Milhares de crianças em “condições horríveis” nas zonas de conflito

A escalada de conflitos, golpes militares, conflitos prolongados, novos conflitos e violações ao direito internacional são os principais perigos para as crianças. Os dados são do relatório anual da ONU sobre Crianças e Conflitos Armados, que detalha os impactos negativos que várias formas de conflito tiveram nas crianças de todo o mundo em 2021. 

Foram verificadas quase 24.000 violações graves contra crianças, uma média de cerca de 65 violações por dia. O assassínio e mutilação de crianças foi a violação mais grave registada, seguida do recrutamento e utilização de crianças em conflitos e do impedimento a acesso humanitário.  

Em 2021, estas violações aos direitos das crianças foram registadas maioritariamente em países como o Afeganistão, a República Democrática do Congo, Israel e territórios palestinianos ocupados, a Somália, a Síria e o Iémen. 

© Paddy Dowling

Cicatrizes para a vida 

“Não há palavras suficientemente fortes para descrever as condições horríveis sofridas pelas crianças em conflitos armados”, considera a representante especial do secretário-geral para as Crianças e Conflitos Armados, Virginia Gamba. 

Para a representante, “as crianças que sobrevivem ficam afetadas para a vida, com profundas cicatrizes físicas e emocionais. No entanto, não devemos deixar que estes números desencorajem os nossos esforços. Devem servir de impulso para reforçar a nossa determinação em acabar e prevenir graves violações contra crianças. Este relatório é um apelo à ação para intensificar o nosso trabalho no sentido de melhor proteger as crianças em conflitos armados e assegurar que lhes seja dada uma oportunidade real de recuperarem e de prosperarem”. 

Os rapazes e as raparigas enfrentam com frequência riscos diferentes, um fator que é importante compreender ao desenvolver estratégias de prevenção e resposta. 

 

Ucrânia é novo foco de preocupação 

2021 trouxe um aumento acentuado de dois tipos de infrações: o rapto e a violência sexual, incluindo a violação, que aumentaram cerca de 20%.  

Os ataques a escolas e hospitais também registaram um aumento, que foi agravado pela pandemia. Mais de 2.800 crianças foram detidas pela sua associação real ou alegada com partes em conflito, tornando-as particularmente vulneráveis à tortura, violência sexual e outros abusos.  

A Etiópia, Moçambique e Ucrânia foram acrescentadas ao Relatório Anual do secretário-geral como focos de preocupação, refletindo o impacto das hostilidades sobre as crianças nestas áreas. 

O secretário-geral solicitou, inclusive, um controlo reforçado das violações contra crianças na região central do Sahel, um pedido semelhante ao que foi feito para a região da Bacia do Lago Chade em 2020. 

© Paddy Dowling

‘A paz deve prevalecer’ 

Apesar do cenário pouco animador, há algumas regiões onde foram feitos progressos. No total, 12.214 crianças foram libertadas dos grupos armados em países como a República Centro-Africana, Colômbia, República Democrática do Congo, Myanmar e Síria. 

A representante especial sublinhou a importância de proporcionar às crianças libertadas dos grupos armados o apoio adequado para a reintegração nas suas comunidades.  

“As partes envolvidas em processos e discussões de paz devem considerar a integração dos direitos e necessidades das crianças nas suas negociações, bem como nos seus acordos finais, uma vez que continua a ser a única forma de alcançar uma paz sustentável”, explicou Virginia Gamba, usando como exemplo a atual trégua no conflito do Iémen. 

“Quando a paz desaparece, as crianças são as primeiras a pagar o preço”, disse. “É mais importante do que nunca agir para proteger as nossas crianças e assegurar-lhes um futuro mais seguro”. 


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