Em destaque Dia Mundial da Saúde: proteger a saúde materna em tempos de conflito

Dia Mundial da Saúde: proteger a saúde materna em tempos de conflito

© UNICEF/Kristina Müller Meninas gémeas nascidas aos sete meses são atendidas num centro de saúde na província de Gitega, no Burundi

No Dia Mundial da Saúde, assinalado esta segunda-feira, as Nações Unidas alertam para as vulnerabilidades específicas enfrentadas por mulheres e raparigas em situações de crise. Em zonas de conflito, a saúde materna e mental está sob ameaça constante, agravada pela falta de cuidados básicos, insegurança e trauma prolongado. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), quase 300 mil mulheres continuam a morrer, todos os anos, durante a gravidez ou o parto – uma realidade que a campanha “Inícios saudáveis, futuros esperançosos” pretende transformar.

Em 2023, globalmente, ainda ocorreram cerca de 260.000 mortes maternas, sendo que em países afetados por conflitos, a taxa de mortalidade é o dobro da média mundial, com 504 mortes por 100.000 nados-vivos. Para mais, segundo a diretora do escritório do UNFPA de Londres, Mónica Ferro, apenas quatro países são responsáveis por 47% das mortes maternas: a República Democrática do Congo, a Índia, a Nigéria e o Paquistão.  Entre estes países, a Nigéria suporta o maior fardo, contribuindo com 28,7% do total de mortes maternas a nível mundial. Estes números sublinham o peso desproporcional que os contextos de crise têm sobre a vida das mulheres.  

A OMS apela aos governos para que priorizem a saúde das mulheres não apenas durante a gravidez, mas também a longo prazo, garantindo cuidados contínuos e sensíveis às necessidades reais. “Cada morte materna é uma tragédia, e uma evidência de que não cumprimos a promessa de garantir o direito à saúde para todas as pessoas, em todo o lado”, afirmou Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS.

Em contextos de conflito, o impacto na saúde mental é devastador. Cerca de 600 milhões de mulheres e raparigas vivem atualmente em zonas afetadas por violência – um aumento de 50% desde 2017. No terreno, o acesso a apoio psicológico é extremamente limitado. Estima-se que uma em cada cinco pessoas em contexto humanitário desenvolva perturbações mentais duradouras, mas apenas 2% recebem tratamento adequado. “A maioria dessas mortes poderia ser evitada com cuidados oportunos e eficazes durante a gravidez e o parto”, lembra a médica da OMS Haitham Shoman, destacando que o sofrimento mental agrava ainda mais os riscos físicos.

© IOM/Léo Torréton Um conselheiro de saúde mental e apoio psicossocial da IOM lidera uma sessão com mulheres na província de Paktika, no Afeganistão.

Em Gaza, as mulheres enfrentam níveis extremos de stress, depressão e privação, vivendo sob bombardeamentos constantes e sem acesso a apoio emocional. Testemunhos recolhidos por agências da ONU revelam um cenário de esgotamento, medo e desespero. Também na Ucrânia, onde a guerra aumentou os casos de violência de género e o trabalho de cuidado não remunerado, 42% das mulheres correm o risco de desenvolver depressão. Em países como o Afeganistão ou a Geórgia, a situação repete-se, com mulheres privadas de direitos básicos e sem acesso a serviços de saúde mental.

De acordo com Mónica Ferro, cada dólar investido em cuidados de saúde materna tem um retorno de até 20 dólares em benefícios económicos e sociais nos países de baixo e médio rendimento, o que reforça a importância de políticas de saúde pública eficazes e de investimentos em infraestruturas sanitárias.

Em Portugal, embora o contexto seja diferente, os desafios na saúde mental materna continuam presentes. Dados da Direção-Geral da Saúde indicam que cerca de 1 em cada 5 mulheres sofre de depressão pós-parto, sendo que os fatores de risco são agravados por desigualdades socioeconómicas ou pela solidão durante a gravidez. Iniciativas locais, como a Linha de Apoio Psicológico do SNS 24 e programas de saúde mental perinatal, têm procurado colmatar lacunas, mas os especialistas sublinham que é preciso um maior investimento.

A ONU reforça que o apoio à saúde mental em contextos de emergência não é um luxo: é uma necessidade vital. Investir em cuidados integrados, humanizados e acessíveis é essencial para garantir não só a sobrevivência, mas também a dignidade de todas as mulheres e raparigas, independentemente do local onde vivem.