo com os Talibãs poderá estar a fortalecer as alas mais radicais do regime.
Ao mesmo tempo, restrições orçamentais, mudanças nas prioridades globais e um crescente foco interno por parte de algumas nações ameaçam deixar o Afeganistão “mais pobre, mais vulnerável e mais isolado”, advertiu.
“Este é um desfecho evitável, mas apenas se todas as partes reconhecerem o risco e procurarem ativamente evitá-lo, especialmente as autoridades de facto”, afirmou.
“O desenvolvimento mais útil seria um sinal claro das autoridades de facto de que estão comprometidas com a reintegração do Afeganistão na comunidade internacional, com todas as implicações que isso acarreta. Este é um momento de realismo.”
Crise humanitária e cortes no financiamento
Roza Otunbayeva descreveu também a grave situação humanitária no Afeganistão, onde mais de 23 milhões de pessoas – mais de metade da população – necessitam de ajuda e proteção internacionais.
No entanto, graves défices de financiamento já levaram ao encerramento de mais de 200 unidades de saúde, afetando quase dois milhões de pessoas, e resultaram em reduções significativas nos serviços essenciais de combate à desnutrição.
No contexto desta crise, a ONU saudou a decisão do Banco Mundial de disponibilizar 240 milhões de dólares adicionais para apoiar o setor de saúde até novembro de 2026. Ainda assim, essa assistência é insuficiente para cobrir o défice crescente deixado pelo colapso do apoio financeiro internacional.
A economia do Afeganistão cresceu 2,7% em 2024, impulsionada principalmente por investimentos regionais em infraestruturas. Contudo, este crescimento modesto não compensa a forte redução da ajuda externa nem o isolamento contínuo do país no sistema internacional.
“Vidas e meios de subsistência serão perdidos e os avanços no desenvolvimento continuarão a ser erodidos… Aqui, voltamos à questão das obrigações internacionais do Afeganistão”, alertou.
No que toca à segurança, os ataques do Estado Islâmico no Iraque e no Levante-Khorasan (ISIL-K) continuam, incluindo atentados suicidas mortais, enquanto a presença de grupos armados como o Tehrik-e Taliban Pakistan (TTP) permanece uma preocupação regional.
Abordagem seletiva dos Talibãs
A postura dos Talibãs em relação às suas obrigações internacionais continua a ser um obstáculo à reintegração do Afeganistão na comunidade global, afirmou Otunbayeva.
As autoridades de facto envolveram-se em algumas discussões técnicas, incluindo sobre o combate ao narcotráfico e o desenvolvimento do setor privado. No entanto, questões mais amplas – sobretudo os direitos humanos – permanecem, em grande parte, ignoradas.
“Até agora, trataram as obrigações internacionais do Estado afegão de forma seletiva, rejeitando algumas com o argumento de que supostamente comprometem a soberania do país ou violam as suas tradições”, afirmou.
Alertou ainda que estas obrigações internacionais afetam não apenas a possibilidade de progresso no caminho político, mas, crucialmente, “o bem-estar de toda a população afegã”.
Restrições cada vez mais severas às mulheres e raparigas
A situação das mulheres e raparigas no país continua a ser particularmente preocupante, pois as severas restrições impostas pelos Talibãs aos seus direitos e liberdades persistem.
Otunbayeva alertou que o recente encerramento de institutos médicos para alunas – uma das últimas vias restantes para a educação profissional feminina – vai agravar ainda mais as taxas de mortalidade materna e infantil no país.
Também advertiu que a aplicação rigorosa da Lei para a Prevenção do Vício e Promoção da Virtude pelos Talibãs “continua a ser um grande entrave” à reintegração do Afeganistão na comunidade internacional.
A ONU reforçou que, apesar dos apelos globais, as restrições não foram flexibilizadas. A Organização de Cooperação Islâmica enviou recentemente uma delegação a Cabul para promover a Declaração de Jeddah sobre os Direitos das Mulheres no Islão, sublinhando que as medidas dos Talibãs “não têm base no Islão”.
Apelo a um envolvimento realista
A representante da ONU enfatizou que ainda existem mecanismos para o diálogo.
Grupos de trabalho sobre o combate ao narcotráfico e o setor privado têm proporcionado um quadro para a construção de confiança. Além disso, a Abordagem Abrangente proposta pela ONU identifica, pela primeira vez, um modelo para abordar as questões difíceis que impedem a reintegração do Afeganistão na comunidade internacional.
Contudo, o progresso depende da vontade política – de todas as partes, concluiu.