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Aumentar a segurança rodoviária para as pessoas e o planeta

Jean Todt, Secretary-General’s Special Envoy on Road Safety, brief reporters on General Assembly’s High-level Meeting on Global Road Safety. Foto ONU/ Manuel Elias

Os líderes mundiais devem tomar medidas urgentes e concertadas para pôr fim à carnificina nas estradas

 

Se tivesse de adivinhar a principal causa de morte de crianças e de jovens no mundo, qual seria a sua resposta?

Malária? Pneumonia? Suicídio? Estas causas estão todas em alta, mas não, são os acidentes de viação.

Os automóveis existem há mais de 120 anos e sabemos como evitar estas tragédias. No entanto, os acidentes de viação ainda causam mais de duas mortes por minuto e quase 1,2 milhões de mortes por ano.

Se estas mortes fossem causadas por um vírus, este fenómeno chamar-se-ia pandemia e o mundo esforçar-se-ia por desenvolver vacinas para as prevenir.

No entanto, a redução das mortes na estrada há muito que é negligenciada, desvalorizada e subfinanciada.

As pessoas cometerão sempre erros nas estradas, mas temos soluções comprovadas que garantem que os nossos sistemas de transporte absorvam esses erros de forma a reduzir significativamente o risco de morte.

No âmbito dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas e da Década de Ação para a Segurança Rodoviária 2021-2030, o mundo estabeleceu uma meta ambiciosa de reduzir para metade as mortes na estrada até 2030.

Apenas dez países — incluindo alguns países de baixo e médio rendimento duramente atingidos — conseguiram reduzir as mortes na estrada em mais de 50% numa década, e mais de 30 países estão logo atrás. Isto mostra que a meta pode ser atingida, mas não é suficiente. São necessárias medidas urgentes.

A chave para atingir esta meta é a decisão de conceber e de construir os nossos sistemas de transporte para as pessoas — e não para os veículos motorizados — e de dar prioridade à segurança em todas as decisões e ações.

Isto é especialmente importante para os utilizadores mais vulneráveis ​​das estradas, como peões, ciclistas e motociclistas, que muitas vezes estão expostos ao perigo.

Promover a segurança rodoviária é crucial por si só, mas é também essencial para o desenvolvimento sustentável em geral.

O mundo está a passar por uma onda de motorização sem precedentes. Mais de mil milhões de veículos circulam nas estradas. Isto é insustentável, por isso, precisamos de nos concentrar em movimentar pessoas, não carros, motos e camiões.

O transporte é responsável por um quarto das emissões globais de carbono e contribui para o congestionamento nas nossas cidades. No entanto, quando a mobilidade se torna segura e acessível, as pessoas escolhem opções mais ecológicas de transportes públicos, caminhadas e ciclismo.

Conceber cidades em torno de transportes sustentáveis ​​— com ciclovias, zonas pedonais e transportes públicos acessíveis — também fortalece as comunidades ao tornar os espaços mais seguros e habitáveis, ao mesmo tempo que melhora o acesso a uma habitação adequada e a serviços básicos para todos.

Estradas seguras geram economia. Por um lado, as mortes no trânsito podem custar aos países entre 3% e 5% do PIB, e, por outro, ao garantir que mais pessoas se podem deslocar em segurança para os seus empregos, escolas e serviços vitais impulsiona-se o desenvolvimento.

O transporte seguro, acessível e barato também quebra barreiras de emprego, escolas e oportunidades para grupos desfavorecidos. Ajuda a garantir que todos possam atingir o seu potencial.

O mesmo se passa com a igualdade de género e, em alguns países, até 80% das mulheres relatam sofrer assédio nos transportes públicos, pelo que precisamos de tornar os transportes seguros para as mulheres e raparigas.

A segurança rodoviária é um assunto de todos e, para sermos bem-sucedidos, precisamos do envolvimento de vários setores.

Os urbanistas e os engenheiros devem garantir que a segurança está incorporada nas infraestruturas. A academia e a sociedade civil podem gerar conhecimento. Os meios de comunicação social podem investigar mais a fundo o que funciona, o que não funciona e porquê.

O setor privado tem uma influência tremenda. As empresas podem contribuir para uma mobilidade segura e sustentável através da aplicação de princípios e práticas comprovados em todas as suas cadeias de valor. Devem vender apenas veículos que cumpram os padrões de segurança das Nações Unidas.

No entanto, o papel do governo é primordial. Os governos devem fornecer abordagens estratégicas e bem coordenadas, políticas e quadros jurídicos fortes que imponham padrões de segurança e comportamentos seguros, bem como financiamento suficiente. A aplicação da lei e a educação também são essenciais.

Esta visão está no cerne do Plano Global para a Década de Ação das Nações Unidas para a Segurança Rodoviária 2021-2030, que oferece um modelo para os governos reduzirem as mortes na estrada.

Esta semana, os líderes mundiais vão reunir-se para uma Conferência Ministerial Global sobre Segurança Rodoviária em Marrocos. Avaliarão os progressos, partilharão conhecimentos e promoverão ações para reduzir para metade as mortes no trânsito até 2030.

Estão prontos para adotar a nova Declaração de Marraquexe, que reconhece a segurança rodoviária como uma prioridade urgente de saúde pública e de desenvolvimento, e ainda que os nossos esforços devem ser orientados pelos princípios da equidade, da acessibilidade e da sustentabilidade.

A Declaração apela aos líderes para que intensifiquem os esforços para pôr em prática o Plano Global para a Década de Ação da ONU para a Segurança Rodoviária. Precisamos de uma mudança radical na vontade política, de um sentido de urgência, de estratégias baseadas em dados, que sejam orçamentadas e implementadas, de uma coordenação forte e de um financiamento adequado.

A segurança rodoviária é uma crise que já dura há muito tempo. Nenhuma morte no trânsito é necessária ou aceitável.

Mas é muito mais do que isso. A mobilidade segura e sustentável pode impulsionar um futuro melhor para todos nós.

 

*Este artigo de opinião da autoria do diretor-geral da Organização Mundial de Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, e do enviado especial do secretário-geral da ONU para a Segurança Rodoviária, Jean Todt, é também subscrito por Achim Steiner, administrator do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), Rabab Fatima, subsecretária -geral da ONU e alta representante para os Países Menos Desenvolvidos, Países em desenvolvimento sem litoral e Pequenos Estados Insulares, Inger Andersen, subsecretária-geral da ONU e diretora-executiva do Programa das Nações Unidas para o Meio ambiente (PNUMA), Anaclaudia Rossbach, diretora-executiva da ONU Habitat, Filippo Grandi, alto-comissário da ONU para os Refugiados, Jorge Moreira da Silva, diretor-executivo do Escritório da ONU de Serviços para Projetos (UNOPS), Tatiana Molcean, subsecretária-geral da ONU e secretária-executiva da Comissão Económica das Nações Unidas para a Europa (UNECE), Armida Salsiah Alisjahbana, secretária-executiva da Comissão Económica e Social das Nações Unidas para a Ásia e o Pacífico (UNESCAP), Claver Gatete, secretária-executiva da Comissão Económica e Social das Nações Unidas para a África (UNECA), Rola Dashti, secretária-executiva da Comissão Económica e Social das Nações Unidas para a Ásia Ocidental (ESCWA), José Manuel Salazar-Xirinachs, secretário-executivo da Comissão Económica e Social das Nações Unidas para a América Latina e o Caribe, Gilles Michaud, subsecretário-geral  do Departamento da ONU para a Salvaguarda e Segurança (UNDSS) e Felipe Paullier, secretário-geral-adjunto para os Assuntos da Juventude.