Da Síria para Portugal: A Jornada dos Albakkars na Busca por um Futuro Melhor

Artigo original em inglês publicado pelo alto-comissariado das Nações Unidas para os Refugiados. 

Estudantes, professores e habitantes locais da Covilhã uniram-se em torno dos Albakkars, facilitando a transição desta família de refugiados sírios reinstalada na cidade universitária e fazendo-a sentir-se bem-vinda. 

“Todos os [nossos] vizinhos são universitários” 

Durante a época de exames finais, quando quase todos os seus vizinhos podem ser encontrados na biblioteca ou atrás de uma pilha de livros, a família Albakkar estará certamente entretida na cozinha. Nos últimos dois anos, esta família de oito refugiados sírios com uma paixão pela cozinha síria tradicional tem vivido num dormitório de estudantes na cidade universitária da Covilhã. 

“Todos os vizinhos são universitários”, revela Ilaf que com 14 anos é a mais nova dos seis irmãos reinstalados em 2020 da Turquia em Portugal, juntamente com os pais. “São muito simpáticos.”  

A Comunidade Universitária como Pilar de Apoio 

O “UBI Acolhe” é o projeto responsável pela transferência da família para a Covilhã e a ideia de alojar os Albakkars numa residência universitária partiu da sua coordenadora, Leonor Cutileiro. “Ocorreu-me como um relâmpago”, recorda Leonor, de 47 anos, que estava a fazer um doutoramento numa universidade britânica quando lhe surgiu a solução que considera única. “Um dormitório tem tudo o que uma família de refugiados recém-chegada precisa para se instalar: um monte de quartos, uma cozinha, mobília e – o mais importante – uma comunidade integrada.” 

© UNHCR/Ana Brigida | Leonor Cutileiro, coordenadora do “UBI Acolhe”, um projeto que tem proporcionado às famílias de refugiados sírios alojamento em dormitórios de estudantes no campus da Universidade da Beira Interior, na Covilhã.Nas palavras de Leonor, ainda que nenhum dos membros seja estudante da Universidade da Beira Interior, viver no dormitório da instituição, onde estão rodeados de estudantes curiosos e empenhados, desempenhou, sem dúvida, um papel crucial para que se sentissem bem-vindos. O facto de fazerem parte de uma comunidade universitária muito unida também ajudou a família a adaptar-se à vida nesta cidade remota de apenas 30.000 habitantes, onde se encontram entre os poucos muçulmanos e falantes de árabe. 

Da Síria para Portugal: Uma Jornada de Esperança 

Originários de Aleppo, uma das cidades mais afetadas pelo conflito na Síria, os Albakkars fugiram para a vizinha Turquia em 2013. Como muitos dos cerca de 3,6 milhões de refugiados na Turquia – o maior país de acolhimento de refugiados do mundo – a família lutou para recriar a mesma estabilidade de que tinha desfrutado no seu país. Com pequenos trabalhos, sobreviviam, mas nunca conseguiram realmente prosperar. 

A esperança de um futuro melhor surgiu com o início do seu longo processo de reinstalação, que foi interrompido pela pandemia de COVID-19. A reinstalação visa oferecer proteção aos refugiados cujas necessidades específicas não podem ser satisfeitas no país onde procuraram asilo pela primeira vez. Contribui igualmente para partilhar de forma mais equitativa a responsabilidade pela resolução das situações de refugiados, transferindo as pessoas e as suas famílias, após processos de avaliação, de países que acolhem grandes populações de refugiados para outros, com menos pessoas deslocadas à força, onde podem ficar permanentemente e reconstruir as suas vidas. Em 2022 e 2023, Portugal comprometeu-se a instalar cerca de 300 refugiados por ano.

Após várias entrevistas e de uma espera mais longa do que o previsto, Muna Albakkar, o seu marido, Moustafa, e seis dos seus sete filhos apanharam um voo de Istambul para a capital portuguesa. Aí, foram recebidos por Leonor, a coordenadora do projeto, e percorreram os cerca de 280 quilómetros até à Covilhã.  

© UNHCR/Ana Brigida | Os refugiados sírios Muna e Mostafa Albakkar posam para um retrato durante um piquenique no jardim comunitário perto de sua casa na Covilhã.  

“Não sabia que havia um país chamado Portugal”, comenta a mais nova, Ilaf, num português quase perfeito, acrescentando com uma gargalhada que, antes de aterrarem em Lisboa, ela e as irmãs só sabiam “uma coisa sobre Portugal, que era o Cristiano Ronaldo”. 

Uma receção calorosa  

À medida que a família se instalava na residência, num apartamento simples mas espaçoso no último andar de uma torre residencial, Leonor e um grupo de voluntários dedicados estavam à disposição para resolver os pormenores do que, de outra forma, poderia ter sido uma transição difícil. Embora a mudança para o dormitório tenha resolvido uma das necessidades mais prementes dos refugiados realojados, alojamento, sem falar português, no início, até as tarefas aparentemente simples pareciam assustadoras para os Albakkars. 

Um grupo de cerca de duas dúzias de voluntários, que inclui professores, funcionários e estudantes da universidade, bem como habitantes locais de todas as idades e estratos sociais acompanharam a família reinstalada em tudo, desde a inscrição na escola e nas aulas de português até à compreensão dos horários dos autocarros; ajudaram-nos a encontrar emprego; levaram-nos a consultas médicas; e até os guiaram pelos corredores desconhecidos do supermercado local, com a sua variedade intimidante de produtos novos. 

Encontrar refúgio na comida síria  

O supermercado revelou-se de particular importância para os Albakkars, uma vez que, ao longo dos anos de deslocação forçada, a comida se tornou uma âncora das suas vidas anteriores em Aleppo: uma recordação da sua herança e história. Em Portugal, esta sua paixão tornou-se também uma fonte de rendimento extra, complementando os salários que Moustafa e os seus dois filhos adultos, Ayman e Ahmed, trazem para casa dos seus empregos em fábricas próximas. Impressionados com as iguarias caseiras dos Albakkars, os membros do grupo de voluntários sugeriram-lhes que montassem uma banca numa feira de rua – onde esgotaram as vendas – encorajando as mulheres da casa a iniciar um serviço de catering online. O seu produto mais popular? Falafel. 

© UNHCR:Ana Brigida | Fatima Albakkar e a sua irmã Saja trazem comida síria caseira para uma piquenique organizado por voluntários que têm ajudado a sua família a estabelecer-se na Covilhã.

Embora a integração desta família de refugiados esteja ainda em curso – dominar o português tem-se revelado um desafio para grande parte da família – estes afirmam sentir-se membros da comunidade, em grande parte graças à receção calorosa da universidade e do quadro de voluntários da comunidade.    

“As universidades são sítios muito inclusivos”, observa Leonor. “Toda a gente é estrangeira, no sentido em que os estudantes vêm de várias zonas diferentes do país e fora dele. Isto significa que, na verdade, ninguém acaba por ser estrangeiro.” 

Para mais informação, assista ao vídeo:


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