Mais de 1 milhão e 300 mil Rohingya, uma minoria muçulmana do Mianmar, fugiram do conflito e da perseguição em múltiplas ondas de deslocamento forçado. O êxodo mais significativo ocorreu em agosto de 2017, quando 742.000 Rohingyas fugiram da perseguição militar em Mianmar para o país vizinho, o Bangladesh. Aqueles que fugiram da violência e dos ataques juntaram-se aos cerca de 300.000 indivíduos que previamente procuraram refúgio no Bangladesh.
Atualmente, a região acolhe 1.3 milhões de refugiados Rohingya que dependem inteiramente de assistência humanitária para proteção, alimentação, água, abrigo e saúde. A 30 de março de 2026, foram contabilizados 3.7 milhões de deslocados internos em todo o país, a maioria desde a tomada de posse por parte dos militares.
Quem são os Rohingya?
Os Rohingya são uma minoria étnica muçulmana que vive há séculos no estado de Rakhine, a região mais pobre do país de maioria budista, Mianmar, anteriormente reconhecido como Birmânia. Apesar da sua presença histórica, os Rohingya não têm reconhecimento oficial enquanto comunidade ética. Muitos Rohingya não possuem identidade legal ou cidadania e a condição de apátridas constitui um grave problema.
Desde 1982 que foi negada cidadania à comunidade, o que levou a que se tornassem na maior população apátrida do mundo. Esta falta de reconhecimento oficial deixa as famílias Rohingya sem direitos básicos nem proteção, tornando-as suscetíveis à exploração, à violência sexual e de género e variadas formas de abuso. A maioria dos refugiados Rohingya apátridas (98%) residem atualmente no Bangladesh e na Malásia.

De que se trata esta crise?
Os Rohingya têm suportado décadas de perseguição e de discriminação no Mianmar, o que levou a mais de 1 milhão de refugiados Rohingya a fugir da violência em ondas sucessivas de deslocações desde a década de 1990. O êxodo mais significativo começou em agosto de 2017 após a eclosão de violência generalizada no Estado de Rakhine, no Mianmar, o que forçou mais de 742.000 pessoas, maioritariamente mulheres e crianças, a procurar refúgio no Bangladesh.
Durante este período, foram registados relatórios generalizados de violações de direitos humanos: aldeias inteiras reduzidas a cinzas, numerosas famílias que sofreram perdas e separações e muitos que embarcaram em viagens marítimas perigosas pela Baía de Bengala em busca de segurança no Bangladesh. Atualmente, cerca de um milhão de refugiados Rohingya vivem em Bazar de Cox, no Bangladesh, um dos campos de refugiados mais densamente populados do mundo.
O Mianmar enfrenta um caso no Tribunal Internacional de Justiça (TIJ) por alegadas violações da Convenção sobre o Genocídio de 1948, devido à forma como tratou a minoria Rohingya. O caso foi apresentado em novembro de 2019 pela Gâmbia, em nome da Organização de Cooperação Islâmica (OCI).
Bazar de Cox – O maior campo de refugiados do mundo
A maioria dos refugiados Rohingya reside em 33 campos no Cox Bazar, o maior campo de deslocados no mundo. As condições de sobrelotação nos campos são especialmente desafiantes para mulheres e crianças, que enfrentam maiores riscos de violência, exploração e tráfico humano. Garantir um lugar seguro para os refugiados continua a ser um desafio persistente, principalmente no que toca à proteção contra desastres naturais como inundações e deslizamento de terras durante a época de monções, de junho a outubro.
Para além disso, durante este período, as instalações inadequadas de água e saneamento aumentam o risco de infeções transmitidas via água como a hepatite, a diarreia aguda e dengue, entre a população refugiada.
Desafios humanitários no Mianmar
O Mianmar mergulhou numa guerra civil após o Golpe de Estado militar de fevereiro de 2021 e a detenção dos líderes civis, incluindo o presidente Win Myint e a conselheira de Estado, Aung San Suu Kyi. Em 2026, o país continua a enfrentar uma grave crise humanitária que afeta um terço da população: aproximadamente 19.9 milhões de pessoas precisam urgentemente de assistência humanitária. Este número é quase 19 vezes superior às estimativas registadas antes do golpe militar, o que evidencia a gravidade da situação. O golpe de Estado militar e as consequentes repressões violentas exacerbaram o sofrimento das comunidades minoritárias, incluindo dos muçulmanos Rohingya, o que arrasta a nação para um estado de desordem social, política e económica.
