Em destaque Crise de financiamento ameaça resposta global ao VIH

Crise de financiamento ameaça resposta global ao VIH

ONUSIDA | Um homem no Uzbequistão mostra o medicamento que toma para combater o HIV

A resposta global ao VIH enfrenta uma crise histórica de financiamento que coloca em risco décadas de progresso e milhões de vidas, alerta o novo relatório da ONUSIDA, publicado esta quarta-feira. 

Intitulado “SIDA, crise e o poder de transformar”, o relatório de 2025 sublinha que cortes abruptos no financiamento internacional estão a afetar gravemente os países mais impactados pela epidemia, com consequências diretas nos serviços de prevenção e tratamento. Em vários contextos, profissionais de saúde estão a ser dispensados e programas essenciais estão a ser suspensos. 

A situação é particularmente crítica em países como Moçambique, onde mais de 30 mil trabalhadores da saúde foram afetados, e na Nigéria, onde o acesso à profilaxia pré-exposição (PrEP) caiu de 40 mil para apenas seis mil pessoas por mês. A ONUSIDA estima que, caso os programas apoiados internacionalmente entrem em colapso, o mundo poderá assistir a mais 6 milhões de novas infeções por VIH e 4 milhões de mortes adicionais relacionadas com a SIDA entre 2025 e 2029. 

Apesar de alguns avanços registados em 2024, os dados mostram que 9,2 milhões de pessoas que vivem com o VIH continuam sem acesso a tratamento. Entre elas, 620 mil são crianças com menos de 15 anos. A falta de acesso a terapias antirretrovirais resultou em 75 mil mortes infantis relacionadas com a SIDA no último ano. No total, em 2024, registaram-se 630 mil mortes por causas relacionadas com a SIDA, 61% das quais na África Subsaariana. 

Teste de HIV/AIDS em andamento. Cuidados e tratamento para prevenção do HIV/AIDS em Burkina

As organizações comunitárias também estão a ser gravemente afetadas. Mais de 60% das associações lideradas por mulheres viram os seus financiamentos suspensos no início de 2025, obrigando ao encerramento de serviços essenciais. Estas estruturas são fundamentais para chegar a populações vulneráveis e marginalizadas, agora ainda mais expostas devido ao aumento de leis discriminatórias. Alterações legislativas em países como o Uganda, Mali e Trinidad e Tobago estão a agravar a exclusão de comunidades-chave, dificultando o acesso a cuidados de saúde e aumentando o risco de infeção. 

Apesar da conjuntura desafiante, há sinais de esperança. Vinte e cinco países de rendimentos baixos e médios anunciaram aumentos nos orçamentos nacionais para a resposta ao VIH em 2026, representando um acréscimo total estimado de 180 milhões de dólares. A África do Sul, por exemplo, já financia 77% da sua resposta nacional e prevê um aumento de 5,9% na despesa em saúde para os próximos três anos. 

Os países africanos Botswana, Essuatíni, Lesoto, Namíbia, Ruanda, Zâmbia e Zimbabué, alcançaram as metas 95-95-95, o que significa que 95% das pessoas que vivem com VIH conhecem o seu estado serológico, 95% dessas estão em tratamento, e 95% das que recebem tratamento têm a carga viral suprimida. 

O relatório destaca ainda a chegada de novos métodos preventivos, como a PrEP injetável de longa duração, incluindo o fármaco Lenacapavir, que demonstrou uma eficácia quase total em ensaios clínicos. No entanto, o custo e a acessibilidade continuam a ser barreiras críticas. 

A ONUSIDA defende que é possível transformar esta crise numa oportunidade, se houver solidariedade internacional. Os recursos nacionais, embora vitais, não são suficientes para sustentar sozinhos a resposta global. Investir na luta contra o VIH não só salva vidas como fortalece os sistemas de saúde e contribui para o desenvolvimento sustentável. 

Desde o início da epidemia, estima-se que 26,9 milhões de mortes tenham sido evitadas graças ao tratamento, e que 4,4 milhões de crianças tenham sido protegidas da infeção por transmissão vertical. 

Com a Conferência Científica sobre a SIDA marcada para os dias 13 a 17 de julho em Kigali, no Ruanda, a mensagem é clara: o mundo tem de escolher a transformação em vez da retração e agir com urgência, unidade e compromisso para acabar com a SIDA como ameaça à saúde pública até 2030.