Sir David Attenborough, Campeão da Terra das Nações Unidas, apela a que salvemos o oceano, “o sangue vital do nosso lar”, no seu poderoso novo documentário “O Oceano com David Attenborough”, exibido no coração de Bruxelas na terça-feira (3 de junho), como parte da nossa série Cine ONU.
Lançado para coincidir com o 99.º aniversário do lendário apresentador, o documentário analisa as maiores descobertas sobre os oceanos do último século, em paralelo com a vida de Sir David Attenborough. Retrata as maravilhas do oceano e como este é essencial para a vida na Terra, mas também como está sob ameaça devido às alterações climáticas, à poluição e à sobrepesca.
A exibição em Bruxelas foi organizada para assinalar o Dia Mundial do Meio Ambiente (5 de junho), o Dia Mundial dos Oceanos (8 de junho) e no âmbito da preparação para a Conferência das Nações Unidas sobre os Oceanos 2025, em Nice (9 a 13 de junho).
Narrado por um dos maiores naturalistas do nosso tempo
Ocean leva os espectadores numa viagem à volta do mundo, com imagens notáveis de florestas de algas, plâncton oceânico, atum albacora e golfinhos migratórios, enquanto Sir David Attenborough revela a realidade urgente e dramática que os nossos mares e a vida marinha enfrentam.
Colin Butfield, realizador de Ocean e cofundador e diretor da Open Planet Studios, elogia a capacidade de Sir David Attenborough para contar a história da relação da humanidade com o mundo natural.
“Muito simplesmente, David é o maior contador de histórias do nosso tempo,” disse Colin Butfield numa entrevista às Nações Unidas. “Ele consegue transformar questões biológicas complexas ou descobertas científicas numa história cativante para uma criança de 10 anos, mas que também ressoa com o maior especialista mundial nesse tema. Ele simplifica, mas nunca banaliza. Compreende o poder da narrativa como poucos conseguiram.”
Um filme como nenhum outro
Ao contrário de outros filmes de história natural, que evoluem durante as filmagens devido a encontros imprevisíveis com animais, “este filme foi amplamente planeado”, disse Colin Butfield, explicando que a equipa passou um ano a desenvolver o guião e a estrutura.
“Dividimos o filme em três partes: descoberta, destruição e esperança. Depois, percorremos o mundo e os artigos científicos para encontrar os melhores exemplos de cada uma.”
O filme, que segundo Colin Butfield foi concebido para o grande ecrã para fazer com que o público se sentisse “imerso no oceano”, foi filmado em 11 países, incluindo os Açores (Portugal), Califórnia e Havai (EUA), Indonésia, Reino Unido, Libéria, Antártida e Mediterrâneo. Foram dedicadas mais de 500 horas a filmagens subaquáticas e mais de 300 dias no mar. A filmagem mais longa foi na Antártida, durante seis semanas.
“O oceano pode parecer algo distante, fora de vista; apenas um manto azul que vemos do litoral. Queríamos dar-lhe vida,” disse Colin Butfield ao público do cinema de Bruxelas. A produtora que cofundou, a Open Planet Studios, disponibilizou todo o material do filme em open source, acrescentando-o a uma biblioteca de imagens ambientais criada para ser usada gratuitamente por organizações sem fins lucrativos, escolas ou ONGs.”
“Isso faz parte da missão […] é como cada um conta a história ao seu próprio público,” acrescentou Colin Butfield.
O nosso oceano está em risco
Apesar de reconhecer a importância do oceano como fonte de alimento – do qual mais de três mil milhões de pessoas dependem para obter proteínas – o filme denuncia os danos provocados pelos métodos de pesca modernos, como a pesca de arrasto de fundo. Este método utiliza redes rebocadas ao longo do fundo do mar para capturar peixes ou mariscos, destruindo instantaneamente habitats delicados com séculos de existência.
“Os arrastões rasgam os fundos marinhos com tanta força que os seus rastos de destruição são visíveis do espaço,” disse Sir David Attenborough no filme, com imagens a mostrar o impacto nos mares da Bélgica, EUA, China e Reino Unido.
O documentário revela que mais de três quartos da captura dos arrastões pode ser descartada. O movimento de sedimentos marinhos desta forma também liberta grandes quantidades de carbono, contribuindo para as emissões de gases com efeito de estufa.
Para obter imagens da pesca de arrasto – descritas no filme como um feito inédito – a equipa colaborou com cientistas que estudam o impacto deste método de pesca e prendeu câmaras às dragas durante a sua operação no fundo do mar.
“Quando vi pela primeira vez, foi chocante. Uma coisa é saber, de forma abstrata, o que se passa debaixo de água – outra é ver com os próprios olhos a violência e destruição,” revelou Colin Butfield.
Ocean mostra também o maior evento de branqueamento de corais da história e alerta que quase todos os corais poderão desaparecer nos próximos 30 anos. Destaca ainda que menos de 3% do oceano está totalmente protegido.
Salvar o oceano para proteger o nosso futuro
Apesar das mensagens duras sobre o estado do oceano, o capítulo final do filme transmite esperança e otimismo.
“Hoje, [o oceano] está tão degradado que seria difícil não perder a esperança, não fosse a mais extraordinária descoberta de todas: o oceano pode recuperar mais rapidamente do que alguma vez imaginámos. Pode voltar à vida,” afirma Sir David Attenborough no filme.
Nos últimos 20 anos, em habitats protegidos em todo o mundo, a vida marinha tem regressado. Recifes inteiros voltaram a formar-se em locais como Palau e Kiribati no Pacífico, e Papua Ocidental, no extremo oriental da Indonésia, onde a pesca foi proibida. Nas Ilhas do Canal, na Califórnia, a vida marinha floresce quando a natureza é deixada em paz.
É hora de agir
O filme foi lançado a meio da Década das Nações Unidas da Ciência Oceânica e antes da Conferência da ONU sobre os Oceanos, em Nice, com o objetivo de impulsionar o compromisso global pela salvação dos oceanos.
Coorganizada pela França e pela Costa Rica, a conferência reunirá chefes de Estado, cientistas, sociedade civil e líderes empresariais em torno de um objetivo comum: travar o colapso dos oceanos.
“Temos agora uma oportunidade extraordinária. A recuperação dos nossos oceanos beneficia todos nós e, inversamente, a sua destruição prejudica-nos a todos,” disse Colin Butfield, que apela ao fim da pesca de arrasto nas Áreas Marinhas Protegidas e pede que os governos vão mais longe.
“Os cientistas estimam que precisamos de proteger cerca de 30% dos mares costeiros e de alto mar. Quase todos os governos concordaram com isso na Convenção sobre a Diversidade Biológica, em Montreal – agora é preciso pô-lo em prática,” acrescentou.
A Conferência da ONU sobre os Oceanos pretende aprovar um Plano de Ação de Nice para o Oceano e, como sublinhou Sir David Attenborough, não há tempo a perder.
“Depois de uma vida a filmar o mundo natural, não me lembro de uma oportunidade tão empolgante para a nossa espécie. Este pode ser o momento da mudança.”