Durante três anos, milhares de mensagens agressivas inundaram o telemóvel da atriz norte-americana Azie Tesfai, enviadas por um homem que ela nunca tinha visto nem conhecido.
Um dia, a interação anónima transformou-se em perseguição física. Ele enviou-lhe uma mensagem descrevendo exatamente o que ela estava a vestir.
“Há um terror muito específico em ser observada por alguém sem rosto”, disse Tesfai a responsáveis da ONU, embaixadores da Boa Vontade e representantes da sociedade civil em Nova Iorque, durante as comemorações do Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres.
A atenção indesejada rapidamente evoluiu para ameaças explícitas de morte. Tesfai informou a polícia, mas esta não lhe ofereceu qualquer proteção.
“Não há, legalmente, nada que possamos fazer”, disseram-lhe, visto que tudo ocorria no digital e o agressor não tinha nome.
Um feminicídio a cada 10 minutos
Mais de 80 mil mulheres e raparigas foram mortas intencionalmente no ano passado, segundo um novo relatório sobre feminicídio da ONU Mulheres e do Gabinete das Nações Unidas contra a Droga e o Crime (UNODC).
Mais da metade destes feminicídios foram cometidos por parceiros íntimos ou familiares. Isto significa que uma mulher ou rapariga é morta por um parceiro ou membro da família quase a cada 10 minutos. Em contraste, apenas 11 por cento dos homicídios de homens foram perpetrados por parceiros íntimos ou familiares no mesmo período.
A campanha deste ano centra-se na violência digital e apela aos governos para que implementem leis que acabem com a impunidade, às empresas de tecnologia para que garantam a segurança das plataformas e a doadores para que apoiem organizações dedicadas a erradicar a violência.
Crescente abuso digital
“Quase todas as mulheres em posições públicas de alto nível que conheci nos últimos anos, sejam jornalistas, ativistas ou políticas, enfrentam um assédio digital crescente, abusos sexualizados e ameaças de violência física”, afirmou a presidente da Assembleia Geral da ONU, Annalena Baerbock.
De acordo com o relatório, o aumento do acesso a ferramentas digitais agravou formas de violência já existentes contra mulheres e raparigas, ao mesmo tempo que deu origem a novas formas de abuso, como a partilha não consensual de imagens, o doxing e vídeos deepfake.
A violência digital, que inclui também cyberbullying, cyberstalking e assédio sexual, pode resultar em danos físicos, sexuais, psicológicos, sociais, políticos ou económicos.
“O objetivo sempre foi o mesmo: intimidar, humilhar e, sobretudo, silenciar”, afirmou Baerbock.
“Com os rápidos avanços da inteligência artificial, a escala e a velocidade destes abusos estão a crescer para lá de tudo o que já vimos.”
Acabar com a impunidade
“Os desafios são formidáveis”, alertou a diretora executiva da ONU Mulheres, Sima Bahous. “As sobreviventes enfrentam descrédito. Os agressores beneficiam de impunidade.”
Uma das principais barreiras ao combate da violência digital contra mulheres e raparigas é a ausência de bases legais e de regulamentação em muitos países para garantir segurança.
Bahous apresentou três soluções para acabar com a impunidade. Primeiro, a violência digital deve ser reconhecida como violência real; segundo, os sistemas de justiça devem responsabilizar as empresas de tecnologia; e, por fim, é preciso mais investimento em prevenção e resposta.
“Enquanto a lei não tratar a predação digital como dano real, espera-se que nos protejamos tornando-nos invisíveis”, disse Azie Tesfai, recordando os muitos episódios de abuso digital que enfrentou.
Ecoando o apelo da ONU para que a violência digital seja tratada como violência real, acrescentou: “Merecemos leis que nos protejam enquanto ainda estamos vivas para sermos protegidas.”
*Artigo de autoria da ONU News