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Porque é o 1.5ºC tão importante?

“Confrontados com um desafio sem precedente, haveis demonstrado uma liderança nunca antes vista”

Era com esta frase que o então secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-Moon, fechava a COP25, a 12 de dezembro de 2015. Durante 2 semanas, líderes de todo o mundo estiveram reunidos em Paris para firmar o maior plano de ação global no combate às alterações climáticas. Foi nesta cimeira que nasceu o Acordo de Paris, assinado por 195 países e pela União Europeia.

Acordo de Paris, assinado em dezembro de 2015. ONU / Mark Garten
A Secretária Executiva da UNFCCC, Christiana Figueres, o Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-Moon, o Presidente da COP21, Laurent Fabius, e o Presidente de França, François Hollande, celebram a adoção do Acordo de Paris. Foto: ONU / Mark Garten

O Acordo apela à “maior cooperação possível de todos os países” para combater “uma ameaça urgente e potencialmente irreversível para as sociedades humanas e para o planeta”: as alterações climáticas.

Na base dessa cooperação está a vontade e ambição de cada Estado, que deverá preparar, comunicar e cumprir as suas ações climáticas através de Contribuições Determinadas a nível Nacional. Juntas, estas ações permitem calcular quando será atingido o pico de emissões e se o mundo cumprirá com o objetivo estabelecido.

Irreverente na forma de atuação, o Acordo de Paris é também ambicioso na sua meta. O objetivo a atingir é a limitação do aquecimento da temperatura média da Terra a 2ºC acima dos níveis pré-industriais.

No entanto, o Acordo refere que os Estados devem “perseguir esforços para limitar o aumento de temperatura a 1.5ºC acima dos níveis pré-industriais”.

Impactos a 1.5ºC

A cada ano que passa, o planeta aquece mais e novos recordes de temperatura vão sendo batidos. Desde 1980 que as décadas têm sido sucessivamente mais quentes que as anteriores e a década 2009-2019 foi a mais quente registada até hoje. De acordo com a Organização Meteorológica Mundial, também o ano passado bateu recordes, afirmando-se como o segundo ano mais quente já registado à superfície (só perdendo para 2016) e o ano mais quente alguma vez registado nos oceanos. À superfície, a temperatura média foi 1.1ºC superior à média do período de 1850-1900.

Urso polar vagueia pelo Ártico. Foto: OMM / Karolin Eichler
Em 2019, a superfície gelada do Ártico alcançou uma extensão de 14.5 milhões de km2. Este é o segundo valor mais baixo desde que se começou a registar a cobertura do gelo no Ártico, em 1979. Foto: OMM / Karolin Eichler

A importância de travarmos o aumento da temperatura a 1.5ºC está patente no Relatório do Aquecimento Global a 1.5ºC, divulgado pelo Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas. Além de apontar as atividades humanas como as responsáveis pelo aumento da temperatura global, o relatório conclui que os riscos climáticos para os ecossistemas naturais e para as sociedades humanas são significativamente maiores num cenário de aumento de 2ºC do que num cenário de 1.5ºC.

O impacto do aumento da temperatura sentir-se-á rapidamente nas calotes polares. Para um cenário de 1.5ºC, o Oceano Ártico ficará completamente livre de gelo no verão 1 vez por cada 100 anos. Já para um aumento de 2ºC, esse fenómeno deverá acontecer 1 vez a cada 10 anos. A instabilidade das camadas de gelo polares e a expansão térmica dos oceanos resultarão num possível aumento do nível médio das águas do mar de vários metros ao longo dos próximos séculos. Para um cenário de 1.5ºC, o nível das águas deverá subir entre 26 a 77 centímetros até 2100 – 100 centímetros a menos do que os valores registados para um aumento de 2ºC.

O aquecimento da Terra tem impactos severos ao nível da biodiversidade. Perante um cenário de 1.5ºC, 70% a 90% de todos os corais terão morrido, enquanto num cenário de 2ºC, praticamente todos os corais terão desaparecido.

