O tão aguardado roteiro sobre como a humanidade vai eliminar gradualmente os combustíveis fósseis poderá integrar as decisões da 30.ª Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas, a COP30.
Nesta terça-feira, ministros de diversos países declararam apoio à proposta do Brasil de incluir este tema na negociação oficial. Entre eles estavam Alemanha, Reino Unido, Colômbia, Quénia, Serra Leoa, Ilhas Marshall e outros.
A coligação de nações afirmou que a referência a esta transição precisa ser reforçada no texto em negociação, que deverá ser aprovado nesta quarta-feira. O objetivo é acelerar ações capazes de limitar o aquecimento global a 1,5°C.
Após as declarações, os ministros fizeram uma pausa para ouvir a campeã da Juventude da COP30. Marcele Oliveira explicou que crianças e jovens de todo o mundo aguardam uma decisão imediata sobre o tema, considerado uma “absoluta prioridade”.
Dirigindo-se aos ministros, afirmou que os combustíveis fósseis estão “a destruir sonhos” e que acabar com a dependência desta fonte energética é “a mobilização de justiça climática mais importante desta geração”.
Proteção do futuro
Em entrevista para a ONU News, Marcele Oliveira afirmou que a proteção do futuro das crianças e jovens devem ser prioridade nas discussões da COP30.
“Tivemos uma decisão do Tribunal Internacional de Justiça que afirma que a inação dos países face às alterações climáticas constitui um crime ambiental. Por isso, precisamos de pressionar os países a tomar melhores decisões climáticas, e esta também é uma prioridade”, disse-nos.
“Claro que precisamos de afastar-nos dos combustíveis fósseis, investir na proteção das florestas e proteger aqueles que as protegem. E, naturalmente, para os jovens, é muito importante o reconhecimento da ação coletiva ao nível local, liderada por eles próprios.”
“Batalha decisiva”
Mais tarde, ao longo do dia, o secretário-geral da ONU, António Guterres, reuniu-se com jovens de várias partes do mundo e pediu desculpa às gerações atuais pela falha das gerações passadas em conter a crise climática. Esta falha é evidenciada pela constatação científica de que a temperatura vai inevitavelmente subir mais de 1,5 °C nos próximos anos.
Agora, apelou aos jovens para se juntarem a ele naquilo que chamou de “batalha decisiva”, para garantir que esta ultrapassagem seja a mais curta possível.
Guterres sublinhou que a transição dos combustíveis fósseis para energias renováveis é essencial e que isso exige enfrentar grupos de lobby poderosos que “colocam os lucros acima do bem-estar da comunidade internacional e do planeta”. A pressão da juventude, acrescentou, é indispensável na COP30.
“Não queremos ser ativistas, queremos ser crianças”
João Victor da Silva, de 16 anos, do Brasil, disse ao secretário-geral da ONU: “Não queremos ser ativistas, apenas queremos ser crianças e adolescentes, mas, infelizmente, os adultos não estão a tomar as decisões corretas.”
De Aruba, Nigel Maduro partilhou uma realidade dolorosa: as praias onde aprendeu a nadar estão a desaparecer. Alertou que as negociações avançam lentamente, talvez demasiado lentamente para o seu país insular, que enfrenta temperaturas em subida e o aumento do nível do mar.
Jovens de vários países ecoaram o mesmo apelo: agir agora para garantir um futuro habitável.
O secretário-geral concordou que uma maior participação juvenil, especialmente de comunidades indígenas, conduziria a melhores resultados. Reconheceu também os apelos por um financiamento mais direto e menos burocrático para os povos indígenas, comprometendo-se a melhorar as condições para que isso seja possível.
“Protestos são um diferencial da COP30”
A líder indígena Txai Suruí descreveu o encontro com os jovens como um dos momentos mais esperançosos da COP30, mas alertou que a Amazónia está perigosamente perto de um ponto de rutura que poderá levar a floresta à desertificação.
“Os protestos são uma característica distintiva desta COP, porque, embora alguns países possam não gostar deles, o Brasil é um país democrático, e os protestos também servem para garantir que estes líderes realmente tomem decisões em favor da vida.”
Txai destacou que o lobby corporativo continua a ser maior do que todas as delegações juntas e certamente maior do que a representação indígena, criando um desequilíbrio de vozes. Ainda assim, observa um crescente reconhecimento das comunidades indígenas como guardiãs da natureza.
Transição justa
Entretanto, para Marcele Oliveira, a transição dos combustíveis fósseis deve ser justa, uma abordagem que “ouça, acolha e respeite os territórios”. Medidas como a demarcação de terras indígenas, disse, são essenciais para garantir que esta mudança não prejudique ainda mais as populações já afetadas.
A ONU News está a reportar a partir de Belém, trazendo-lhe cobertura em primeira mão de tudo o que se passa na COP30.
*Artigo de autoria da ONU News