Em destaque Cinco formas de reduzir o desperdício na indústria da moda

Cinco formas de reduzir o desperdício na indústria da moda

Créditos: Unsplash Becca McHaffie

No Deserto do Atacama, no Chile, pilhas de roupas indesejadas atingiram alturas tão grandes que, segundo relatos, eram visíveis do espaço. Na capital do Bangladesh, Daca, corantes têxteis deixaram um rio negro, segundo a imprensa internacional. E no Canal da Mancha, investigadores encontraram fibras sintéticas nos estômagos de peixes.

Estes são alguns dos sinais de uma indústria da moda que, segundo especialistas, está a deixar uma pegada ambiental cada vez mais pesada, contribuindo para a poluição, alimentando as alterações climáticas e consumindo grandes extensões de terra.

Quer alguns números? A indústria da moda é responsável por até 8% das emissões globais de gases com efeito de estufa e, a cada segundo, o equivalente a um camião do lixo cheio de roupa é incinerado ou enviado para aterros sanitários, segundo a Fundação Ellen MacArthur.

Mas há soluções

Especialistas apontam que governos, empresas e cidadãos podem adotar medidas simples para minimizar o desperdício no setor e reduzir o seu impacto ambiental.

“A boa notícia é que ainda vamos a tempo de construir um setor da moda mais circular e sustentável”, afirma Elisa Tonda, Chefe da Divisão de Recursos e Mercados do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP). “Mas precisamos que todos colaborem para concretizar as mudanças sistémicas necessárias para transformar a indústria da moda numa força positiva para o ambiente.”

No dia 30 de março, o mundo assinala o Dia Internacional do Desperdício Zero, que este ano foca-se na moda e nos têxteis. Em antecipação a esta data, conversámos com Elisa Tonda sobre cinco formas de tornar o setor mais sustentável.

1. Construir uma indústria da moda mais circular

O modelo de negócio linear da indústria da moda está na origem da maior parte do desperdício que gera, explica Tonda. Um volume impressionante de roupas é produzido de forma barata e rápida, sem grande preocupação com o impacto ambiental. Estas peças são frequentemente usadas por pouco tempo e depois descartadas em aterros sanitários ou incineradas. Isto acelera as alterações climáticas, esgota os recursos naturais e contamina o solo, o mar e o ar com químicos perigosos.

A solução?

A indústria deve reduzir a produção de novas peças e adotar um modelo mais circular, prolongando a vida útil das roupas e dos materiais, explica Tonda. Para isso, os fabricantes podem conceber peças mais duráveis, recorrer a tecidos sustentáveis e garantir que as roupas são mais fáceis de reciclar.

Além disso, à medida que a indústria e os consumidores transitam de um modelo de fast fashion para produtos mais duradouros e sustentáveis, será crucial apoiar os países produtores para que não fiquem para trás nesta transformação.

Mais de 15.000 produtos químicos, alguns perigosos, são usados ​​na fabricação têxtil, o que levou a apelos para que os governos regulassem o que entra nas peças de roupa. Foto de NurPhoto via AFP/Rehman Saad

2. Melhorar a reciclagem de tecidos

Apenas 1% das fibras usadas em novas peças de vestuário, em têxteis para casa e em calçado provém de materiais reciclados, segundo a organização não-governamental Textile Exchange.

Para aumentar esta taxa, Tonda sugere que as cidades invistam em infraestruturas para a recolha de resíduos têxteis, como contentores de roupa usada, e expandam programas de reciclagem de tecidos. Ao mesmo tempo, os governos nacionais podem implementar programas de responsabilidade alargada do produtor, tornando os fabricantes – e não os municípios e consumidores – responsáveis pelo destino final das roupas.

As marcas de vestuário, por sua vez, podem conceber peças que sejam mais fáceis de reciclar, optando por tecidos reutilizáveis e eliminando produtos químicos nocivos.

 

3. Eliminar químicos perigosos da roupa

Mais de 15.000 substâncias químicas são utilizadas na produção têxtil, segundo um artigo da revista Springer Nature. Algumas delas, como as usadas para tornar as roupas resistentes ao fogo ou às manchas, são tóxicas e podem permanecer no ambiente durante décadas, prejudicando a saúde humana, a vida animal e o planeta.

Estes compostos também dificultam a reciclagem segura das peças, pois podem interagir entre si de formas complexas.

Por isso, Tonda defende que os governos devem regular e promover a gestão segura destes químicos. Paralelamente, as marcas devem adotar substâncias ecológicas, seguindo os princípios da chamada “química verde e sustentável”.

O problema agrava-se com as fibras sintéticas: quando estas roupas são lavadas ou usadas, libertam microfibras de plástico carregadas de químicos nocivos. Assim, Tonda defende que os fabricantes devem eliminar substâncias tóxicas das suas peças e que é necessário recolher mais dados sobre a libertação de microfibras e melhorar os filtros para as conter.

Para reduzir o desperdício, especialistas dizem que os consumidores podem comprar em lojas vintage, reparar ou alterar roupas existentes, alugar peças para ocasiões especiais e trocar itens com amigos. Foto de Science Photo Library via AFP/Caia Image

4. Desafiar a ideia de que “o novo é sempre melhor”

A indústria da moda, impulsionada por um dos setores de marketing mais poderosos do mundo, tem incentivado os consumidores a comprar mais do que precisam. Entre 2000 e

2015, a produção de vestuário duplicou, enquanto o número médio de utilizações por peça caiu 36%, segundo a Fundação Ellen MacArthur.

Um relatório recente do UNEP e da ONU para as Alterações Climáticas apelou a profissionais da moda – incluindo marcas, editores de revistas e influenciadores – para combaterem esta tendência. O documento defende que devem promover estilos de vida mais sustentáveis, pressionar as marcas a reduzirem a produção e eliminar mensagens que incentivem o consumo excessivo.

“Podemos criar mensagens de marketing e produtos com uma longevidade emocional, para que os consumidores sintam vontade de manter e usar as peças por mais tempo”, afirma Tonda.

Os governos também podem exigir às empresas que divulguem o impacto ambiental das roupas que produzem, ajudando os consumidores a tomar decisões mais sustentáveis.

 

5. Comprar menos, comprar melhor

Embora a maior responsabilidade pela sustentabilidade da indústria da moda recaia sobre governos e empresas, Tonda salienta que os consumidores também têm um papel essencial.

A profissional sugere que as pessoas “comprem dentro dos seus próprios armários”, apoiem modelos circulares e optem por alternativas mais sustentáveis, como:

● Reparar ou alterar roupas existentes

● Alugar peças para ocasiões especiais

● Comprar em lojas vintage ou de segunda mão

● Trocar roupas com amigos

Se for necessário comprar novo, Tonda recomenda escolher marcas sustentáveis e materiais ecológicos, privilegiando peças de alta qualidade que durem mais tempo.

“Os consumidores têm um enorme poder e, ao escolher opções mais circulares, podem enviar um sinal claro à indústria para se tornar mais sustentável”, conclui Tonda.

 

O Dia Internacional do Lixo Zero

O Dia Internacional do Lixo Zero, celebrado a 30 de março, foi estabelecido pela Resolução 77/161 da Assembleia Geral da ONU e é organizado em conjunto pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP) e pelo Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos (UN-Habitat).

O objetivo é sensibilizar para a importância da gestão de resíduos e do consumo responsável na promoção do desenvolvimento sustentável. A data apela a indivíduos e organizações para adotarem uma abordagem baseada no ciclo de vida dos produtos, reduzindo o consumo de recursos e as emissões ambientais em todas as fases da produção.