Em destaque ONU defende transição inclusiva para garantir Síria unificada e pacífica

ONU defende transição inclusiva para garantir Síria unificada e pacífica

Unicef/Johnny Shahan Crianças caminham por um bairro em Zabadani, zona rural de Damasco, na Síria (Arquivo)

*Artigo da autoria da ONU News

Secretário-geral das Nações Unidas declarou que após queda do “regime ditatorial” povo sírio tem oportunidade histórica de construir futuro estável e pacífico; enviado especial da ONU pediu que todas as partes evitem derramamento de sangue e mantenham as instituições a funcionar.

 

Neste domingo, forças de oposição declaram vitória na Síria, após uma ofensiva relâmpago iniciada a 27 de novembro, que resultou na tomada das cidades de Alepo, Hama, Homs e por fim a capital Damasco, sede do governo.

Segundo agências de notícias, o presidente Bashar al-Assad fugiu do país, estando exilado na Rússia.

Oportunidade histórica

Em nota, o secretário-geral da ONU disse que após “14 anos de guerra brutal” e da “queda do regime ditatorial”, a população síria pode aproveitar uma oportunidade histórica de construir um futuro estável e pacífico.

António Guterres pediu uma transição ordenada, a proteção aos direitos de todos os sírios, sem distinção, e o respeito à inviolabilidade de instalações e equipes diplomáticas e consulares.

O líder da ONU declarou que a soberania, unidade, independência e integridade territorial da Síria devem ser restauradas.

Renovação de esperanças

O enviado especial da ONU para a Síria, disse que esse é um “momento decisivo” na história do país, que “suportou quase 14 anos de sofrimento implacável e perdas indescritíveis”.

Em declarações a partir de Doha, no Catar, Geir Pedersen afirmou que com o fim deste “capítulo sombrio” emerge agora uma “esperança cautelosa por um novo tempo de paz, reconciliação, dignidade e inclusão para todos os sírios”.

Pedersen destacou que para os deslocados, este momento renova o sonho de voltar para casa, para as famílias separadas pela guerra, renova a esperança dos reencontros e para os injustamente detidos, renova a busca por justiça.

O enviado especial ressaltou que “a resiliência do povo sírio oferece um caminho para uma Síria unida e pacífica”.

Transição inclusiva e respeito às instituições

Pedersen pediu a todas as partes que evitem o derramamento de sangue e iniciem uma transição que inclua todas as comunidades, com foco na paz e estabilidade e em evitar que o país seja dividido.

O enviado especial explicou que existe um “desejo claro manifestado por milhões de sírios de que sejam implementados urgentemente acordos de transição estáveis ​​e inclusivos e que as instituições sírias continuem a funcionar”.

Nesse sentido, o representante da ONU fez um apelo para que todos os atores armados “mantenham a boa conduta, a lei e a ordem, protejam os civis e preservem as instituições públicas”.

Diálogos com todas as partes

Respondendo aos jornalistas, Pedersen disse que a situação no país mudou dramaticamente e que o facto do principal grupo de oposição, o Hay’at Tahrir Al-Sham, HTS, ser listado como terrorista traz desafios.

Segundo Pedersen, o importante agora é que sejam dados passos para uma transição rumo a um “futuro democrático”. O enviado especial disse que está a acompanhar as movimentações dos grupos armados e que alguns procedimentos teriam de ser seguidos caso o HTS venha a ser retirado da lista de terrorismo.

O negociador da ONU, que participou numa reunião de alto nível de Estados Árabes em Doha neste fim de semana, disse ainda ter realizado reuniões com o Irão, a Turquia e a Rússia, bem como com diversos Estados Árabes.

Pedersen revelou que tem reforçado nesses diálogos a necessidade garantir acordos de transição que incluam todas as comunidades na Síria. O diplomata afirmou que todos os interlocutores convergem nesse aspeto e manifestaram apoio ao papel das Nações Unidas nesse processo.

ONU/Jean-Marc Ferré Presidente da Comissão de Inquérito sobre a Síria, Sergio Paulo Pinheiro

“Fim de décadas de repressão”

A Comissão de Inquérito da ONU sobre a Síria também emitiu uma nota afirmando que é hora de “finalmente colocar as aspirações dos sírios em primeiro lugar”, para que o país alcance “um futuro estável, próspero e justo que garanta os direitos humanos e a dignidade”.

O presidente da Comissão, Paulo Sérgio Pinheiro, afirmou que “o povo sírio deveria poder ver este momento histórico como o fim de décadas de repressão organizada pelo Estado”.

Pinheiro declarou que “prisioneiros libertados após décadas de detenção arbitrária na infame prisão de Sednaya, nos arredores de Damasco, é uma cena que milhões de sírios não poderiam ter imaginado há poucos dias”.

Libertação de presos políticos

Para Pinheiro “cabe aos agora responsáveis ​​​​garantir que tais atrocidades nunca mais se repitam dentro dos muros de Sednaya ou de qualquer outro centro de detenção na Síria.”

Os últimos dias foram marcados pela libertação de milhares de prisioneiros que suportaram anos de detenção em regime de incomunicabilidade. A Comissão afirma que durante décadas, Sednaya e outros centros de detenção foram “sinónimo de medo, perda, sofrimento e crueldade”.

A nota destaca que “as celas onde os detidos foram maltratados estão agora abertas, assim como as câmaras de interrogatório onde foram torturados com métodos cruéis que a Comissão documenta há anos”.