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PNUMA: mundo tem de reduzir 18% dos gases com efeito de estufa

O aquecimento global vai ultrapassar 1,5 °C, mas ainda é possível voltar abaixo desse limiar antes do final do século. Para entrar nessa trajetória, as emissões mundiais de gases com efeito de estufa teriam de diminuir 18% até 2030 em relação aos níveis de 2025. A conclusão é do Relatório sobre a Lacuna de Emissões 2026 do Programa das Nações Unidas para o Ambiente (PNUMA).

“A ultrapassagem não é uma rendição. Ainda podemos mantê-la tão pequena e tão curta quanto possível, e voltar a fazer descer as temperaturas abaixo de 1,5 graus até ao final do século”, afirmou o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, numa mensagem sobre o relatório.

Após décadas de ação insuficiente, uma ultrapassagem mais acentuada de 1,5 °C é agora iminente e inevitável. Já não é possível manter o aquecimento abaixo desse limiar sem o ultrapassar ou ultrapassando-o apenas de forma limitada. Por isso, o relatório, intitulado O Ponto de Retorno, propõe uma nova tarefa: reduzir a dimensão e a duração da ultrapassagem e definir um caminho credível de regresso a 1,5 °C.

Já não se trata de evitar, mas de regressar

“Cada fração adicional de grau e cada ano adicional de aquecimento acima de 1,5 °C aumentam os impactos e os riscos climáticos, como as cheias mortíferas, as ondas de calor e os incêndios florestais que atingiram muitas nações este ano”, alertou a diretora executiva do PNUMA, Inger Andersen.

Segundo o relatório, a ultrapassagem aumenta também o risco de mudanças irreversíveis nas camadas de gelo, no carbono do permafrost, na circulação dos oceanos e nos recifes de coral, com graves consequências para a saúde humana e a prosperidade.

Por isso, o PNUMA propõe um novo ponto de referência: o cenário de menor ultrapassagem possível, que parte de uma ação de mitigação rigorosa a partir de 2025. Neste cenário, a temperatura atingiria o pico por volta de meados do século, entre 1,7 e 1,8 °C, e teria cerca de 50% de probabilidade de voltar a 1,5 °C ou menos até 2100.

Além dos 18% até 2030, as emissões teriam de cair 45% até 2035 e 69% até 2040, sempre em relação a 2025. Por outras palavras, o mundo teria de reduzir as emissões a um ritmo médio de 5,7% por ano entre 2025 e 2035. É um ritmo mais exigente do que o que se pedia há alguns anos, porque o tempo perdido paga-se. Cada cinco anos de emissões ao nível atual acrescentam cerca de 200 gigatoneladas de CO₂ à atmosfera e fazem subir o pico de aquecimento em cerca de 0,1 °C.

Mais promessas, mas não mais ambição

Os planos climáticos nacionais ficam muito aquém. Mesmo que fossem cumpridos na totalidade, só reduziriam as emissões entre 5% e 8% até 2030, e entre 11% e 15% até 2035.

As projeções de temperatura continuam demasiado altas. Se as políticas atuais se mantiverem, o aquecimento pode chegar aos 2,8 °C ainda neste século e continuar a subir a partir daí. Se todas as Contribuições Determinadas a Nível Nacional forem cumpridas e se mantiverem esforços semelhantes, o aquecimento ficará limitado a 2,6 °C. Estes resultados são piores do que as projeções do ano passado, devido à saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris e a estimativas revistas das emissões históricas. Mesmo no cenário mais otimista, em que se cumprem todas as contribuições nacionais e os objetivos adicionais de emissões líquidas nulas, o aquecimento só ficaria limitado a 2,1 °C neste século.

A 1 de setembro, 124 Partes, responsáveis por cerca de 76% das emissões mundiais, tinham apresentado novas Contribuições Determinadas a Nível Nacional, face a 57 no ano passado. No entanto, as emissões mundiais de 2025, 58,4 gigatoneladas de CO₂ equivalente, foram semelhantes às de 2024. Na última década, 63 países reduziram as suas emissões, mas foram superados pelos 124 que as aumentaram.

O que já funciona

A boa notícia é que, desde a adoção do Acordo de Paris, a capacidade mundial de eletricidade renovável cresceu três vezes mais depressa do que o previsto, e a instalação de painéis solares fotovoltaicos sete vezes mais. Se estas tendências continuarem, com o apoio de mais políticas, o mundo ficaria no bom caminho para triplicar a capacidade renovável até 2030.

As políticas climáticas também podem reduzir as emissões e já o fizeram. O PNUMA identifica 63 mudanças estruturais em países desenvolvidos e em desenvolvimento, ligadas à adoção ou ao reforço de políticas climáticas, com reduções de emissões superiores a 5%. Mais de 220 avaliações de políticas confirmam-no: no setor elétrico, as políticas avaliadas reduziram as emissões em 9% em média durante os períodos analisados, e os instrumentos económicos, como os sistemas de comércio de licenças de emissão e os impostos sobre o carbono, conseguiram reduções médias entre 5% e 13% em diferentes setores.

“Temos uma grande quantidade de casos de sucesso que mostram que as emissões podem ser reduzidas rapidamente”, acrescentou Andersen. “Cabe agora às nações pôr em prática, com urgência, políticas que impulsionem reduções de emissões rápidas, profundas e sustentadas, e colocar o mundo no caminho de um clima mais estável e de economias e sociedades mais estáveis.”

O que falta

Contudo, estes sucessos continuam concentrados em certos setores, países e períodos. O abandono dos combustíveis fósseis está especialmente atrasado: o uso de petróleo e gás deverá continuar a aumentar nesta década. Os esforços para travar a desflorestação até 2030 também estão longe do objetivo: embora a perda permanente de floresta tenha abrandado, o ritmo dessa redução teria de ser mais de dez vezes mais rápido para cumprir a meta do primeiro Balanço Global.

O relatório define referências concretas para 2035. Entre elas, pelo menos triplicar a capacidade de eletricidade renovável, reduzir em pelo menos 75% a produção de eletricidade a partir do carvão e cortar em pelo menos 25% as emissões de metano, em relação a 2025.

Além disso, o cenário de menor ultrapassagem possível exige retirar da atmosfera e armazenar de forma permanente cerca de 320 gigatoneladas de CO₂ ao longo do século, o equivalente a cerca de oito anos das emissões mundiais de CO₂ de 2024. Os desafios socioeconómicos e tecnológicos tornam incerto que isso se consiga.

Contexto

Esta é a 17.ª edição do relatório, que compara todos os anos o que os países prometem com o que a ciência exige. A sua referência é o Acordo de Paris de 2015, que fixa o objetivo de manter o aquecimento bem abaixo de 2 °C e continuar os esforços para o limitar a 1,5 °C. No primeiro Balanço Global, os países comprometeram-se a triplicar a capacidade renovável, duplicar a taxa anual de melhoria da eficiência energética até 2030 e abandonar os combustíveis fósseis nos sistemas energéticos. O segundo Balanço Global poderá alargar essas metas a 2035 e 2040.