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Global Compact Network Portugal: empresas unidas por um mundo mais sustentável

O United Nations Global Compact é uma iniciativa lançada em 2000 pelo então Secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, que tem como objetivo mobilizar empresas a criar um mundo mais sustentável. Deste modo, propõe-se, através de uma série de medidas e metas alinhar as suas estratégias e operações com Dez Princípios nas áreas de Direitos Humanos, Práticas Laborais, Ambiente, Anticorrupção e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

A diretora executiva da rede portuguesa Global Compact Network Portugal, Anabela Vaz Ribeiro, dá-nos a conhecer um pouco do trabalho da iniciativa, assim como os objetivos a levar a cabo para alcançar as metas pretendidas.

ONU Portugal: Pode explicar um pouco em que consiste o trabalho do United Nations Global Compact em termos mundiais?

Anabela Vaz Ribeiro: O United Nations Global Compact é uma iniciativa de sustentabilidade empresarial que foi criada pelo então Secretário-geral Kofi Annan. Este acreditava que a sustentabilidade nunca seria alcançada se as empresas não estivessem envolvidas.

Antes do lançamento da iniciativa, estas questões eram discutidas na Assembleia Geral por plataformas criadas ao nível dos governos nacionais, das organizações supranacionais como a ONU, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), a Organização Internacional do Trabalho (OIT), entre outras. No entanto, a visão de Kofi Annan era a de fazer chegar as ideias de sustentabilidade aos mercados e às empresas. O ex-Secretário-geral acreditava que a mensagem tinha de ser disseminada o mais depressa possível para chegar à sociedade civil e para que as empresas alterassem as suas estratégias e operações e, assim, se gerasse uma mudança de comportamento. Hoje em dia, o UN Global Compact é considerado como a maior iniciativa de sustentabilidade do mundo e o facto de ter chegado às empresas colocou a iniciativa na agenda da maioria dos governos nacionais.

A visão do UN Global Compact é a de criar um código de ética para as empresas. Assim, definiu aquilo que são conhecidos como os Dez Princípios do UN Global Compact nas áreas de Direitos Humanos, Práticas Laborais, Ambiente e Anticorrupção. Desde 2015 foi-nos atribuída a responsabilidade adicional de trabalhar em prol da Agenda 2030, ou seja, apoiar no alcance dos ODS. Deste modo, é necessário alterar estratégias e operações, alterar modelos de governação das empresas e levar a que todos os processos de tomada de decisão integrem princípios de sustentabilidade.

ONU Portugal: Como funciona este mecanismo do UN Global Compact?

AVR: A iniciativa está presente em 161 países através de 69 redes locais. Em Portugal, a rede é acolhida pela Associação Portuguesa de Ética Empresarial, a entidade que assegura o suporte, e é presidida por Mário Parra da Silva.

ONU Portugal: Quantas empresas fazem parte da rede em Portugal?

AVR: Neste momento contamos com 110 a 115 entidades portuguesas e estamos sempre com muitas em processo de adesão, porque a iniciativa tem padrões de integridade que implicam um processo de diligência devida complexo. Ou seja, é necessário recolher muita informação sobre as empresas, o que faz com que, neste momento, tenhamos cerca de duas mil em processo de integração a nível global. A barreira das 100 entidades em Portugal foi ultrapassada no ano passado, apesar das circunstâncias. Na minha opinião, este fenómeno está relacionado com o momento que estamos a viver atualmente, em que o tema da sustentabilidade passou a ser parte da agenda diária, mas também porque desenvolvemos programas específicos para tratar os temas que fazem parte da Década de Ação.