Corais no oceano. Foto: unsplash
Devido ao aumento da temperatura dos oceanos, os corais estão mais sujeitos ao branqueamento e a doenças infecciosas. Além disso, a acidificação das águas reduz as taxas de calcificação dos corais. Foto: Unsplash

Num cenário de 1.5ºC, depois de analisadas 105 mil espécies, 6% dos insetos, 8% das plantas e 4% dos vertebrados perderão mais de metade da sua distribuição geográfica. Para um cenário de 2ºC, essas percentagens sobem para 18% dos insetos, 16% das plantas e 8% dos vertebrados.

Apesar da magnitude destes impactos, o cenário de um aumento de 1.5ºC é o limite mínimo que o mundo conseguirá atingir.

Estamos a fazer o suficiente?

Hoje, apenas 71 países (Portugal incluído) se comprometeram com objetivos de longo-prazo para alcançar a neutralidade carbónica (balanço das emissões de CO2 igual a zero). Estes países representam apenas 15% das emissões globais de gases com efeito de estufa. É preciso que os outros 85% se comprometam também, especialmente os países do G20, que representam 78% do total de emissões.

Julgando o rumo atual de emissões, os cientistas preveem um aumento de temperatura de 3,2ºC em 2100. Para travar o aumento em 1.5ºC, o Relatório sobre a Lacuna de Emissões refere que teremos de reduzir as emissões anuais de CO2 para as 25 Giga toneladas em 2030.

Segundo as previsões atuais, se não alterarmos a trajetória, iremos emitir 56 Gt de CO2 em 2030, mais do dobro do que nos é permitido.

Para alcançar as 25 Gt em 2030, temos de cortar as emissões de CO2 em 7,6% todos os anos, já a partir deste ano. Quanto mais tempo esperarmos, mais difícil é de alcançar essa meta. Se mantivermos o caminho atual, em 2025 iremos precisar de cortar as emissões em 15,5% ao ano.

Árvores numa montanha. Foto: UNEP
Um estudo do Instituto Federal de Tecnologia de Zurique, na Suíça, concluiu que a plantação de meio bilião de árvores poderia capturar 205 Gt de carbono, reduzindo o carbono na atmosfera em 25% e mitigando 20 anos de emissões humanas de carbono ao ritmo atual. Foto: UNEP

Cumprir com o objetivo de 1.5ºC torna-se mais difícil a cada dia, mas é possível alcançá-lo se agirmos agora e com determinação. Há países que já o estão a fazer. A Suécia comprometeu-se a atingir a neutralidade carbónica em 2045, financiando ainda projetos de combate às alterações climáticas no estrangeiro. Marrocos prevê produzir 52% da sua energia a partir de renováveis já este ano, muito graças à recém-instalada maior central fotovoltaica do mundo. A Gâmbia comprometeu-se a atingir a neutralidade carbónica até 2050, preparando-se para construir uma das maiores centrais fotovoltaicas da África Ocidental e com um projeto para replantar 10.000 hectares de floresta, manguezais e savana.

Os outros países devem agora seguir estes exemplos e aumentar as suas ambições nacionais na luta contra as alterações climáticas. Para limitarmos o aquecimento da Terra a 1.5ºC, será necessário alterar por completo as nossas sociedades e todos nos teremos de envolver. É preciso fechar o espaço entre aquilo que dizemos que precisamos de fazer e aquilo que realmente fazemos. “Não podemos dar-nos ao luxo de ser a geração que ignorou esta realidade” (secretário-geral da ONU, António Guterres).

“Vamos fazer de 2020 o ano em que colocamos o mundo em direção a um futuro neutro em carbono”

Fontes:

https://unfccc.int/process-and-meetings/the-paris-agreement/the-paris-agreement

https://www.unenvironment.org/resources/emissions-gap-report-2019

https://www.ipcc.ch/sr15/

https://edition.cnn.com/2019/02/06/motorsport/morocco-solar-farm-formula-e-spt-intl/index.html

https://www.unenvironment.org/news-and-stories/story/gambia-building-resilience-changing-climate

https://unfccc.int/news/sweden-plans-to-be-carbon-neutral-by-2045

ONU News

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