O secretário-geral António Guterres lançou um forte apelo aos líderes mundiais na véspera da Semana de Alto Nível da Assembleia Geral das Nações Unidas, alertando que uma “crise global”, marcada pela guerra, pelas alterações climáticas, pela desigualdade e pelos riscos tecnológicos exige uma ação urgente e coordenada.
“Estamos a enfrentar uma crise global. Os conflitos estão a multiplicar-se num contexto em que as divisões geopolíticas não permitem enfrentá-los de forma eficaz”, afirmou Guterres à ONU News, numa entrevista com a chefe de Comunicações Globais, Melissa Fleming.
“Há uma sensação de impunidade, cada país acredita que pode fazer o que quiser. Por outro lado, vemos que os países em desenvolvimento enfrentam enormes dificuldades. Muitos estão a afundar-se em dívidas, sem acesso ao financiamento concessionado de que necessitam para recuperar as suas economias. A desigualdade está a aumentar.”
A cooperação internacional é indispensável
O secretário-geral destacou os múltiplos domínios em que as Nações Unidas procuram mobilizar a cooperação internacional.
“As alterações climáticas ainda não estão sob controlo. E temos vários sinais de que será provavelmente muito difícil manter o nosso objetivo central, que é limitar o aquecimento global a menos de 1,5° Celsius,” afirmou, referindo-se ao limite estabelecido no Acordo de Paris sobre as alterações climáticas, de 2015.
António Guterres alertou também que, embora tecnologias de ponta como a inteligência artificial ofereçam potencial, podem amplificar a polarização e o discurso de ódio, pelo que a sua governação deve “garantir que a agência humana seja preservada e que estas tecnologias se tornem uma força para o bem.”
Guterres sublinhou que a Assembleia da próxima semana deve resultar em compromissos concretos em áreas-chave: redução das emissões de carbono, reforma do sistema financeiro internacional e reforço do multilateralismo.
O secretário-geral apelou aos líderes para “inverter a maré” e aceitar reformas na arquitetura financeira internacional, promovendo maior justiça e igualdade.
Foco no Médio Oriente
A paz e a segurança estarão também no centro das discussões. O secretário-geral afirmou esperar um apoio claro à solução de dois Estados para pôr fim ao conflito entre Israel e Palestina, bem como medidas imediatas para enfrentar a crise humanitária em Gaza.
“O massacre que está a acontecer em Gaza tem de acabar… precisamos de um cessar-fogo imediato, com a libertação de todos os reféns também de forma imediata,” declarou.
Guterres destacou ainda o Sudão e outros chamados “conflitos esquecidos”, apelando a uma ação unificada do Conselho de Segurança para evitar mais sofrimento.
Ação climática já
António Guterres afirmou à subsecretária-geral Fleming que o seu compromisso com o combate às alterações climáticas, através de uma ação urgente, permanece inabalável.
“Cada Estado-membro deve apresentar o seu novo plano climático… que traga uma redução drástica das emissões… para evitar uma irreversibilidade que conduziria a um desastre de proporções enormes para as populações de todo o mundo,” declarou, sublinhando que os países mais vulneráveis, incluindo os pequenos Estados insulares em desenvolvimento e o continente africano, enfrentam riscos desproporcionais.
“Estou determinado”
Numa nota pessoal, Guterres rejeitou qualquer conselho de desespero.
“Não sou otimista nem pessimista, estou determinado… temos de construir esperança e nunca desistir até que os nossos objetivos sejam alcançados.”
*Artigo da autoria da ONU News
Veja a entrevista na íntegra: