Uncategorized Gaza: Guterres condena uso da fome como arma de guerra

Gaza: Guterres condena uso da fome como arma de guerra

© UNICEF/Mohammed Nateel | Mulheres em Gaza desesperadas de fome

A crise humanitária em Gaza está a atingir proporções catastróficas. À medida que a fome se alastra no território devastado pela guerra, as agências das Nações Unidas alertam que os esforços recentes para aumentar a ajuda humanitária, ainda que bem-vindos, são manifestamente insuficientes para travar o agravamento da desnutrição e o número crescente de mortes por inanição. 

Num apelo urgente feito esta semana, o secretário-geral da ONU, António Guterres, reforçou que “a fome alimenta a instabilidade e mina a paz”, sublinhando que nunca deve ser usada como arma de guerra. Na mesma linha, o Programa Alimentar Mundial (PAM) classificou a situação como “um desastre a desenrolar-se diante dos nossos olhos”, alertando que este cenário não é apenas um aviso, mas sim uma chamada à ação. 

De acordo com os últimos dados da Plataforma de Classificação Integrada da Segurança Alimentar (IPC), dois dos três critérios que definem uma situação de fome já foram atingidos: o consumo alimentar em queda acentuada e a desnutrição aguda. O terceiro critério, mortes por inanição, poderá ser confirmado em breve, com a Organização Mundial da Saúde (OMS) a reportar 63 mortes por desnutrição apenas no mês de julho, incluindo 24 crianças com menos de cinco anos. 

A UNRWA, agência da ONU de apoio aos refugiados palestinianos, confirmou que mais de 100 pessoas já morreram à fome e insiste que pelo menos 500 a 600 camiões com alimentos, medicamentos e artigos de higiene precisam de entrar diariamente para travar esta catástrofe. Muitos destes camiões permanecem bloqueados na Jordânia e no Egito, à espera de autorização para atravessar as fronteiras com Gaza. 

Apesar de Israel ter anunciado a criação de “pausas humanitárias diárias” e o levantamento de algumas restrições alfandegárias, a ONU afirma que a entrada de ajuda continua a ser um “pingo” face à “maré” de necessidades. Uma em cada três pessoas em Gaza não come há dias, e os hospitais, sobrelotados e com escassos recursos, já trataram mais de 20 mil crianças com desnutrição aguda desde abril. 

© OMS | Uma menina gravemente subnutrida em Gaza. As equipas humanitárias têm apelado repetidamente a Israel para que permita a entrada de muito mais ajuda em Gaza para evitar a catástrofe humanitária em curso.

A devastação é quase total. Cerca de 90% da população de Gaza, 2,1 milhões de pessoas, já foi deslocada, muitas vezes mais do que uma vez. Desde o fim do cessar-fogo, em março, registaram-se mais de 760 mil novos deslocamentos. Com infraestruturas destruídas e corredores humanitários frequentemente bloqueados ou atacados, a entrega de ajuda continua a enfrentar enormes desafios. 

Na véspera da Conferência de Alto Nível sobre a Palestina, o alto-comissário da ONU para os Direitos Humanos, Volker Türk, apelou a uma ação imediata para pôr fim à ocupação ilegal e à destruição contínua em Gaza. Classificou o território como “um cenário distópico de ataques mortais e destruição total”, onde crianças morrem à fome e famílias são abatidas enquanto procuram comida. “Os países que não usarem a sua influência podem ser cúmplices de crimes internacionais”, alertou, apelando a medidas concretas para pressionar Israel e reabrir caminho para a solução de dois Estados.