Durante importante discurso em Londres denuncia dependência dos combustíveis fósseis e propõe sete medidas urgentes para enfrentar o aquecimento global e garantir segurança energética
O secretário-geral das Nações Unidas lançou um forte apelo à ação climática durante a London Climate Action Week, ao afirmar que o mundo enfrenta simultaneamente duas grandes crises interligadas: a crise climática e a crise energética. No seu discurso, sublinhou que ambas resultam de um mesmo fator — a dependência dos combustíveis fósseis — e exigem uma resposta comum, centrada numa transição rápida e justa para energias limpas.
António Guterres começou por alertar que os sinais da crise climática são cada vez mais evidentes e alarmantes, referindo que os últimos onze anos foram os mais quentes já registados, enfatizando ainda que os fenómenos climáticos extremos estão a tornar‑se mais frequentes e destrutivos, enquanto os cientistas avisam que o planeta se aproxima de pontos de não retorno.
O líder da ONU destacou ainda o papel de fenómenos climáticos como o El Niño, que poderá agravar ainda mais o aumento das temperaturas globais e desestabilizar os sistemas alimentares e hídricos. Segundo o diplomata português, o objetivo definido no Acordo de Paris de limitar o aquecimento global a 1,5 °C está em risco iminente de ser ultrapassado nos próximos anos.
Entre as consequências mais graves desse cenário, o secretário‑geral apontou o colapso de recifes de coral, a aceleração do degelo na Gronelândia e na Antártida Ocidental, e a ameaça de subida do nível do mar que poderá afetar milhões de pessoas. Destacou também o risco de transformação da Amazónia e de alterações profundas nos sistemas oceânicos.
Paralelamente, Guterres abordou a segunda crise, a energética, agravada por tensões geopolíticas no Médio Oriente. Esta situação provocou choques nos mercados energéticos globais comparáveis às crises do petróleo dos anos 1970, gerando impactos significativos, sobretudo nos países em desenvolvimento.
O secretário‑geral criticou o modelo económico atual, baseado em combustíveis fósseis, classificando-o como ultrapassado e insustentável. Segundo ele, este sistema não só intensifica a crise climática como aprofunda desigualdades, penalizando sobretudo os países e populações mais vulneráveis, que menos contribuíram para o problema.
Apesar do cenário preocupante, Guterres destacou que existe uma oportunidade histórica para mudar de rumo. Apontou o crescimento acelerado das energias renováveis, com custos significativamente reduzidos nas últimas décadas, tornando‑as a opção mais barata e acessível em muitas regiões do mundo.
O secretário‑geral defendeu que a segurança energética do futuro dependerá da independência face aos combustíveis fósseis, reforçando que fontes como o sol e o vento não estão sujeitas a bloqueios geopolíticos. Sublinhou ainda a necessidade de eletrificação da economia e de investimentos em infraestruturas energéticas modernas.
Neste discurso emblemático, Guterres apresentou sete medidas essenciais para enfrentar as crises, incluindo a redução imediata das emissões, o corte do metano, o fim da expansão dos combustíveis fósseis e uma transição energética justa. Destacou também a importância de regular o impacto ambiental das tecnologias emergentes, como os centros de dados ligados à inteligência artificial.
Por fim, Guterres insistiu na necessidade de financiamento internacional robusto para apoiar os países em desenvolvimento, bem como na defesa da ciência e da verdade face à desinformação. Concluiu a sua intervenção com uma mensagem de esperança, afirmando que o mundo ainda pode transformar estas duas crises numa oportunidade histórica para construir um futuro mais sustentável e justo.
Leia o dicurso na íntegra aqui (em inglês).