Artigos Guterres Exige Ação Imediata para Travar a Crise da Biodiversidade

Guterres Exige Ação Imediata para Travar a Crise da Biodiversidade

UN Photo/Cia Pak |

 Na COP17 da Biodiversidade, o secretário-geral da ONU alertou que o mundo está a falhar nas metas de proteção da natureza e apelou a uma mudança profunda nas políticas, no financiamento e na cooperação global para evitar um futuro inabitável.

 

Num discurso marcado por um forte apelo à urgência e à responsabilidade política, o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, afirmou que a humanidade está a destruir os próprios alicerces da vida na Terra e alertou que os compromissos assumidos para travar a perda de biodiversidade continuam longe de ser cumpridos.

Perante os líderes reunidos na Cimeira dos chefes de Estado e de Governo da COP17 da Biodiversidade, sob o tema “Líderes pela Natureza”, Guterres recordou que a alimentação, a água e o ar que sustentam a vida dependem diretamente da biodiversidade. Contudo, denunciou que atividades humanas como as alterações climáticas, a poluição, a sobrepesca, o sobrepastoreio, a utilização excessiva de fertilizantes e pesticidas e a proliferação de espécies invasoras continuam a acelerar a destruição dos ecossistemas.

Segundo o líder da ONU, mais de um milhão de espécies estão atualmente em risco de extinção, aproximando o planeta de um cenário cada vez mais hostil à vida humana.

 

Progresso insuficiente para atingir as metas de 2030

Guterres reconheceu que houve avanços desde a adoção, em 2022, do Quadro Global para a Biodiversidade de Kunming-Montreal. Cerca de 90% dos países já definiram metas nacionais para a biodiversidade e mais de metade apresentou estratégias de implementação.

Além disso, desde então, mais 1,3 milhões de quilómetros quadrados de território terrestre e 6 milhões de quilómetros quadrados de áreas marinhas passaram a estar formalmente protegidos.

Apesar destes progressos, o secretário-geral considerou que os resultados continuam demasiado lentos. Ao ritmo atual, apenas 26% dos ecossistemas terrestres e 12% dos ecossistemas marinhos estarão protegidos até 2030, muito abaixo da meta internacional de proteger 30% das terras e dos oceanos até ao final da década.

“Yerevan é o nosso momento de prestação de contas”, afirmou, questionando diretamente se os governos estão realmente a fazer o suficiente para cumprir as promessas assumidas.

 

Biodiversidade, clima e poluição: uma só crise

Uma das mensagens centrais do discurso foi a necessidade de encarar a perda de biodiversidade como parte de uma crise global mais ampla.

Para Guterres, os desafios relacionados com os conflitos, a insegurança alimentar, as doenças, as alterações climáticas e a degradação ambiental estão profundamente interligados. Por isso, argumentou, não é possível resolver um destes problemas sem enfrentar os restantes.

O responsável das Nações Unidas sublinhou que o combate à chamada “tripla crise planetária” – alterações climáticas, perda de biodiversidade e poluição – exige uma abordagem integrada em todas as decisões políticas.

 

Governos chamados a mudar políticas económicas

O diplomata português apelou ainda a uma transformação profunda das políticas públicas, defendendo modelos económicos que respeitem os limites ecológicos do planeta. Entre as medidas consideradas prioritárias estão:

  • A promoção da economia circular e de desperdício zero;
  • A agricultura sustentável e regenerativa;
  • O reforço da monitorização e transparência ambiental;
  • A aplicação rigorosa da legislação já existente;
  • A integração da biodiversidade em todas as políticas governamentais, incluindo orçamentos e regulamentação.

Guterres saudou ainda a Declaração de Yerevan, que compromete os participantes da conferência a colocar a proteção da natureza no centro da tomada de decisões públicas.

 

“Estamos a financiar a destruição da natureza”

Em relação a financiamento, segundo Guterres, por cada dólar investido na proteção da natureza, são gastos 30 dólares em atividades que a degradam. Em 2023, cerca de 7,3 biliões de dólares foram direcionados para setores prejudiciais ao ambiente, incluindo combustíveis fósseis, indústrias altamente poluentes e práticas agrícolas destrutivas.

Num dos momentos mais fortes da intervenção, reiterou uma frase já utilizada noutras ocasiões: “Subsidiar os combustíveis fósseis é subsidiar o suicídio.” O líder da ONU defendeu o fim destes apoios públicos e o redirecionamento desses recursos para soluções sustentáveis que beneficiem simultaneamente as pessoas e o planeta.

 

Mais investimento para os países em desenvolvimento

Guterres alertou também para as desigualdades existentes no sistema financeiro internacional.

Muitos países em desenvolvimento, afirmou, continuam presos a elevados níveis de endividamento e dispõem de reduzida margem orçamental para investir simultaneamente na proteção ambiental e no desenvolvimento social.

Por isso, apelou a um aumento do financiamento internacional, a um maior envolvimento dos bancos multilaterais de desenvolvimento e a uma reforma da arquitetura financeira global, para que os países mais vulneráveis tenham maior acesso a recursos e influência nos processos de decisão.

 

Juventude, mulheres e povos indígenas no centro das soluções

Na terceira grande mensagem do discurso, António Guterres destacou que a proteção da biodiversidade não depende apenas dos governos e das instituições financeiras.

O sucesso dos objetivos globais exige o envolvimento da juventude, da sociedade civil, das mulheres, das comunidades locais e dos povos indígenas.

O secretário-geral afirmou que os conhecimentos tradicionais acumulados ao longo de gerações constituem uma das ferramentas mais valiosas para proteger os ecossistemas e recuperar o equilíbrio entre a humanidade e a natureza.

Numa formulação simbólica, descreveu esse património como uma poderosa forma de “Inteligência Ancestral”.

 

Um apelo final às gerações futuras

Nos momentos finais do discurso, e lembrando que faltam apenas 76 dias para terminar o seu mandato como Secretário-Geral da ONU, Guterres assumiu um tom mais pessoal.

Referindo-se aos seus filhos e netos, afirmou que as gerações futuras contam com a capacidade de liderança dos atuais decisores políticos. Inspirando-se nos exemplos da natureza, comparou os verdadeiros líderes às matriarcas dos elefantes, às aves migratórias que abrem caminho ao grupo e às espécies pioneiras que regeneram os solos após os incêndios.

A mensagem final foi clara: o mundo ainda tem tempo para mudar de rumo, mas a janela de oportunidade está a fechar-se rapidamente.

“Temos de agir com a urgência que este momento exige. Pelos nossos filhos. Pelo nosso futuro. E por toda a vida na Terra.”