Artigos Os conflitos dominam as machetes… a construção da paz, não: O Fundo...

Os conflitos dominam as machetes… a construção da paz, não: O Fundo de Consolidação da Paz da ONU explicado

Foto: ONU Haiti/Jonathan Boulet-Groulx

Por: Daniel Dickinson

As guerras fazem manchetes. Mas preveni-las não.

No entanto, ao longo dos últimos 20 anos, o Fundo de Consolidação da Paz das Nações Unidas (PBF) tem ajudado discretamente muitos países a evitar a violência, a recuperar de conflitos e a construir futuros mais pacíficos para os seus cidadãos.

Hoje, é o principal instrumento da ONU para investir na paz, antes que as crises fiquem fora de controlo.

À medida que a ONU assinala a sua primeira Semana da Consolidação da Paz, eis o que precisas de saber sobre este Fundo inovador.

Descrito como “um instrumento financeiro de primeiro recurso”, o Fundo de Consolidação da Paz é visto como o  fundo de emergência da ONU para a promoção da paz.

Mulheres no Quirguistão reforçaram a cooperação entre grupos étnicos através de um projeto de agricultura apoiado pelo PBF. Foto: ONU

Criado pelos Estados-membros da ONU em 2005, este Fundo disponibiliza financiamento rápido a países que enfrentam, ou estão a recuperar, do risco de conflito. Ao contrário dos programas de apoio tradicionais, que podem levar anos até chegar ao terreno, o Fundo foi criado com o objetivo de ser atribuído rapidamente, assim que haja uma oportunidade para promover a paz.

Os princípios orientadores do Fundo permanecem os mesmos de há duas décadas: ser rápido, flexível, acelerador da mudança e assente na liderança nacional.

Quem apoia?

O Fundo atua através de Governos, comunidades locais, organizações da sociedade civil, grupos de mulheres, redes de jovens, em parceria com mais de 20 agências da ONU.

E o seu alcance é global. Ao longo das últimas duas décadas, apoiou iniciativas de consolidação da paz em mais de 75 países e territórios, desde a Serra Leoa à Colômbia, Papua Nova Guiné, Quirguistão e Haiti.

Em última análise, os principais beneficiários são as pessoas comuns: comunidades que se reerguem após uma guerra, jovens que procuram oportunidades em vez de violência, mulheres que mediam disputas e famílias que aspiram por um futuro mais estável.

Assegurar a paz

O Fundo apoia projetos que ajudam as sociedades a afastarem-se do conflito e a aproximarem-se da paz.

Isso inclui:

  • Apoiar acordos de paz e transições políticas;
  • Unir comunidades divididas através do diálogo e da reconciliação;
  • Restaurar serviços essenciais e instituições locais;
  • Criar empregos e oportunidades económicas em comunidades afetadas pela violência;
  • Capacitar mulheres e jovens a assumirem papéis de liderança na consolidação da paz;

Em suma, o Fundo investe nos alicerces que tornam a paz duradoura.

Porque é importante?

A Consolidação da paz procura impedir a escalada de conflitos locais.

Ao ajudar os países a abordar tensões numa fase precoce, o Fundo tem como objetivo prevenir a violência, antes que vidas sejam perdidas e que as comunidades sejam deslocadas.

O Fundo também preenche uma lacuna única no sistema da ONU. Pode assumir riscos, agir rapidamente e apoiar iniciativas que outros doadores estão impossibilidades ou relutantes em financiar.

Como os Estados-membros da ONU têm reconhecido, a paz não consiste apenas em terminar guerras, mas sim por construir sociedades inclusivas.

Mulheres presentes num workshop no Peru dedica à promoção da paz ao nível comunitário. Foto: ONU

O Fundo alcança todas as regiões do mundo.

Na Serra Leoa, contribuiu para eleições pacíficas e fortaleceu instituições, após uma guerra civil devastadora, enquanto apoiava jovens.

Na Papua Nova Guiné, apoiou preparações para o histórico referendo de Bougainville, o que permitiu aos eleitores participassem pacificamente na decisão sobre o seu futuro político.

Na fronteira entre o Quirguistão e o Tajiquistão, ajudou comunidades a transformar disputas relacionadas com terras e recursos hídricos, em cooperação e desenvolvimento partilhado.

Na Guatemala, apoiou comunidades de mulheres Indígenas que procuravam justiça por crimes de violência sexual em contexto de guerra, o que contribuiu para uma coordenação histórica reconhecida internacionalmente

E em países como a República Central Africana e a República Democrática do Congo, ajudou antigos combatentes a regressar à vida civil, apoiou mulheres mediadoras e reforçou a resiliência comunitária.

 

O Investimento nas Mulheres 

Um dos maiores investimentos do Fundos de Consolidação da Paz não é nos Governos, mas sim nas pessoas.

Ao longo dos anos, o Fundo tornou-se um dos maiores financiadores de iniciativas de consolidação da paz lideradas por mulheres no sistema das Nações Unidas, e apoiou mediadoras, negociadoras, líderes comunitárias e organizações de base que trabalham na linha da frente da prevenção de conflitos.

Desde a mediação de acordos de paz locais até ao apoio a sobreviventes que procuram justiça, milhares de mulheres têm desempenhado um papel direto na consolidação da paz através de projetos financiados pelo Fundo, por todo o mundo.

Mulheres em Kadugli no Sudão participam num fundo que salvou uma aldeia como parte do fundos que constroem riqueza e resiliência na sua comunidade. Foto: ONU/Giles Clark

O Fundo em Números

Mais de:

  • 75 países e territórios apoiados;
  • 2 mil milhões de dólares investidos;
  • 1.150 projetos de consolidação da paz financiados;
  • 120 organizações beneficiárias e mecanismos de financiamento apoiados;

A procura pelo apoio do PBF tem aumentado, não apenas devido ao aumento do número de conflitos, mas também porque cada vez mais países pretendem investir na prevenção e evitar a violência antes que ela surja.

Em resumo:

Por mais de 20 anos, o Fundo de Consolidação da Paz operou numa simples premissa: investir nas pessoas para construir a paz é mais barato, inteligente e humano que responder após o conflito eclodir.

O trabalho pode nem sempre estar nas manchetes, mas para milhões de pessoas que vivem em situações frágeis, pode significar a diferença entre regressar à violência ou ter a oportunidade de construir um futuro em paz.

Artigo ONU News, por Daniel Dickson