Artigos ONU defende adaptação das operações de paz aos novos desafios globais

ONU defende adaptação das operações de paz aos novos desafios globais

Comandante da Força da Missão de Estabilização das Nações Unidas na República Democrática do Congo (MONUSCO), visita capacetes azuis do Bangladesh e da Indonésia ao serviço da MONUSCO durante uma missão de inspeção das tropas destacadas na província de Ituri, no leste da República Democrática do Congo. Foto: Jorkim Jotham Pituwa

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, discursou na Assembleia Geral esta quarta-feira, 26 de agosto, para apresentar aos Estados-Membros o seu relatório sobre a “Revisão do futuro de todas as formas de operações de paz das Nações Unidas”, incluindo as operações de manutenção da paz e as missões políticas especiais. O documento procura identificar formas de tornar estes instrumentos mais eficazes perante um ambiente internacional marcado por conflitos mais numerosos, complexos e prolongados.

Na sua intervenção, Guterres sublinhou que as operações de paz continuam a ser uma ferramenta essencial do multilateralismo. Ao longo das últimas décadas, estas missões ajudaram a prevenir crises, apoiar cessar-fogos, proteger civis e consolidar processos de paz em diversas regiões do mundo, contribuindo para a estabilização de países em transição e para a resolução pacífica de disputas internacionais.

Contudo, o secretário-geral alertou para uma profunda transformação do panorama geopolítico global. O aumento das rivalidades entre Estados, a internacionalização dos conflitos internos e o surgimento de novas ameaças, como os drones militares, a inteligência artificial aplicada a sistemas de armas e a ação de redes criminosas transnacionais, estão a tornar os conflitos mais difíceis de prevenir e resolver.

Perante esta realidade, o relatório propõe uma mudança de enfoque, colocando a diplomacia preventiva e a mediação no centro das estratégias de paz da ONU. Guterres defendeu um reforço dos bons ofícios do Secretário-geral, dos enviados especiais e das capacidades políticas da Organização, sublinhando que nenhuma operação de paz pode ter sucesso sem o compromisso das partes envolvidas e o apoio consistente dos Estados-Membros.

Outro eixo central da revisão é o fortalecimento das parcerias com os países anfitriões. Segundo Guterres, a paz duradoura só pode ser construída com liderança nacional e através de uma estreita colaboração entre as autoridades locais, a ONU e os parceiros internacionais. O secretário-geral defendeu ainda mandatos mais focados e realistas, ajustados às condições no terreno e sujeitos a uma avaliação contínua da sua eficácia.

O relatório recomenda igualmente uma maior eficiência no sistema das Nações Unidas, com uma divisão de responsabilidades mais clara entre missões de paz, agências, fundos e programas especializados. Ao mesmo tempo, destaca a necessidade de modernizar as operações através de investimentos em tecnologia, melhoria da capacidade de resposta, reforço da segurança do pessoal destacado no terreno e promoção da participação das mulheres em todas as áreas das missões.

Concluindo, Guterres apelou a um reforço das parcerias entre a ONU e as organizações regionais, particularmente a União Africana, e reiterou que as operações de paz devem permanecer instrumentos políticos ao serviço da prevenção e resolução de conflitos. A mensagem principal da revisão é que, embora as operações de paz continuem a ser indispensáveis, a sua eficácia dependerá da capacidade de adaptação a um mundo em rápida transformação e da vontade coletiva dos Estados-membros de investir na paz.

Consulte discurso na íntegra aqui.