Artigos ONU alerta para corrida desenfreada da IA e pede regras globais urgentes

ONU alerta para corrida desenfreada da IA e pede regras globais urgentes

Foto ONU/Elma Okic

Guterres diz que humanidade pode estar na última geração capaz de definir os limites entre humanos e máquinas

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, abriu esta segunda-feira, em Genebra, o primeiro Diálogo Global sobre Governação da Inteligência Artificial com um alerta contundente: a tecnologia está a avançar a um ritmo sem precedentes e a ser implementada mais rapidamente do que governos, instituições e até os próprios criadores conseguem acompanhar. Segundo Guterres, este é uma realidade “sem plano e sem consentimento”, situação que classificou como “insustentável” e “inaceitável”.

No seu discurso, Guterres destacou que a inteligência artificial já está a transformar economias, mercados de trabalho, processos democráticos e questões de segurança internacional. Para o chefe da ONU, o desafio central é saber se os países serão capazes de moldar esta transformação de forma coletiva ou se acabarão por ser moldados por ela. O encontro em Genebra, afirmou, representa um momento histórico por reunir todos os Estados-membros em torno de uma mesma base científica para discutir o futuro da tecnologia.

O líder das Nações Unidas apresentou três grandes alertas identificados pelo Painel Científico Internacional Independente sobre Inteligência Artificial. O primeiro refere-se à velocidade da expansão da IA, que alcançou um bilião de utilizadores em apenas dois anos, muito mais depressa do que a internet. O segundo diz respeito à concentração de poder, já que os recursos computacionais, os dados e os talentos necessários para desenvolver os sistemas mais avançados estão concentrados em poucas empresas e países. O terceiro alerta está ligado à erosão da verdade, num contexto em que conteúdos gerados por máquinas podem tornar-se tão persuasivos quanto factos reais.

ONU/Mark Garten O secretário-geral da ONU, António Guterres também voltou a defender a proibição internacional dos sistemas de armas autónomas letais, que descreveu sem rodeios como “robôs assassinos”.

Apesar das preocupações, Guterres enfatizou que o potencial positivo da inteligência artificial continua a ser extraordinário. Citando exemplos na saúde, educação e agricultura, afirmou que a tecnologia pode acelerar décadas de desenvolvimento em apenas alguns anos. “Usada de forma correta e amplamente partilhada, a IA pode tornar-se o grande igualador do século XXI”, declarou, defendendo que os benefícios devem chegar também aos países em desenvolvimento.

Para orientar a resposta internacional, o secretário-geral propôs quatro prioridades. A primeira é a segurança, incluindo uma nova iniciativa para proteger crianças dos riscos da IA. “Nenhuma criança deve ser uma cobaia de uma inteligência artificial não regulada”, afirmou, ao lançar um apelo para um Compromisso Global de Segurança Infantil na IA. As outras prioridades incluem a definição de linhas vermelhas para proteger os direitos humanos, o fortalecimento das capacidades dos países em desenvolvimento e uma maior transparência sobre os impactos ambientais dos sistemas de inteligência artificial.

Guterres também voltou a defender a proibição internacional dos sistemas de armas autónomas letais, que descreveu sem rodeios como “robôs assassinos”. Segundo ele, permitir que máquinas decidam sozinhas quem vive ou morre é “moralmente repugnante” e “politicamente inaceitável”. O chefe da ONU advertiu que algumas decisões devem permanecer para sempre nas mãos dos seres humanos, especialmente aquelas relacionadas com o uso da força letal.

Encerrando o discurso, o diplomata português rejeitou a ideia de que a regulação seja inimiga da inovação e argumentou que tecnologias poderosas só conquistam confiança pública quando existem mecanismos de responsabilização. Num dos momentos mais fortes da intervenção, advertiu que “podemos ser a última geração capaz de definir os termos da coexistência entre a humanidade e as máquinas”. Para Guterres, a reunião de Genebra deve marcar o início de uma nova era de governação global da inteligência artificial, tornando-a “mais segura, mais justa, mais acessível e mais ética” para todos.

Veja discurso na íntegra aqui (em inglês).