Os conflitos estão a intensificar-se. A confiança na cooperação internacional está a enfraquecer. O mundo não pode negligenciar os capacetes azuis e as comunidades e pessoas que dependem do seu trabalho que salva vidas.
Os capacetes azuis das Nações Unidas e os seus icónicos capacetes azuis são um dos exemplos mais poderosos do compromisso mundial com a paz.
Ao longo de oito décadas, ajudaram dezenas de países em conflito a dar os primeiros passos rumo à estabilidade, à recuperação e à paz.
Hoje, mais de 61.000 militares e polícias de manutenção da paz, provenientes de 119 países, e mais de 7.000 civis, são âncoras de segurança num mar de conflito e perigo.
Corajosamente, ajudam a proteger civis, conter a violência, garantir o fluxo da ajuda humanitária e criar espaço para a diplomacia e o diálogo em locais onde as soluções políticas estão estagnadas ou ausentes.
O contingente egípcio da MINUSMA, sediado em Douentza, na região de Mopti, no centro do Mali, é composto por 200 elementos de manutenção da paz que asseguram a segurança dos comboios logísticos e das operações no terreno. Esta equipa é composta principalmente por mulheres que procuram e detectam engenhos explosivos improvisados (IED) durante os comboios logísticos e as patrulhas de longo e curto alcance.
Manutenção da paz das Nações Unidas é um investimento inteligente
Na República Centro-Africana, por exemplo, após anos de guerra civil brutal, os capacetes azuis ajudaram a estabilizar o país e estão a apoiar as primeiras eleições locais em quase 40 anos.
No sul do Líbano, os capacetes azuis facilitam o acesso humanitário e, desde o cessar-fogo de novembro, realizaram operações anti minas.
No Chipre, a sua presença ajuda a reduzir tensões, melhora as relações intercomunitárias e abre espaço para o diálogo e uma solução de longo prazo.
No Sudão do Sul, os capacetes azuis estão a ajudar as comunidades a sobreviver aos choques climáticos e aos conflitos, construindo diques e estradas através de novas planícies alagadas, ligando as pessoas aos mercados e aos serviços básicos.
A manutenção da paz da ONU não é apenas uma ferramenta que salva vidas – é um investimento inteligente.
Do Camboja a Timor-Leste, de El Salvador à Costa do Marfim e à Namíbia, a manutenção da paz das Nações Unidas apoiou transições da guerra para a paz a uma fração do custo das atividades militares em todo o mundo.
A paz não é garantida. Dê uma oportunidade à paz.
Muitos desses países contribuem agora com tropas, utilizando a sua própria experiência para ajudar outros em crise a trilhar o caminho da paz. Mas a manutenção da paz está sob ameaça.

Os conflitos estão a intensificar-se. As necessidades humanitárias estão a disparar. O direito internacional está a ser pisado. A confiança na cooperação internacional está a enfraquecer. O apoio político está a diminuir. O terrorismo, o crime transnacional, as novas armas e a crise climática estão a agravar ainda mais os perigos.
Ao mesmo tempo, as pressões financeiras aumentam, com falhas recentes a impedir o pagamento de centenas de milhões de dólares devidos a países que contribuem com tropas e equipamentos.
O mundo não pode negligenciar os capacetes azuis e as comunidades e pessoas que dependem do seu trabalho que salva vidas.
A Reunião Ministerial sobre a Manutenção da Paz das Nações Unidas em Berlim, organizada pelo governo alemão nos dias 13 e 14 de maio, está focada no futuro da manutenção da paz. Contamos com os países de todo o mundo para renovarem o seu compromisso com a manutenção da paz através de novos compromissos financeiros e logísticos arrojados, para colmatar lacunas de capacidades e garantir que a manutenção da paz e os capacetes azuis estejam bem equipados para os desafios de hoje e de amanhã.
Ao mesmo tempo, estamos a trabalhar para tornar as missões de paz mais focadas, móveis e reativas. Numa revisão em curso das operações de paz, estamos a modernizar as estruturas das missões através da integração de novas tecnologias, do reforço da flexibilidade e da valorização de cada contribuição.
Estamos também a reforçar a cooperação com organizações regionais, incluindo a União Africana. O Conselho de Segurança adotou uma resolução histórica que permite o apoio da ONU a missões de imposição da paz lideradas pela União Africana – reconhecendo o valor da liderança e solidariedade regionais.
Mas, por mais eficazes ou eficientes que sejam as operações, a manutenção da paz só terá sucesso se o mundo a apoiar.
A paz não é automática. Exige investimento.
Agora é o momento de dar uma oportunidade à paz e apoiar os capacetes azuis da ONU enquanto eles respondem ao chamado vital pela paz em todo o mundo.
*Artigo de opinião de António Guterres, secretário-geral da ONU