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Dióxido de carbono bate novo recorde e condena planeta a um futuro mais quente

Boletim da Organização Meteorológica Mundial alerta que a acumulação de gases com efeito de estufa continua a acelerar, a duas semanas da COP31

 

A concentração de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera atingiu em 2025 o valor mais alto de que há registo, 426,8 partes por milhão (ppm), o equivalente a 153% do nível de 1750, antes da industrialização. Os dados constam do novo Boletim sobre Gases com Efeito de Estufa da Organização Meteorológica Mundial (OMM), divulgado esta terça-feira. O metano e o óxido nitroso, o segundo e o terceiro gases de longa duração mais relevantes associados à atividade humana, também bateram recordes.

“Mais um ano, mais um recorde”, resumiu a vice-secretária-geral da OMM, Ko Barrett. Segundo a responsável, os gases com efeito de estufa retêm uma quantidade de calor sem precedentes, o que alimenta fenómenos meteorológicos mais extremos e agrava os riscos para as economias e as sociedades. Os últimos 11 anos foram os mais quentes de que há registo, e a tendência deverá manter-se. Como o CO2 tem uma vida muito longa, avisou, afetará o clima “não apenas durante anos, mas durante décadas e até séculos”.

O ritmo de crescimento ajuda a medir a dimensão do problema. Desde a década de 1960, a taxa de aumento do CO2 triplicou, passando de uma média de 0,8 ppm por ano para 2,4 ppm anuais entre 2011 e 2020. Quando o Boletim foi publicado pela primeira vez, em 2004, a concentração média anual era de 377,5 ppm. De 2024 para 2025, a subida foi de 2,8 ppm, acima da média da última década, embora ligeiramente inferior ao salto excecional registado em 2023/2024.

Essa menor aceleração tem explicação, de acordo com a investigadora da OMM, Oksana Tarasova. Os sumidouros de carbono terrestres recuperaram e as emissões associadas a incêndios diminuíram em 2025, depois de o forte El Niño de 2023/2024 ter reduzido a eficiência da biosfera, com mais seca, vegetação mais seca e mais fogos florestais. Ainda assim, sublinhou, um aumento de 2,8 ppm continua a representar uma adição substancial de carbono, resultante da queima de combustíveis fósseis.

O Boletim mede a quantidade de gás que se acumula na atmosfera, e não as emissões anuais. Cerca de metade do CO2 emitido todos os anos permanece no ar, enquanto o restante é absorvido pelos ecossistemas terrestres e pelos oceanos. Segundo os dados da agência norte-americana NOAA, o efeito de aquecimento dos gases de longa duração aumentou 56% entre 1990 e 2025, e o CO2 foi responsável por cerca de 81% dessa subida.

As perspetivas para 2026 não são animadoras. Tarasova admite novo aumento das concentrações, devido à queima de combustíveis fósseis e ao desenvolvimento de um El Niño forte, que poderá afetar os sumidouros terrestres como aconteceu em 2023/2024. A especialista alerta ainda para o risco crescente de uma menor absorção de CO2 pelo oceano num clima em mudança.

O metano, que representa cerca de 16% do aquecimento causado pelos gases de longa duração, atingiu 1948 partes por mil milhões (ppb), ou seja, 267% do valor de 1750. Tem uma vida muito mais curta do que o CO2: cerca de 35% provém de fontes naturais, como as zonas húmidas, e cerca de 65% de atividades humanas, entre as quais a pecuária, o cultivo de arroz, a exploração de combustíveis fósseis, as lixeiras e a queima de biomassa. O óxido nitroso, originado por fontes naturais e por atividades como o uso de fertilizantes e processos industriais, chegou às 339,1 ppb.

A OMM chama também a atenção para dois gases menos abundantes, mas diretamente ligados à transição energética. O hexafluoreto de enxofre (SF6), usado sobretudo como isolante em equipamentos de distribuição elétrica, tem aumentado de forma constante nas últimas três décadas, em linha com a eletrificação, e registou em 2025 um novo máximo. Permanece mais de mil anos na atmosfera e tem um potencial de aquecimento, a 100 anos, cerca de 24 300 vezes superior ao do CO2.

O hidrogénio, cada vez mais utilizado na siderurgia, nos transportes marítimos e no armazenamento de energia, levanta uma preocupação diferente. A sua concentração subiu 5,3% entre 2010 e 2024, e as fugas em instalações de produção, condutas e depósitos são um motivo de inquietação crescente. Não é um gás com efeito de estufa, mas influencia a química da atmosfera e tem, por isso, um forte efeito indireto no aquecimento. Para a OMM, as fugas de hidrogénio e a persistência do SF6 podem comprometer os benefícios climáticos da transição energética, pelo que a monitorização rigorosa da atmosfera é essencial.

O Boletim é publicado como contributo científico para os negociadores da Conferência do Clima das Nações Unidas. A COP31 decorre em Antália, na Turquia, entre 9 e 20 de novembro, com o objetivo de transformar compromissos climáticos em ações concretas.