Longe das manchetes Iémen: sem paz e com muito sofrimento

Iémen: sem paz e com muito sofrimento

UNICEF Alaa Noman/ Uma mãe segura o seu filho perto da sua casa, no bairro de Al-Adani, em Al-Hawtah, no Iémen.

O Iémen entrou numa complexa crise há mais de uma década. Embora os combates em larga escala tenham diminuído desde a trégua mediada pelas Nações Unidas em 2022, o país permanece ainda profundamente fragmentado, economicamente devastado e vulnerável a novos conflitos, um cenário agravado pelo aumento das tensões na região do Médio Oriente. O impacto humanitário é severo: quase metade da população necessita de ajuda humanitária.

Qual é a crise no Iémen?

O país enfrenta uma das crises mais prolongadas e devastadoras da história moderna, com anos de instabilidade política e conflitos armados a cobrarem um preço pesado à população e à região.

Desde a eclosão dos distúrbios em 2011, o Iémen tem estado preso numa complexa crise política e humanitária que já deslocou milhões de pessoas, dizimou a economia e deixou os serviços básicos em ruínas.

A crise no Iémen começou após a Primavera Árabe de 2011, que deu origem a uma frágil transição política. Entre 2014 e 2015, o movimento Houthi (Ansar Allah) apreendeu a capital, Sana’a, o que forçou o governo internacionalmente reconhecido a deixar o país. A situação escalou para uma guerra em grande escala quando a coligação liderada pela Arábia Saudita interveio militarmente em março de 2015, para restabelecer o governo.

Desde então, o Iémen está fragmentado entre as áreas controladas pelos Houthis, a norte e oeste, e as zonas controladas pelo governo, apoiado por atores regionais e territórios sob o domínio de outros grupos armados, incluindo o Conselho de Transição do Sul (CTS) que contava com o apoio dos Emirados Árabes Unidos. O CTS tentou assumir o controlo do sul e leste do Iémen no final de 2025, antes de ser repelido por uma contra-ofensiva lançada pelas forças governamentais da Arábia Saudita. Dissolvido em janeiro de 2026, o CTS atualmente não controla qualquer território, mas as tensões persistem no sul, onde o governo continua a lutar para consolidar plenamente a sua autoridade.

Este conflito é tanto interno como regional, influenciado pela Arábia Saudita, pelos Emirados Árabes Unidos e pelo Irão e, desde 2023, pelo alargamento das tensões no Médio Oriente que afetam o Mar Vermelho.

 

Crises Humanitárias

Depois de mais de 15 anos de guerra e conflito, o Iémen enfrenta um sofrimento humanitário extremo:

  • 19.5 milhões de pessoas (mais de metade da população) precisaram de assistência humanitária em 2025 e 2026;
  • 18.3 milhões estão em situação de insegurança alimentar aguda;
  • Mais de 2.2 milhões de crianças com menos de cinco anos sofrem de desnutrição aguda;
  • Apenas cerca de 59% das instalações de saúde estão totalmente funcionais.

 

Ataques aéreos contínuos, bombardeamentos, minas terrestres, colapso económico e choques climáticos como inundações e secas, têm devastado os meios de subsistência e infraestruturas.

Apesar das necessidades, as Nações Unidas relatam que o Plano de Resposta Humanitária de 2025 para o Iémen contou apenas com 25% de financiamento, o que forçou cortes na assistência alimentar, nos serviços de saúde e nos programas de proteção.

Foto: UNICEF/Ahmed-Haleem – Os funcionários das Nações Unidas continuam a trabalhar no Iémen, apesar da ameaça de uma retoma do conflito no país.

Qual a ação da ONU no Iémen?

As Nações Unidas têm três papéis principais no Iémen: mediação da paz, assistência humanitária e a defesa dos direitos humanos.

Mediação da Paz: O enviado especial do secretário-geral da ONU para o Iémen, Hans Grundberg, lidera a diplomacia entre os partidos iemenitas e os atores regionais. As Nações Unidas procuram um cessar-fogo em todo o país e um processo político inclusivo liderado por iemenitas. Um plano de tréguas moderada pela ONU, em abril de 2022, reduziu significativamente os confrontos em larga escala e, desde então, as frentes de batalha têm-se mantido estáveis. Contudo, ainda não existe um acordo de paz abrangente e a guerra económica continua.

A ONU apela repetidamente que o que existe no país é uma “calma relativa, não a paz”. Desde o final de 2023 que os Houthis têm lançado ataques contra o comércio internacional marítimo no Mar Vermelho, com a justificação de que estes estariam ligados à guerra em Gaza. Os ataques motivaram bombardeamentos aéreos por partes dos Estados Unidos da América e de forças aliadas no Iémen, o que levanta preocupações relativas ao país voltar a entrar novamente numa guerra de grande escala.

Resposta Humanitária: Através de agências como a OCHA, o PMA, a UNICEF, a OMS, o ACNUR e a OIM, as Nações Unidas fornecem assistência alimentar a milhões de pessoas, tratam da desnutrição infantil, apoiam clínicas de saúde, sistemas de água, controlo de doenças e assistem mais de quatro milhões de pessoas deslocadas internamente.

As Nações Unidas também coordenam Organizações Não-Governamentais e gerem fundos comuns, como o Fundo Humanitário do Iémen, de forma a alcançar as pessoas mais vulneráveis.

Direitos Humanos: As Nações Unidas também documentam violações do Direito Internacional Humanitário e dos Direitos Humanos, incluindo ataques aéreos contra civis, detenções arbitrárias, desaparecimentos forçados e o recrutamento de crianças-soldados.

A crise no Iémen não é apenas uma guerra, mas um prolongado colapso de governação, economia e serviços básicos. A ONU é indispensável – mantém milhões de pessoas vivas, previne o aumento da guerra e oferece um caminho diplomático – mas não pode impor paz sem existir vontade política dos partidos do Iémen ou apoio internacional sustentado.

Saiba mais:

UNRIC Info Point Backgrounder: Yemen