Em Gaza, onde a falta de acesso à água representa uma ameaça existencial, Ibrahim Alloush destaca-se como um herói anónimo, oferecendo uma tábua de salvação às pessoas sedentas da Faixa.
Todos os dias, conduz o seu camião-cisterna pela região, enchendo tanques e recipientes vazios.
A nossa câmara acompanhou Alloush numa missão difícil para levar um pouco de água aos habitantes de Jabalia. O correspondente da ONU encontrou Alloush na central de dessalinização de Jabalia, onde passa horas à espera de água.
Como em todo o lado em Gaza, a central está sobrelotada. Com a escassez de combustível, Alloush explicou que são necessários entre 35 a 40 litros de gasóleo por hora para manter a central a funcionar.
Horas de espera
Na central, Ibrahim tem de ter paciência: “Vimos até aqui e esperamos cerca de cinco horas pela nossa vez de encher. Os preços da água são muito elevados devido aos custos de produção. As pessoas em Gaza não conseguem pagar por água, a menos que seja distribuída por organizações, instituições ou iniciativas.”
“O custo de um metro cúbico é muito alto devido ao preço do gasóleo, essencial para fazer funcionar os geradores. Um metro cúbico de água pode custar entre 90 a 100 shekels — cerca de 20 dinares jordanos.”
Caminho difícil
Depois de cumprir a sua tarefa, Ibrahim Alloush entra no seu velho camião, liga o motor e parte numa viagem difícil pelos bairros devastados de Jabalia.
Para Alloush, a luta não termina na central de água. Circular por Gaza não é fácil. As ruas estão destruídas, há escombros por todo o lado, mas este tem de chegar às pessoas que o esperam — pessoas que esperam por água.
Há sempre alguém à sua espera. Há zonas onde é praticamente impossível chegar de camião. Se não fosse Alloush, essas comunidades não teriam qualquer abastecimento.
Sem água não há vida
“Estamos a viver uma crise grave de água”, diz Ayman Kamal, residente da Faixa de Gaza. Enquanto alguns esperam meio dia apenas para encher cinco ou dez galões, outros nem sequer conseguem água, porque ficam demasiado atrás na fila.
“Sem água, não há vida… Esperamos por água potável que vem de zonas distantes, e as pessoas aglomeram-se para conseguir a sua parte”, diz outro residente, Fathi al-Kahlout, enquanto enche o seu balde.
“O bloqueio trouxe-nos muitos problemas. Esperamos que o mundo olhe para nós, nem que seja por um dia, como olha para outros países. Toda a gente, noutros países, vive com conforto. Porquê fomos nós condenados a isto?”, questiona Sameer Badr, explicando que os seus filhos passam os dias a ir e voltar à procura de água.
Crise de água a agravar-se
O encerramento contínuo das passagens fronteiriças e a proibição de entrada de combustível estão a paralisar as centrais de dessalinização. O fecho dos principais oleodutos de abastecimento de água também provocou uma redução drástica na quantidade de água potável disponível para os habitantes de Gaza. A crise está a piorar, alerta o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF).
Com o colapso do cessar-fogo, os trabalhos de reparação em poços e pontos de água essenciais foram totalmente interrompidos, deixando muitas fontes fora de serviço ou em risco de danos maiores.
Segundo a UNICEF, cerca de um milhão de pessoas — incluindo 400 mil crianças — estão atualmente a receber uma ração diária de seis litros por pessoa, uma quebra acentuada face à média anterior de 16 litros.
Se o combustível acabar, a UNICEF avisa que esta quantidade poderá cair para menos de quatro litros por dia nas próximas semanas, forçando as famílias a recorrer a fontes de água não seguras, o que aumenta significativamente o risco de surtos de doenças, sobretudo entre as crianças.