Desde outubro de 2023, os conflitos entre os militares e as fações armadas da oposição intensificaram-se e propagaram-se por todo o país, o que agravou a emergência dos Direitos Humanos. As ações militares, incluindo o ataque deliberado a civis e campanhas de recrutamento forçadas, provocaram uma vaga de deslocações generalizadas, com mais de 3.7 milhões de pessoas refugiadas no Mianmar. No estado de Rakhine, o aumento da violência entre os militares do país e o Exército de Arakan, um grupo separatista, atingiu um nível de intensidade sem precedentes, o que agravou as vulnerabilidades já existentes.
De acordo com as avaliações humanitárias consolidadas mais recentes (de 2025 ao início de 2026), cerca de 15 a 17 milhões de pessoas no Mianmar enfrentam uma situação de insegurança alimentar, o que significa que não têm acesso fiável a alimentos suficientes, seguros e nutritivos. Após o agravamento do conflito e do terramoto de março de 2025, outros relatórios indicam que o número poderá ter aumentado para cerca de 16.7 milhões de pessoas, o que representa 30% da população.
Além disso, o colapso do Estado de Direito no Mianmar permitiu o crescimento de economias paralelas. O país tornou-se num centro de produção de metanfetaminas e de ópio e ainda no palco de operações de burla cibernética, especialmente nas regiões fronteiriças.
De acordo com o relatório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (OHCHR), entre setembro de 2025 e o Golpe de Estado de 20 de agosto, foram verificados 29.560 detenções políticas com mais de 22.000 pessoas ainda detidas, muitas das quais sem garantias de julgamento imparcial em tribunais controlados pelos militares.
Fontes credíveis documentaram a detenção de quase 26.000 pessoas em termos políticos. 6.231 indivíduos foram assassinados pelos militares desde fevereiro de 2021 até janeiro-fevereiro de 2025, de acordo com o OHCHR.
Um grande número de Rohingyas continua a fugir para países mais seguros, frequentemente a enfrentar grandes riscos como passagens marítimas perigosas.
Em maio de 2023, o ciclone Mocha atingiu o Bangladesh e o Mianmar, naquele que foi um dos ciclones mais fortes de sempre a atingir a região. O ciclone Mocha impactou mais de 10 milhões de pessoas em ambos países, entre os quais os refugiados Rohingya no Bangladesh.
Em 2024, os conflitos armados intensificaram-se por Mianmar, incluindo no estado de Rakhine, à medida que a oposição contra o regime militar cresceu. Esta situação deixou os Rohyngua particularmente vulneráveis, com registos atrozes de assassinatos, tortura, violações e destruição de aldeias pelo fogo. Para além disso, no final de junho de 2024, as chuvas torrenciais de monção e as inundações de diversos rios que submergiram diversos estados e regiões agravaram as necessidades humanitárias, que já eram severas, e afetou um total de 393 mil pessoas.
Em julho de 2024, Tom Andrews, o enviado especial das Nações Unidas sobre a situação de Direitos Humanos no Mianmar publicou um relatório onde sublinha que o Golpe de Estado se traduz num retrocesso devastador para os direitos de igualdade de género e deixou mulheres, meninas e pessoas da comunidade LGBT extremamente vulneráveis a discriminação, violência e exploração. A 10 de julho de 2024, o Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas adotou uma resolução sem voto, na qual o Conselho condenou veemente todas as violações e abusos de Direitos Humanos no Mianmar, com especial destaque para o período pós-golpe de fevereiro de 2021.
Em agosto de 2024, o Mecanismo de Investigação Independente para o Mianmar publicou o Relatório Anual onde foi registado a existência de provas substanciais de que os crimes de guerra brutais e crimes contra a Humanidade cometidos pelos militares do país escalaram para a um ritmo alarmante pelo país.
Um número estimado de 3.800 pessoas morreram em resultado dos devastadores terremotos que atingiram o Mianmar a 28 de março de 2025. Os terremotos de magnitude 7.7 e 6.4 atingiram Mianmar no centro do país, a noroeste de Sagaing.
