A reconstrução de Gaza deve ir além da reconstrução física e estar ancorada em um quadro político claro e acordado, defendeu o secretário-geral da ONU, António Guterres, durante a Cimeira da Liga Árabe sobre o Oriente Médio e Gaza, realizada no Cairo. Guterres sublinhou que a verdadeira base para a recuperação do território devastado pela guerra deve ser a dignidade, a autodeterminação e a segurança do povo palestiniano, garantindo o respeito pelo direito internacional e prevenindo novos ciclos de violência.
A destruição em Gaza atingiu proporções sem precedentes. De acordo com uma avaliação recente das Nações Unidas, mais de 60% das habitações e 65% das estradas foram arrasadas. Estima-se que 51 milhões de toneladas de escombros cubram o enclave de aproximadamente 360 quilómetros quadrados. A ONU e parceiros como o Banco Mundial calculam que serão necessários pelo menos 53 mil milhões de dólares para a recuperação e reconstrução da região.
Para que este esforço seja bem-sucedido, o diplomata português defende que a reconstrução de Gaza não pode ser dissociada da busca por uma solução política sustentável e reiterou que um cessar-fogo duradouro é essencial para evitar um novo ciclo de destruição e sofrimento humano. O secretário-geral pediu ainda a remoção de todos os obstáculos que impedem a entrega de ajuda humanitária e apelou aos doadores que garantam financiamento adequado.
A ONU tem enfatizado que Gaza deve integrar um Estado palestiniano independente, democrático e soberano, sem redução territorial ou transferência forçada da sua população. A unidade entre Gaza e a Cisjordânia, incluindo Jerusalém Oriental, é vista como essencial para um futuro estável, sob administração da Autoridade Palestiniana. Para isso, é necessário apoio internacional para criar mecanismos de segurança e governança que assegurem a estabilidade da região.
A situação na Cisjordânia também é motivo de preocupação. Nos últimos meses, operações de larga escala das forças israelitas, incluindo ataques aéreos e a utilização de tanques, resultaram no deslocamento de mais de 40 mil palestinianos. O secretário-geral condenou a continuação de demolições, despejos e expansão de colonatos, apelando ao alívio da violência e ao cumprimento das obrigações internacionais por parte de Israel, na qualidade de potência ocupante.
Guterres reforçou que a solução de dois Estados é a única via para uma paz duradoura, onde israelitas e palestinianos possam coexistir em segurança e dignidade, com Jerusalém como capital partilhada. Para isso, destacou a importância da coordenação internacional e da cooperação entre os países árabes e a comunidade global na promoção de um caminho político que garanta estabilidade e justiça para ambas as partes.