A resposta global ao VIH enfrenta um dos seus maiores desafios nas últimas décadas. Um novo relatório da UNAIDS para o Dia Mundial de luta Contra a SIDA revela que o corte repentino no financiamento internacional em 2025 está a comprometer gravemente os serviços de prevenção e tratamento, especialmente nos países de baixo e médio rendimento.
Segundo o documento, o recuo na assistência internacional representa uma redução estimada de 30 a 40% no financiamento externo para a saúde em 2025 face a 2023. As consequências têm sido imediatas, incluindo quedas significativas no acesso a medicamentos preventivos (como PrEP), circuncisão voluntária e programas comunitários de prevenção. Mais de 60% das organizações lideradas por mulheres suspenderam serviços essenciais, deixando milhões de pessoas ainda mais vulneráveis. Adolescentes e jovens mulheres são particularmente afetadas: em 2024 registaram-se cerca de 570 novas infeções diárias entre raparigas e mulheres de 15 a 24 anos.
A crise agrava-se num contexto de retrocessos nos direitos humanos: em 2025, o número de países que criminalizam relações entre pessoas do mesmo sexo e a expressão de género aumentou pela primeira vez desde que a UNAIDS começou a monitorizar leis punitivas, em 2008. O programa alerta ainda que, se não houver recuperação das ações de prevenção, poderão ocorrer mais 3,3 milhões de novas infeções entre 2025 e 2030.
Apesar deste cenário preocupante, há sinais de resiliência. Países como Nigéria, Uganda, África do Sul e Tanzânia comprometeram-se a aumentar o investimento doméstico em serviços de VIH, e novas tecnologias de prevenção, como injeções semestrais, prometem reduzir significativamente novas infeções. Parcerias internacionais também têm vindo a assegurar o acesso a medicamentos genéricos a baixo custo.
Na Europa, porém, a deteção e o tratamento precoces do VIH continuam a falhar: mais de metade (54%) dos diagnósticos em 2024 foram realizados demasiado tarde para um tratamento ideal. Dados do Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças (ECDC) e do Gabinete Regional da OMS para a Europa revelam que esta falha nos testes, combinada com um número crescente de casos por diagnosticar, coloca seriamente em risco o objetivo de 2030 de eliminar a SIDA como ameaça para a saúde pública.
Hoje, 40,8 milhões de pessoas vivem com VIH, 1,3 milhões de novas infeções ocorreram em 2024 e 9,2 milhões ainda não têm acesso a tratamento. A UNAIDS sublinha que investir em prevenção, tratamento, inovação e direitos humanos é crucial para evitar retrocessos. Para a diretora executiva do programa, Winnie Byanyima, a decisão é clara: “Podemos permitir que estas crises revertam décadas de progressos ou unir-nos para alcançar o fim da SIDA. Milhões de vidas dependem das escolhas que fazemos agora.”