A 27 de maio de 2025, num briefing para o Conselho dos Direitos Humanos em Geneva, o alto comissário para Direitos Humanos, Volker Türk, apresentou um relatório que descreve o Mianmar como um país assolado pela guerra, repressão e sofrimento profundo. Desde o Golpe de Estado Militar, em fevereiro de 2021, quase 6.800 civis foram assassinados e mais de 22 mil permanecem arbitrariamente detidos, afirmou o responsável. As necessidades humanitárias dispararam, com quase 22 milhões de pessoas a precisar de assistência e mais de 3.5 milhões de pessoas deslocadas devido ao conflito.
A 12 de agosto de 2025, o Mecanismo de Investigação Independente para Mianmar registou um importante progresso na recolha de provas de crimes contra pessoas detidas pelas autoridades militares de Mianmar, bem como na identificação dos autores dos crimes de tortura e violência sexual.
De que forma é que a crise afeta as crianças?
As crianças são as que mais sofrem com o peso da crise, com 6 milhões de menores de idade a enfrentar desafios relacionados com deslocamentos, interrupções no acesso à saúde e educação, insegurança alimentar, desnutrição, riscos de proteção, recrutamentos forçados e sofrimento psicológico. As crianças Rohingya no estado de Rakhine enfrentam confinamentos devido à violência, deslocações forçadas e limitações na liberdade de circulação.
Até que as condições no Mianmar permitam às famílias Rohingya regressar a casa com direitos essenciais como segurança contra a violência, identidade fiscal, liberdade de circulação, saúde e educação, eles permanecem refugiados ou pessoas internamente deslocadas, a residir em condições sobrelotadas e perigosas.
A resposta à crise: As agências da ONU envolvidas e o que fazem
O Mianmar está a tornar-se numa crise esquecida. O Plano de Necessidade e Resposta Humanitária para o Mianmar (HNRP) de 2023 da ONU recebeu apenas cerca de um terço do financiamento necessário. De acordo com o HNRP para 2026, existem 16.2 milhões de pessoas necessitadas no país, o que representa mais de 45% da população. Cerca de 4.9 milhões de pessoas integram o plano de assistência, no qual é necessário um financiamento no valor de 890 milhões de dólares.
O financiamento necessário em 2025 para os refugiados Rohingya soma um total de 934.5 milhões de dólares. O plano abrange 1.48 milhões de refugiados Rohingya e comunidades de acolhimento no Bangladesh. Contudo, o financiamento recebido até 2025 foi de apenas 491.8 milhões de dólares, o que representa pouco mais de metade da verba necessária.
O financiamento é necessário para ajudar cerca de 1 milhões refugiados Rohingya no Bazar de Cox e na ilha de Bhasan Char, bem como 346 mil pessoas das comunidades de acolhimento, de forma a garantir alimentos, abrigo, cuidados de saúde, acesso à água potável, serviços de proteção, educação e oportunidades de subsistência e desenvolvimento de competências.
Seis agências das Nações Unidas, incluindo a Organização Internacional para as Migrações da ONU (OIM), a Agência da ONU para os Refugiados (ACNUR), o Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA), o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), a ONU Mulheres e o Programa Mundial de Alimentos (PMA) executam projetos de resposta para os refugiados Rohingya nos campos de Bazar de Cox e Bhasan Char, após a atribuição de mais de 9 milhões de dólares por parte do Fundo Central de Resposta a Emergências (CERF) da ONU, em janeiro de 2023.
Estas agências prestam serviços de assistência vital aos refugiados Rohingya instalados em campos no distrito de Baza de Cox e na ilha de Bhasan Char, bem como a mais de 17.800 membros da comunidade de acolhimento em Ukhiya e Teknaf.”
Para saber mais sobre como as agências da ONU estão a ajudar os Rohingya, visite as respectivas páginas:
UNICEF – ACNUR – PMA – UNFPA – OIM – ONU MULHERES
O enviado especial na situação dos Direitos Humanos no Mianmar, Tom Andrew, publicou várias afirmações onde apela à ação internacional coordenada que apoia os esforços heroicos das pessoas de Mianmar.
