Cerca de 1.6 milhões de pessoas em Madagáscar enfrentam uma situação de insegurança alimentar aguda e mais de 110.000 encontram-se em emergência alimentar, este ano.
Porque é que Madagáscar vive esta crise?
A crise atual em Madagáscar não é apenas um acontecimento isolado, mas o resultado de problemas que se sobrepõem e reforçam simultaneamente, frequentemente descritos pelas Nações Unidas como uma “convergência de choques”.
Madagáscar é um dos países mais expostos a fenómenos climáticos extremos, apesar de contribuir de forma quase nula para as emissões globais. Desde 2020 que, especialmente as regiões a sul e sudeste do país, têm sido atingidas por secas prolongadas e recorrentes, agravadas pela tempestade El Niño, ciclones constantes e inundações, infestações de gafanhotos e perda de colheitas e pelo aumento da escassez de água e da degradação dos solos.
Estes choques têm devastado a agricultura de subsistência, da qual depende a maior parte da população malgaxe.
Crianças que sofrem de desnutrição aguardam por tratamento num centro de nutrição no distrito de Ambovombe, em junho. Foto: © WFP/Shelley Thakral
Pobreza crónica e infraestruturas fracas
Mesmo antes dos choques climáticos, Madagáscar era já um país altamente vulnerável. Cerca de 75% da população vive abaixo do limiar da pobreza. As infraestruturas (estradas, eletricidade e sistemas de abastecimento de água) são extremamente limitadas. A agricultura depende maioritariamente da chuva, e tem pouca capacidade de irrigação ou de armazenamento.
Para além disso, serviços básicos de educação ou saúde, são frágeis, especialmente em zonas rurais. Como a maior parte dos agregados familiares não têm reservas financeiras, uma colheita falhada é suficiente para desencadear uma crise humanitária. Choques repetidos deixam as comunidades sem tempo de recuperação.
Crises de saúde relacionadas com clima e pobreza
Os choques climáticos também desencadeiam emergências de saúde, nomeadamente:
- Desnutrição aguda grave (mais de 155.000 crianças afetadas);
- Surtos de malária e de doenças diarreicas, potenciados por inundações, águas estagnadas e falta de água potável;
- Infraestruturas de saúde danificadas e sobrecarregadas;
A desnutrição e a doença reforçam-se uma à outra, o que cria um ciclo vicioso.
Madagáscar: Um dos Países Menos Desenvolvidos
Com uma população de quase 32 milhões de pessoas, Madagáscar é a quarta maior ilha do mundo e cobre uma área de 593,000 km2, o que equivale aproximadamente ao tamanho de Espanha e Portugal combinados. A ilha tornou-se numa república independente em 1958, depois de quase oito décadas de domínio Francês.
O PIB nominal em 2026 está estimado em 21 mil milhões de dólares e ocupa a posição número 132 no ranking global de PIB do Fundo Monetário Internacional (FMI). O PIB nominal per capita está estimado em 652 dólares e o país está em número 182 nessa mesma lista. Madagáscar é classificado pela ONU como um dos Países Menos Desenvolvidos do mundo.
Apesar de Madagáscar não estar inserido num conflito de larga escala, a instabilidade política agravou as vulnerabilidades da população. Em abril de 2026, o país encontrava-se numa severa crise política, na sequência do golpe de Estado militar em outubro de 2025. Um Governo de transição liderado pelos militares está atualmente em funções, presidido pelo Coronel Michael Randrianirina, após a deposição do antigo presidente, Andry Rajoelina.
As eleições presidenciais de 2023 foram boicotadas pela maioria dos candidatos da oposição e registaram uma afluência às urnas historicamente baixa. Protestos periódicos, restrições a manifestações e acusações de corrupção enfraqueceram a confiança do público. Esta instabilidade não é a causa direta da crise humanitária, mas prejudica gravemente a recuperação e resiliência do país.
“Apenas um pouco de assistência pode fazer a diferença na nossa sobrevivência e reconstrução. Hoje, vivemos na preocupação e incerteza sobre o futuro dos nossos filhos”, disse a Sra. Lala, mãe de seis crianças em Antetezambaro. © PNUD Madagascar
O que faz a ONU em Madagáscar?
A crise em Madagáscar deve-se maioritariamente a uma emergência humanitária climática, agravada pela pobreza extrema e instituições fracas, não devido à guerra.
A ONU está presente no terreno para:
- Manter as pessoas vivas através do fornecimento de alimentos, nutrição, saúde e água.
- Proteger crianças e famílias deslocadas;
- Ajudar o país a adaptar-se às mudanças climáticas e a reconstruir resiliência.
O Programa Mundial de Alimentos (PMA) lidera a resposta à emergência alimentar através da distribuição de alimentos e assistência financeira a milhões de pessoas nas regiões mais afetadas, do combate à desnutrição e do apoio a programas de refeições escolares.
Apenas em 2025, o PMA prestou assistência a quase 1.9 milhões de pessoas, apesar das pressões no financiamento.
A UNICEF foca-se no apoio às crianças em desnutrição aguda grave, na mobilização de clínicas de saúde móveis e no fornecimento de água potável, saneamento e serviços de higiene. A agência trabalha também para criar salas de aula temporárias e disponibiliza materiais de aprendizagem após inundações. Atualmente, mais de 580.000 crianças precisam de assistência humanitária atualmente em Madagáscar.
O Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), coordena todas as agências da ONU, Organizações Não-Governamentais e doadores e executa planos conjuntos de resposta humanitária e campanhas de financiamento.
Para além da ajuda financeira, as Nações Unidas trabalham para mitigar futuras crises. O PNUD, PMA, IOM e outras agências dedicam-se a desenvolver uma agricultura e meios de subsistência resistentes ao clima, a reduzir o risco de catástrofes e em criar sistemas de aviso prévio, o que apoia políticas de governação, eleições e instituições.
Estes esforços têm como objetivo quebrar o ciclo no qual secas ou ciclones se transformam em catástrofes.