Desde 2018, o UN Global Compact alterou a sua forma de funcionamento. Devido à pandemia, os ODS não estão a ser implementados à velocidade esperada, por isso a iniciativa tem vindo a investir nas áreas onde se verificam as maiores lacunas para acelerar a ação. A emergência climática exige uma resposta coordenada e global e o UN Global Compact tem responsabilidades nesse movimento. Neste momento temos diversas calls to action e três programas em funcionamento, dois deles centrados nos grandes desafios identificados pelo Secretário-geral da ONU, António Guterres, que é, também, o Presidente do Conselho de Administração do UN Global Compact. O primeiro programa, designado “Target Gender Equality”, dirige-se às questões da igualdade de género que se constitui como “um dos maiores desafios da humanidade”. Este programa capacita as empresas e convida-as a comprometer-se com o estabelecimento de metas relacionadas com a percentagem de mulheres em cargos de decisão. Falando em números, entre homens e mulheres, globalmente, existe uma diferença de género de 137 anos e uma diferença económica de 267 anos, o que é bastante alarmante. O segundo programa relaciona-se com a emergência climática. É urgente a redução drástica dos níveis de emissões de gases com efeito de estufa que são gerados por todos os países e atividades económicas. Deste modo, foi lançada a call to action  “Business Ambition for 1.5ºC” com o objetivo de tentar limitar o aumento da temperatura a um grau e meio para evitarmos consequências ainda mais devastadoras para o planeta e, sobretudo, para as pessoas. Estamos, também, a lançar o Climate Ambition Accelerator, um programa de capacitação para as empresas que as ajuda no cálculo das suas emissões e na definição de estratégias de redução para que consigamos alcançar a neutralidade carbónica até 2050. Temos, ainda, um programa mais integrador designado SDG Ambition, dedicado a objetivos transversais da Agenda 2030 que leva as empresas a trabalhar para alcançar os ODS.

ONU Portugal: Podia explicar a nova dinâmica no funcionamento do UN Global Compact?

AVR: O UN Global Compact tem uma nova estratégia que expressa a nossa ambição de acelerar e dimensionar o impacto coletivo global dos negócios, ancorada nos Dez Princípios e no desenvolvimento dos ODS. A estratégia foi lançada pela nova CEO e Executive Director, Sanda Ojiambo, e isso leva-nos a trabalhar de uma forma diferente. Estamos a convidar as empresas a aumentar o seu grau de ambição, daí o lançamento destes programas e o desafio para que estabeleçam metas públicas que, obviamente, vão influenciar a sua imagem e reputação no mercado, mas que as levam além do compromisso. Estudos realizados ao longo do ano revelam que as entidades assumem compromissos com um conjunto de objetivos, porém, quando entramos na fase de estabelecer metas, planos de ação e apresentar resultados, o número de empresas decresce significativamente. Por isso, propomo-nos a implementar programas de ação local, de modo a trabalhar de forma mais próxima com as entidades, encaminhando-as para uma mudança de estratégia que lhes permite alcançar melhores resultados. Por outro lado, existe uma lógica de ação mais coletiva. Temos o exemplo da parceria com a UN Women, no âmbito dos “Women’s Empowerment Principles”, um conjunto de sete princípios que defendem a igualdade de género no local de trabalho, no mercado e na comunidade. A Science Based Targets initiative” é um outro exemplo. Ambas aceleram a ação das empresas e ajudam no progresso dos objetivos.

ONU Portugal: E no que respeita às pequenas e médias empresas, tendo em conta que constituem grande parte do tecido empresarial português?

AVR: O objetivo desta nova estratégia é escalar o impacto e chegar às pequenas e médias empresas (PMEs). Tendo em conta que a grande parte do tecido empresarial português é constituído por este tipo de empresas é necessário produzir uma mudança no mercado e introduzir os princípios de sustentabilidade nessas empresas, de modo a conseguir alcançar os ODSs. Na realidade, a nossa mensagem para as PMEs é que a Agenda 2030 não é apenas da ONU, mas de todos nós. Representa um conjunto de oportunidades em que é preciso trabalhar e ter algum grau de criatividade e inovação para resolver os problemas que nos afetam a todos. Portanto, se se olhar para a Agenda como algo que indica um roteiro daquilo que a sociedade civil precisa de fazer, conseguimos ver um conjunto de oportunidades que irão ajudar o progresso económico.

ONU Portugal: Gostaria de deixar um convite aos empresários que potencialmente venham a ler esta entrevista? Gostaria de os desafiar a aderir ao UN Global Compact?

AVR: Convidava os empresários, empreendedores e aqueles que, de alguma forma, desenham o mercado português a juntarem-se a esta iniciativa em prol de um bem comum para a sociedade, de modo a ultrapassar os desafios que nos afetam a todos. Quando convidamos as empresas a fazer parte das calls to action, sejam elas em que área forem, na realidade estamos a tentar juntar conhecimento, juntar vontades, estabelecer parcerias para alcançar um objetivo que não se consegue fazer apenas com um governo ou com um conjunto de visionários. Precisamos de todos para não deixar ninguém para trás.

 

 


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