Em destaque Não há nada que possa substituir as Nações Unidas, diz presidente de...

Não há nada que possa substituir as Nações Unidas, diz presidente de Portugal

ONU News/Felipe de Carvalho Marcelo Rebelo de Sousa está em Nova Iorque para participar do Debate Geral na Assembleia Geral da ONU

Entrevista de Monica Grayley para a ONU News

Em entrevista à ONU News, Marcelo Rebelo de Sousa afirma que o mundo precisa de mais diálogo e tolerância. Sobre ação climática, o líder português diz que é preciso pressionar os atores que mais poluem e conta que quer ser lembrado como o mesmo “Marcelo” que assumiu o poder há 10 anos; ex-professor, promete voltar a ensinar em 2026, mas desta vez em escolas secundárias.

O presidente de Portugal defendeu a existência das Nações Unidas como um fórum ímpar na promoção da tolerância, do diálogo e da cooperação entre os países. Ele encontra-se em Nova Iorque para participar no Debate Geral da Assembleia Geral da ONU, no ano em que a organização celebra oito décadas.

Para o líder português, que deixará o cargo em 2026, após 10 anos na presidência, não há nada que possa substituir a ONU, o maior fórum internacional de multilateralismo.

 

A ONU é universal

“Tem de haver diálogo, tem de haver tolerância. E ou há Nações Unidas ou não há nada que possa substituir, porque a ONU não é só esta reunião aqui, uma vez por ano, várias vezes por ano. Não. É no terreno, na educação, na saúde, na proteção da mulher, na proteção da criança, das pessoas com deficiência… Tudo isto tem de ser universal. Ser universal quer dizer que não pode ser resolvido por um, dois, três, sete ou vinte países; não pode.”

Uma das reuniões paralelas de alto nível nesta 80.ª Sessão da Assembleia Geral é a questão palestina e o conflito no Médio Oriente. No domingo, 21 de setembro, Portugal reconheceu publicamente a criação de um Estado Palestiniano numa reunião em Nova Iorque.

Para Marcelo Rebelo de Sousa, chegou a hora de resolver o tema de uma vez por todas. Esse reconhecimento unilateral, ao lado de outros países europeus e de outros continentes, “deve ajudar”, disse.

Nuno Vasco Rodrigues/UN World Oceans Day 2023 Uma equipe de mergulhadores científicos avalia a biodiversidade marinha no topo de um monte submarino em Porto Santo, Madeira, Portugal

Estado palestiniano e economia azul

“Era a única via para a paz. Adiar, deixar para depois, é a mesma coisa que não decidir e criar o facto consumado. E o facto consumado seria já não ser possível o segundo Estado. Ter dois Estados é crucial para a pacificação da região. Por que agora? Porque era o último momento para que fosse possível. Não apenas Portugal, mas outros países europeus e até países não europeus mostram que é uma resposta universal.”

Segundo o presidente, israelitas e palestinianos já celebraram vários acordos, mas até agora o Estado da Palestina não foi criado. A resolução 181 da Assembleia Geral, de 1947, recomendava a criação do Estado, conhecida como resolução da partilha.

Outro tema importante para Portugal nesta 80.ª Sessão da Assembleia Geral é a ação climática. O país destaca-se nesta área com a promoção da economia azul, o compromisso com a redução das emissões de gases de efeito estufa e também com a troca de dívida com países como São Tomé e Príncipe e Cabo Verde, para impulsionar a proteção ambiental.

Para Marcelo Rebelo de Sousa, os conflitos e guerras retiraram a mudança climática da agenda, sendo necessário trazê-la de volta para proteger o planeta, a geração atual e as futuras.

UN Photo/Eskinder Debebe Conselho de Segurança da ONU

Conselho de Segurança e futuro

“É preciso pressionar as grandes potências que não cumprem os objetivos das sucessivas COPs. Por isso é necessário o multilateralismo, porque, se não houver pressão dos mais pequenos, dos médios, de quem sofre as emissões de carbono, não haverá equilíbrio de poderes. E não é apenas o sul em relação ao norte. São aqueles que sofrem, aqueles que produzem e poluem, e que acham que o tema desapareceu da agenda. Esta COP vai recolocar as alterações climáticas na agenda. Saíram da agenda por causa das guerras, por causa da ideia de um ou poucos mandarem no mundo.”

Ao abordar a questão da paz e segurança internacionais, o presidente afirma que é altura de o Conselho de Segurança ser reformado para refletir a realidade política do século XXI. Portugal, que já esteve várias vezes no órgão, é candidato a um assento para o biénio 2027-2028, juntamente com outras nações europeias.

Para Rebelo de Sousa, num momento em que o mundo tem 61 conflitos ativos, um número recorde desde a criação da ONU em 1945, “nunca houve, como em 2024, um ano com tantos vetos. Um Conselho de Segurança paralisado pelo veto significa umas Nações Unidas paralisadas. Significa um mundo paralisado.”

ONU News/Leda Letra Largo da Esperança, Lisboa, Portugal

Política direta

Sobre o futuro da política num mundo cada vez mais virtual, Rebelo de Sousa afirmou que a política sem estrutura ou organização pode levar a uma política sem conteúdo e experiência.

“Esta liderança que é, no fundo, liderança direta saltando por cima de instituições representativas, por cima de instituições democráticas, por cima de Parlamento, por cima de partidos, por cima de juízes, por cima de todos. Um líder todo-poderoso e seu eleitorado, isso facilita a forma e não o conteúdo. Facilita a utilização de novos meios. E, portanto, o que se passa é que os mecanismos democráticos, as forças democráticas a juventude que quer a participação, a democracia, o diálogo universal, tem de entender e fazer entender aos mais velhos que fazer política hoje tem que ser diferente do que era no passado, tem que ser de outra forma, mas com conteúdo.”

CPLP e legado

Sobre a concertação política na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), que celebra 30 anos em 2026, Marcelo Rebelo de Sousa defendeu uma comunidade mais conectada com a população, mantendo-se um fórum multilateral. Destacou o papel chave dos jovens nesta nova década da CPLP:

“Mais força à presença dos jovens na CPLP, mais força à componente social e económica, mais força à cultura, mais força ao contacto entre os povos. Não deve ser uma construção apenas de políticos e dirigentes, tem de chegar às ruas.”

Ao ser questionado sobre como quer ser lembrado após deixar a Presidência, respondeu que quer ser visto como o mesmo Marcelo que sempre foi.

Monica Grayley é editora-chefe da ONU News