Longe das manchetes Mali, Burkina Faso e Níger: 3 países no limite

Mali, Burkina Faso e Níger: 3 países no limite

Adolescentes desacompanhados lêem panfletos informativos em Lampedusa, Itália, após atravessarem o Mediterrâneo por Mali ou Níger e Líbia. Foto: UNICEF/Niccolò Corti

A região do Sahel Central, que integra Mali, Burkina Faso e Níger, tem enfrentado uma prolongada crise afastada das manchetes desde 2012. Estes três países, semi-áridos e marcados pela pobreza e insegurança, são governados por juntas militares que formaram uma aliança.

De que se trata a crise?

O Sahel Central é uma região Africana que inclui também o norte da Nigéria, na qual o grupo armado jihadista, Boko Haram, está ativo. A África permanece como “o epicentro global do extremismo violento”, de acordo com as Nações Unidas, sendo que a maior parte dos assassinatos relacionados com o terrorismo em todo o mundo, ocorrem em Sahel.

A situação de segurança no Mali deteriorou-se ainda mais no final de abril, quando o grupo armado jihadista e o movimento separatista Tuaregue atacaram várias cidades por todo o país. Os ataques assassinaram membros da junta governante de Kati, perto de Bamaco. Esta foi uma repetição do cenário de 2012 que tinha mergulhado o país na crise na qual vive atualmente.

No Burkina Faso e no Níger, as juntas militares estão no poder após os golpes de Estado de setembro de 2022 e julho de 2023, respetivamente. Os três países criaram então a Aliança dos Estados do Sahel, em 2023.

Os três países da região partilham ainda muitas outras semelhanças. Os vastos territórios que incluem áreas desérticas representam uma rota para os migrantes subsaarianos que têm como destino a Europa, via Líbia. São também zonas sem lei onde o tráfico prospera, particularmente o tráfico de cocaína da América Latina, para a Europa.

Os três países têm regimes repressivos que restringem liberdades públicas, enquanto que os grupos armados multiplicam as violações de Direitos Humanos.

O staff do PAM e parceiros distribuem alimentos na região de Gao, no Mali. Foto: pMA/Mahamadou Abdourhamane

Qual é o contexto da crise?

Trata-se de uma profunda crise de confiança entre certos segmentos da população e instituições de Estado que são acusadas de negligenciar o desenvolvimento das regiões remotas e de falhar na redistribuição da riqueza. 

A emergência e a proliferação de grupos armados pela região do Sahel tem gerado uma crise complexa desde 2012. Esta crise, inicialmente localizada no norte de Mali, espalhou-se pelas regiões centrais do país, antes de gradualmente envolver o norte de Burkina Faso e oeste de Níger e ameaçar a estabilidade de todos os países vizinhos.

Os ataques incessantes e os confrontos entre atores estatais e não-estatais, para além de obrigarem à deslocação de milhões de pessoas, complicam também o acesso humanitário e os esforços de proteção. A insegurança persistente nas zonas fronteiriças (particularmente entre Burkina Faso e Níger) está a piorar a crise humanitária.

 

Qual é o impacto da crise?

A região do Sahel Central acolhe quase 3 milhões de pessoas deslocadas internamente (2 milhões no Burkina Faso, 548 mil no Níger e 415 mil no Mali), de acordo com os dados mais recentes do Alto-Comissariado da ONU para os Refugiados (ACNUR). Para além disso, 1 milhão de refugiados residem em países vizinhos.

Os direitos humanos estão a ser violados nos três países. No Níger, o antigo presidente, deposto em julho de 2023, permanece detido. O Comité da ONU para a Eliminação da Discriminação Racial tem denunciado graves abusos contra o povo Fulani no Burkina Faso, devido à alegada associação da comunidade a grupo terroristas.

“Tais violações foram cometidas pelas Forças Armadas do Estado e pelos seus auxiliares, incluindo os Voluntários para a Defesa da Pátria, bem como por grupos armados não-estatais”, detalhou o Comité, num documento apresentado a 22 e 23 de abril, em Genebra.

Apesar dos progressos na saúde, educação e registo civil, “cerca de 7.5 milhões de crianças estão em necessidade urgente de assistência humanitária no Sahel Central. Esta é uma emergência que permanece demasiado longe da atenção da comunidade internacional”, alertou o diretor executivo adjunto da UNICEF, Ted Chaiban, no final de abril.

De acordo com o ACNUR, mais de 14.800 escolas fecharam na região, até meados de 2025, o que privou 3 milhões de crianças de ter acesso à educação e a espaços seguros.

A juventude descolada enfrenta desafios cada vez maiores de proteção e de subsistência. Os jovens estão particularmente vulneráveis ao recrutamento forçado, ao tráfico humano e ao acesso limitado a oportunidades de emprego, o que aumenta o risco de empreenderem por perigosas jornadas para fugir da região.

O Níger, encontra-se entre os países onde o alerta de fome foi emitido para 2026. “A redução do financiamento em 2025 aprofundou a fome e a desnutrição na região”, afirmou a diretora regional adjunta do Programa Mundial de Alimentos (PMA) para a África de Ocidental e Central, Sarah Longford. “À medida que as necessidades superam o financiamento, aumenta também o risco de os jovens caírem no desespero.”

No Mali, a redução das rações alimentares levou a um aumento de 64% de fome em algumas áreas. A insegurança está a perturbar o abastecimento de bens essenciais, o que deixa 1.5 milhões de Malianos vulneráveis a uma crise alimentar.

O ACNUR nota ainda que os choques relacionados com as alterações climáticas estão a intensificar a competição pelo acesso a recursos como a terra e a água. Estes são obstáculos adicionais à coexistência pacífica e à coesão social entre as pessoas deslocadas e refugiados, com as comunidades acolhedoras.

 

A resposta da ONU

A insegurança no Sahel Central está a proliferar-se para Benin, Costa do Marfim, Gana, Togo e Mauritânia, o que torna a resposta a esta crise ainda mais crucial. Mais de 30 agências da ONU estão a trabalhar no Mali, Burkina Faso e Níger.

Uma missão de Manutenção da Paz da ONU (a Missão Multidimensional Integrada da ONU na Estabilização no Mali – MINUSMA), foi estabelecida em 2012 e tinha como objetivo estabilizar o país, proteger civis e apoiar o processo político. Contudo, a missão foi retirada em julho de 2023, a pedido das novas autoridades Malianas.

Face à crise humanitária na África Ocidental e Central, a ONU e os seus parceiros apelam para um financiamento de 5.1 mil milhões de dólares e ao fim da indiferença. O objetivo é ajudar 24 milhões de pessoas vulneráveis na África Ocidental e Central. Por todas estas regiões, 42 milhões de pessoas irão precisar de assistência, mas os cortes no financiamento não permitirão à ONU cobrir todas as necessidades.