Em destaque Diretor da UNOPS indignado com morte de funcionário da ONU em Gaza 

Diretor da UNOPS indignado com morte de funcionário da ONU em Gaza 

ONU Bruxelas/Jorge Varas Mardones O diretor executivo do UNOPS, Jorge Moreira da Silva (à direita), falando à imprensa na capital belga, Bruxelas.

Pelo menos um funcionário da ONU morreu e pelo menos cinco outros ficaram feridos – vários deles com gravidade – após uma explosão nas instalações oficiais em Deir al Balah, na região central da Faixa de Gaza, na quarta-feira.

A ONU está a verificar e a confirmar os detalhes, incluindo as circunstâncias que levaram ao incidente. No entanto, a explosão não foi causada por “qualquer ação” de funcionários da ONU para remover “explosivos não detonados”, afirmou o chefe do Escritório das Nações Unidas para Serviços de Projetos (UNOPS), Jorge Moreira da Silva, durante uma conferência de imprensa em Bruxelas. 

De acordo com relatos da comunicação social, o exército israelita – que retomou ataques letais na Faixa de Gaza, matando centenas de pessoas desde segunda-feira – negou ter atacado o complexo. 

“Estas instalações eram bem conhecidas pelas Forças de Defesa de Israel (IDF)”, afirmou Moreira da Silva, explicando que “todos sabiam quem estava a trabalhar dentro das instalações – eram funcionários da ONU e do UNOPS”. 

Não foi um acidente 

“Isto não foi um acidente, foi um incidente”, declarou Moreira da Silva aos jornalistas, acrescentando que informações adicionais estão a ser recolhidas. 

“O que sabemos é que um explosivo foi lançado ou disparado contra a infraestrutura e detonou dentro do edifício”, disse, acrescentando que ainda não está claro se foi um ataque com armas lançadas do ar, artilharia ou foguetes. 

Moreira da Silva enfatizou que ataques contra instalações humanitárias violam o direito internacional. 

“Os funcionários da ONU e as suas instalações devem ser protegidos por todas as partes. A população civil depende da ONU para receber assistência essencial para a sobrevivência num momento de tragédia e devastação”, afirmou. 

Ataques anteriores 

O incidente ocorreu por volta das 11h30 (hora local) de quarta-feira. Segundo Moreira da Silva, na terça-feira, ataques já haviam causado alguns danos ao edifício, e na segunda-feira houve um “quase impacto”. 

O edifício do UNOPS está localizado numa “zona isolada” de Deir al Balah.

© UNICEF/Eyad El Baba Rafah, no sul da Faixa de Gaza, foi gravemente danificada no conflito.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, mostrou-se profundamente triste e chocado ao saber da morte do membro da equipa do UNOPS.

O seu porta-voz explicou que “O secretário-geral condena veementemente todos os ataques ao pessoal da ONU e pede uma investigação completa e sublinha que todos os conflitos devem ser conduzidos de forma a garantir que os civis sejam respeitados e protegidos.”

O ataque mortal de hoje eleva o número de colegas da ONU mortos em Gaza desde 7 de outubro de 2023 para pelo menos 280.

Já no início desta semana, António Guterres apelou ao fim das hostilidades depois do cessar-fogo ter sido quebrado naquele território.

Reunião do Conselho de Segurança da ONU 

O Conselho de Segurança da ONU reuniu-se esta terça-feira para discutir a crise humanitária em Gaza, agravada pelo reinício dos ataques aéreos e pelo bloqueio à entrada de ajuda desde 2 de março. O secretário-geral, António Guterres, expressou choque face à situação e reiterou a necessidade de um cessar-fogo imediato, acesso humanitário irrestrito e a libertação incondicional dos reféns. 

Impacto da ofensiva em Gaza 

Durante a reunião, o subsecretário-geral para Assuntos Humanitários, Tom Fletcher, afirmou que os piores receios se concretizaram, com bombardeamentos massivos e centenas de mortes relatadas. Fletcher alertou que os modestos avanços humanitários alcançados durante o cessar-fogo foram anulados, deixando milhões de pessoas sem acesso a alimentos, medicamentos, combustível e água potável. 

O bloqueio na passagem de Kerem Shalom impediu a entrega de abastecimentos essenciais, levando ao encerramento de padarias subsidiadas e ao aumento vertiginoso dos preços dos alimentos. O responsável destacou que a ONU enfrenta dificuldades financeiras para responder à crise, com apenas 4% dos fundos necessários obtidos até agora. 

A escalada da violência na Cisjordânia 

A situação na Cisjordânia também foi mencionada, com um aumento das operações militares israelitas, deslocamento forçado de 40 mil palestinianos e ataques de colonos a aldeias. Fletcher enfatizou que a violência crescente exige atenção internacional urgente. 

A necessidade de uma solução política 

O alto-comissário da ONU para os Direitos Humanos, Volker Turk, reforçou que não há solução militar para o conflito e que um acordo político é essencial para evitar mais sofrimento. Classificou a situação como “inconcebível” e apelou a esforços imediatos para restaurar a assistência humanitária e garantir a proteção de civis em Gaza e na Cisjordânia.