Em destaque ONU declara fome pela primeira vez em Gaza

ONU declara fome pela primeira vez em Gaza

Shaima, de 8 anos, espera a sua vez entre a multidão para receber uma refeição de um centro de solidariedade que distribui comida gratuitamente na cidade de Rafah, no sul da Faixa de Gaza. “Estou aqui à espera há duas horas, mas ainda não consegui comida. A minha mãe e a minha irmãzinha estão à minha espera. Não comem desde ontem.” Foto: UNOCHA

As Nações Unidas confirmaram esta sexta-feira que está em curso uma situação de fome em Gaza e que esta deverá alargar-se aos de Deir Al-Balah e Khan Younès até ao final de setembro.

Cerca de 500.000 pessoas encontram-se em situação catastrófica, segundo um relatório tornado público durante uma conferência de imprensa em Genebra.

As condições no norte de Gaza são consideradas tão graves, ou até piores, do que na cidade de Gaza. No entanto, a falta de dados impediu qualquer classificação segundo a escala IPC, sublinhando a urgência de acesso a informação.

Israel está a bloquear a entrada da maior parte da ajuda humanitária das Nações Unidas e dos seus parceiros, tendo confiado a distribuição de alimentos a uma organização israelo-americana, a Gaza Relief Foundation, muito criticada pelas suas práticas. Desde julho, as entregas de alimentos e ajuda humanitária em Gaza aumentaram ligeiramente, mas continuam muito insuficientes, irregulares e inacessíveis face às necessidades existentes.

Urgência de uma resposta imediata

Várias agências da ONU¹ destacaram de forma coletiva e sistemática a extrema urgência de uma resposta humanitária imediata e em larga escala, tendo em conta o aumento das mortes relacionadas com a fome, a rápida degradação dos níveis de desnutrição aguda e o colapso acentuado do consumo alimentar, com centenas de milhares de pessoas a passarem vários dias sem comer absolutamente nada.

A desnutrição entre as crianças em Gaza está a agravar-se “a um ritmo catastrófico”, segundo as agências das Nações Unidas, que sublinham que, só no mês de julho, mais de 12.000 crianças foram identificadas como sofrendo de desnutrição aguda — o número mensal mais elevado jamais registado e seis vezes superior ao do início do ano.

Catástrofe provocada pelo Homem

“Isto não é um mistério, é uma catástrofe provocada pelo ser humano, uma condenação moral e um fracasso da própria humanidade. A fome não diz apenas respeito à comida — trata-se do colapso deliberado dos sistemas essenciais à sobrevivência humana. As pessoas estão a morrer de fome. As crianças estão a morrer. E quem tem o dever de agir está a falhar no seu dever”, declarou o Secretário-Geral da ONU, António Guterres, em comunicado.

“Enquanto potência ocupante, Israel tem obrigações inquestionáveis ao abrigo do direito internacional, incluindo a de garantir o fornecimento de alimentos e cuidados médicos à população. Não podemos permitir que esta situação continue impunemente”, acrescentou.

“Esta é uma fome que poderíamos ter evitado se nos tivessem deixado. No entanto, os alimentos acumulam-se nas fronteiras devido à obstrução sistemática por parte de Israel”, afirmou Tom Fletcher, responsável pela Coordenação das Assuntos Humanitários das Nações Unidas.

Um cessar-fogo “agora”

“Não há mais desculpas. Não é amanhã que temos de agir, é agora. Precisamos de um cessar-fogo imediato, da libertação imediata de todos os reféns e de acesso humanitário total e sem entraves, declarou António Guterres.

A ONU define uma situação de fome com base nos seguintes critérios: pelo menos 20% dos agregados familiares enfrentam escassez extrema de alimentos, pelo menos 30% das crianças com menos de 5 anos sofrem de desnutrição aguda e pelo menos duas pessoas em cada 10.000 morrem de fome por dia.

¹ As agências das Nações Unidas envolvidas incluem a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), a UNICEF, o Programa Alimentar Mundial (PAM) e a Organização Mundial da Saúde (OMS)