Apesar de nesta segunda-feira se ter celebrado o Eid al-Fitr, um dia de grande significado para os muçulmanos em todo o mundo, em Gaza não houve festividades. Em vez de celebração, a população viveu mais um dia marcado pelo sofrimento, pela escassez e pela violência que não cessa há mais de um ano e meio.
Desde o início da guerra, há 539 dias, o número de mortos em Gaza ultrapassa os 50 mil, segundo o Ministério da Saúde local. Entre as vítimas estão mulheres, crianças e idosos, numa tragédia humana de proporções avassaladoras. Além disso, 284 funcionários da Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina (UNRWA) perderam a vida desde outubro de 2023. Só na última semana, oito trabalhadores humanitários foram mortos. O corpo de um deles foi encontrado em Rafah, enterrado em valas rasas, junto a trabalhadores da Sociedade do Crescente Vermelho Palestiniano, uma violação flagrante da dignidade humana.
A situação humanitária é cada vez mais insustentável. Pela primeira vez desde o início do conflito, Gaza passou mais de três semanas sem registar qualquer entrada de ajuda humanitária. Antes, durante a trégua, entravam entre 500 e 600 camiões por dia. Agora, os hospitais estão sem medicamentos, os preços dos bens essenciais dispararam, a fome agrava-se e o risco de doenças aumenta exponencialmente. Ao mesmo tempo, os bombardeamentos continuam e o número de deslocados cresce diariamente. Desde 7 de outubro de 2023, cerca de 1,9 milhões de pessoas, 90% da população, foram forçadas a abandonar as suas casas, muitas delas repetidamente.
A violência tem sido particularmente devastadora para as mulheres e crianças. Entre 18 e 25 de março, mais de 800 pessoas foram mortas, das quais 174 eram mulheres e 322 eram crianças. Desde o início da guerra, estima-se que cerca de 60% das vítimas sejam mulheres e crianças, um reflexo da brutalidade do conflito. Para muitas delas, já não há sequer a ilusão de encontrar um lugar seguro. “A morte é a mesma, seja na Cidade de Gaza ou em Deir al-Balah”, desabafa uma mulher palestiniana.
A ONU tem apelado insistentemente ao respeito pelo direito humanitário internacional. Alvo frequente de ataques, as instalações da UNRWA em Gaza continuam a ser um refúgio precário para milhares de deslocados, que, mesmo em abrigos da ONU, não estão a salvo da violência. A organização continua a providenciar assistência médica, educação e apoio psicossocial, mas os recursos são cada vez mais escassos.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, reforçou recentemente a necessidade de um cessar-fogo imediato e do levantamento do bloqueio que impede a entrada de ajuda humanitária. “Isto não pode tornar-se a nova norma”, afirmou Philippe Lazzarini, comissário-geral da UNRWA. “O bombardeamento deve parar. O cerco tem de ser levantado. Todos os reféns têm de ser libertados.”
Enquanto a comunidade internacional não age, a população de Gaza continua a enfrentar um futuro cada vez mais incerto. O Eid al-Fitr, que deveria ser um momento de união e esperança, foi mais um dia de luto num conflito que parece não ter fim.