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Artigos Guterres apela aos líderes mundiais para que reforcem cooperação perante crises globais

Guterres apela aos líderes mundiais para que reforcem cooperação perante crises globais

Foto ONU/Mark Garten: O Secretário-Geral António Guterres fala aos jornalistas antes da semana de alto nível da Assembleia Geral das Nações Unidas de 2026.

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, aproveitou a última conferência de imprensa antes da semana de alto nível da 81.ª sessão da Assembleia Geral da ONU para lançar um apelo direto aos líderes mundiais: que cumpram os compromissos assumidos na Carta das Nações Unidas e reforcem a cooperação internacional num momento marcado por conflitos, tensões geopolíticas, desigualdades crescentes e os desafios colocados pela inteligência artificial

Em declarações aos jornalistas, Guterres afirmou que o mundo atravessa uma era de “profunda incerteza”, caracterizada por mudanças nas dinâmicas de poder e por transformações globais que exigem uma adaptação das instituições multilaterais. No entanto, alertou que a modernização das estruturas internacionais não pode significar o abandono dos princípios fundadores da ONU.

“O sistema internacional deve mudar com o mundo, mas sem renunciar aos seus valores”, defendeu, sublinhando que as Nações Unidas são “não apenas uma plataforma, mas uma promessa”. Nesse contexto, pediu aos Estados-membros que respeitem o direito internacional, protejam os direitos humanos, invistam no desenvolvimento sustentável e inclusivo e trabalhem ativamente pela paz.

 

Médio Oriente no centro das preocupações

Grande parte da intervenção foi dedicada à situação no Médio Oriente. Guterres insistiu que a prioridade absoluta da comunidade internacional deve ser a redução das tensões, afirmando que a “desescalada” deve ser a “prioridade número um, dois e três”.

O chefe da ONU apelou a todas as partes envolvidas para que cessem ações que coloquem civis em risco e garantam o acesso seguro e sem obstáculos da ajuda humanitária. Defendeu também o respeito pela liberdade de navegação nos estreitos de Ormuz e de Bab al-Mandab, considerados cruciais para o comércio e a segurança globais.

Sobre a questão palestiniana, alertou para o sofrimento contínuo da população em Gaza e na Cisjordânia. Guterres exigiu a plena implementação do plano de paz para Gaza, com acesso irrestrito à assistência humanitária, e criticou o que descreveu como uma “anexação gradual” da Cisjordânia. Reiterou ainda que não haverá paz duradoura na região sem a concretização da solução de dois Estados.

 

Apelo a cessar-fogo na Ucrânia

O secretário-geral voltou igualmente a abordar a guerra na Ucrânia, lembrando que o conflito entrou no seu quinto ano desde a invasão em grande escala lançada pela Rússia. Segundo Guterres, o prolongamento da guerra continua a provocar enorme sofrimento entre a população civil e a gerar consequências globais profundas. Por isso, considerou urgente a adoção de um cessar-fogo imediato como primeiro passo para alcançar uma paz justa, duradoura e abrangente, em conformidade com a Carta da ONU, o direito internacional e as resoluções das Nações Unidas.

 

Inteligência artificial exige regras globais

Na parte final da conferência, Guterres destacou a crescente preocupação internacional com a rápida evolução da inteligência artificial (IA). Reconhecendo o potencial da tecnologia para acelerar o desenvolvimento sustentável, melhorar a educação, reforçar os sistemas de saúde e aumentar a resiliência climática, advertiu que o desenvolvimento da IA está a avançar mais rapidamente do que a capacidade de compreender plenamente os seus riscos.

O líder das Nações Unidas observou que muitos especialistas e empresas do setor têm alertado para os perigos associados a sistemas de IA cada vez mais poderosos. Embora alguns defendam uma pausa temporária no desenvolvimento da tecnologia, Guterres afirmou que medidas voluntárias e isoladas não são suficientes para responder aos desafios.

Para o secretário-geral, os governos têm a responsabilidade de proteger os cidadãos dos potenciais riscos da inteligência artificial, mas a ação nacional deve ser complementada por uma coordenação internacional eficaz, uma vez que os impactos da tecnologia não respeitam fronteiras.

Guterres destacou o trabalho do Painel Científico Internacional Independente sobre Inteligência Artificial, criado sob a égide da ONU, como uma ferramenta para garantir que as decisões políticas sejam orientadas pela evidência científica. Defendeu ainda a criação de mecanismos globais de supervisão que assegurem que a IA seja desenvolvida de forma segura, transparente, responsável e centrada na dignidade humana.

 

Cooperação internacional “mais necessária do que nunca”

Concluindo a sua intervenção, Guterres alertou para aquilo que classificou como três ameaças existenciais enfrentadas pela humanidade: o avanço descontrolado da inteligência artificial, a crise climática e o agravamento das desigualdades.

Perante esse cenário, sustentou que a cooperação internacional continua a ser indispensável. “O mundo não pode permitir uma corrida para o fundo em matéria de segurança da inteligência artificial”, afirmou, defendendo regras comuns que promovam a confiança entre os países e garantam que a inovação tecnológica serve o bem comum.

A mensagem central deixada aos líderes que participarão na próxima semana de debates da Assembleia Geral foi clara: cumprir os compromissos assumidos, respeitar os princípios da Carta das Nações Unidas e reforçar o multilateralismo para enfrentar desafios que nenhum país consegue resolver sozinho.