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Artigos Ciência comunitária em destaque no Dia Mundial das Aves Migratórias

Ciência comunitária em destaque no Dia Mundial das Aves Migratórias

Do acompanhamento de aves limícolas raras ao registo de ninhos de andorinhas, as observações do público estão a reforçar a conservação das aves migratórias em todo o mundo 

 No sábado, 10 de outubro de 2026, o Dia Mundial das Aves Migratórias vai assinalar a sua segunda celebração do ano, reconhecendo o enorme contributo das pessoas cujas observações ajudam cientistas e conservacionistas a compreender a migração das aves, a acompanhar a evolução das populações e a identificar locais importantes ao longo das rotas migratórias de todo o mundo. 

Com o tema “Cada ave conta. As suas observações são importantes!”, a campanha de 2026 destaca o papel da ciência comunitária, também chamada ciência cidadã, na conservação das aves migratórias. Ao reportar uma ave marcada, partilharum avistamento numa aplicação de ciência cidadã, participar num projeto de ciência comunitária já estabelecido ou colaborar em contagens locais, pessoas de todo o mundo estão a fornecer informação valiosa que apoia a investigação, a conservação e as políticas públicas. Qualquer pessoa pode ajudar a melhorar o nosso conhecimento sobre as aves. 

As aplicações online são ferramentas especialmente acessíveis e inclusivas para partilhar observações, permitindo que as pessoas participem a partir de onde estiverem e de formas que se adaptam aos seus interesses, à sua experiência e aotempo de que dispõem. 

Como as aves migratórias atravessam países, continentes e o oceano, compreender as suas deslocações exige observações feitas em muitos locais e durante longos períodos. 

A ciência comunitária e a ciência cidadã alargam o alcance da monitorização, ajudando a revelar alterações nos padrões de migração, nas tendências populacionais, no estado dos habitats e nas ameaças. 

Foram escolhidas nove espécies de aves migratórias como embaixadoras da campanha deste ano: marreca-canela, esmerilhão, colibri-de-garganta-rubi, andorinha-das-chaminés, ostraceiro-americano, ostraceiro-australiano, ostraceiro-euroasiático, pilrito-de-bico-de-colher e cegonha-de-abdim. 

 

Acompanhamento da rota migratória 

O pilrito-de-bico-de-colher (Calidris pygmaea) é uma ave limícola minúscula, classificada como Criticamente em Perigo, que se reproduz na tundra ártica do nordeste da Rússia e migra para zonas costeiras do Sul e do Sudeste Asiático. A suasobrevivência depende de uma cadeia de zonas húmidas ao longo da Rota Migratória Ásia Oriental-Australásia. 

O Plano de Ação Internacional de Espécie Única para a Conservação do Pilrito-de-bico-de-colher 2025-2035, desenvolvido no âmbito da Parceria para a Rota Migratória Ásia Oriental-Australásia (EAAFP), mostra como a monitorização local contribui para um esforço coordenado em toda a rota migratória. 

Está a decorrer uma monitorização anual em muitos locais-chave, muitas vezes liderada por grupos locais. Restando apenas cerca de 350 a 550 pilritos-de-bico-de-colher, cada avistamento de uma ave, marcada ou não, é particularmente valioso. O registo cuidadoso de bandeiras ou anilhas, ou seja, faixas de cores vivas colocadas na pata da ave com um código único que permite acompanhar cada indivíduo, está a ajudar a afinar as estimativas da dimensão e da tendência da populaçãomundial da espécie. 

Até agora, foram submetidos mais de 2000 avistamentos à base de dados de registo de avistamentos da Spoon-billed Sandpiper Taskforce. 

As pessoas podem também participar em iniciativas como o Censo Internacional de Aves Aquáticas (IWC) para contribuir com informação mais ampla sobre as zonas húmidas de que a espécie depende. 

Grupos locais de conservação no Bangladesh, em Myanmar, na Rússia e na Tailândia ajudam a proteger e a monitorizar habitats importantes para esta espécie. No Bangladesh e em Myanmar, alguns grupos incluem antigos caçadores queacompanham as tendências da caça e apoiam a proteção das aves limícolas. Isto é particularmente importante porque a espécie continua em declínio, e a caça e a perda de habitat continuam a ser grandes ameaças. 

 

Registar andorinhas-das-chaminés perto de casa 

As andorinhas-das-chaminés (Hirundo rustica) vivem muito perto das pessoas e constroem muitas vezes os seus característicos ninhos de lama em edifícios, pontes e casas. Como estes ninhos são muito visíveis, o público pode ajudar a monitorizar a atividade reprodutora da espécie, registando ninhos e avistamentos. Em todo o continente americano, uma rede cada vez maior de pessoas interessadas em ciência e natureza está a fazer precisamente isso, com até 2000 pessoas a recolher dados ao longo de 3000 percursos abrangidos pelo North American Breeding Bird Survey (BBS). 

Os dados do BBS, um programa de ciência comunitária de longo prazo, com muitos anos de existência e assente em voluntários, mostram que as populações de andorinha-das-chaminés diminuíram entre 38% e 44%, segundo as estimativas, naAmérica do Norte desde 1966. As perdas foram especialmente graves no Canadá, onde o BBS registou um declínio de 68,6% entre 1970 e 2019. Esta espécie está classificada como Ameaçada ao abrigo da Lei das Espécies em Risco do Canadá. 

Este retrato da população é reforçado por uma participação pública contínua ao longo do tempo. O NestWatch combina observações atuais com fichas históricas de registo de ninhos que remontam a 1965. Entre 2019 e 2021, 10 915 pessoasparticiparam na iniciativa colaborativa de transcrição Nest Quest Go!, ajudando a digitalizar milhares de registos históricos de ninhos e a alargar o conjunto de dados de longo prazo disponível para investigação. 

Na base de dados histórica do NestWatch, os voluntários já registaram mais de 15 000 tentativas de nidificação de andorinha-das-chaminés. 

 

Mapear a cegonha-de-abdim na África Austral 

A cegonha-de-abdim (Ciconia abdimii), uma ave aquática migratória abrangida pelo Acordo sobre a Conservação das Aves Aquáticas Migradoras Afro-Euroasiáticas (AEWA), reproduz-se muitas vezes em embondeiros emblemáticos e noutrasárvores de grande porte, dentro ou perto de aldeias, desde o Mali, na África Ocidental, até ao sudoeste da Península Arábica e à África Oriental. Fora da época de reprodução, migra para a África Oriental e Austral. A ciência cidadã apoia ainvestigação em curso e preenche lacunas na monitorização desta espécie. 

Iniciativas de longo prazo como o Segundo Projeto do Atlas de Aves da África Austral (SABAP2) mostram este impacto através de uma rede dedicada, na qual cerca de 5000 cientistas cidadãos registados, com cerca de 500 colaboradores ativos, enviam regularmente registos de distribuição de várias espécies, incluindo 241 registos só da cegonha-de-abdim em 2026. 

 

Como participar na ciência comunitária 

O Dia Mundial das Aves Migratórias incentiva as pessoas a aderir a projetos de ciência comunitária já estabelecidos e a seguir os seus métodos de monitorização, para que as observações possam apoiar a investigação e a conservação. O kit de ferramentas da campanha WMBD 2026, disponível em inglês, espanhol e francês, explica como as pessoas podem participar.