Artigo da ONU News, por Sara de Melo Rocha*
O bairro do Zambujal, na Amadora, perto da capital do país, transformou as paredes dos prédios numa iniciativa ligada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável; a proposta incluiu moradores e artistas num processo que mudou a forma como o bairro se vê e é visto.
À entrada do bairro do Zambujal, no Concelho da Amadora, perto de Lisboa, não há bilheteira nem mapa turístico. Há prédios, roupa estendida, crianças a jogar à bola e muita cor.
Nas fachadas, é possível ver murais que ocupam vários andares, com rostos, símbolos e histórias que hoje atraem turistas a um bairro durante anos estigmatizado. Integrado no Zambujal 360, esta é uma iniciativa que junta arte urbana, inclusão social e sustentabilidade.
O primeiro bairro embaixador dos ODS
A ONU News conversou com Vítor Monteiro, um dos coordenadores do projeto, sobre o uso da arte urbana com um objetivo maior. Foi a partir desta visão que a equipa integrou os ODS da ONU, no projeto, como explica Vítor Monteiro.
“Começámos a contar os murais e vimos que eram 17. Então pensámos: em vez de pintarmos por pintar, porque não ter aqui um tema por trás?”
Já Mário Linhares, também coordenador da iniciativa e responsável pela componente artística, explica que cada mural passou a ter uma temática e uma história ligada ao bairro.
“Começámos a perceber que podíamos ter histórias reais ligadas aos 17 ODS e, sobretudo, que podíamos criar um sítio onde todas as pessoas pudessem visitar para conhecer melhor os ODS”.
O Zambujal pretende ser o primeiro bairro social embaixador dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas, do mundo.
A proposta é reforçar o sentimento de pertença através da expressão artística, mas também fortalecer a economia do bairro.
Ideias que vêm de fora
A ideia surgiu durante a pandemia de Covid-19 e rapidamente se transformou num projeto concreto promovido pela associação “CAZAmbujal”, em parceria com o Centro Regional de Informação das Nações Unidas para a Europa Ocidental (UNRIC) e outros patrocinadores.
Vítor Monteiro lembra que nem todos aceitaram a ideia à primeira vista: “Sendo um bairro social, há sempre esta desconfiança do que vem de fora”.
Ana Martins, residente no Zambujal há quase 30 anos, lembra-se bem desse momento. “No prédio, tínhamos duas opiniões distintas. No início do projeto, algumas pessoas não levaram muito a sério o projeto.”
O bairro foi convidado a conhecer melhor a iniciativa e, a partir daí, o envolvimento aumentou com reuniões, visitas guiadas e conversas entre vizinhos.
Pintar com quem lá vive
Mário Linhares explica que uma das condições do projeto foi o envolvimento direto da comunidade em todas as fases: “Era impossível um artista vir cá pintar sem reunir com os moradores, sem discutir os temas com a comunidade.”
Igor Ramos, morador no bairro desde 1999, recorda o momento em que a artista cabo-verdiana Gildoca Barros apresentou ideias para o mural sobre o ODS 14, que defende a proteção da vida marinha.
“Curiosamente, a primeira proposta que ela fez foi a que foi aceite, por causa das cores, das ideias e a da proteção dos oceanos”, conta.
O envolvimento no terreno
A moradora Ana Martins acompanhou a iniciativa de perto. “Acompanhei todo o processo de pintura do prédio. Envolvi-me, eu e mais duas ou três vizinhas.”
O trabalho implicou presença constante, incluindo apoio logístico aos artistas durante a execução dos murais, como conta Igor Ramos.
“Oferecemos todo o apoio possível como casa de banho, água, comida e tudo o possível para garantir as melhores condições possíveis aos artistas.”
Histórias reais
Os murais não são apenas ilustrações genéricas dos ODS, mas partem de histórias reais, das pessoas que vivem no bairro do Zambujal.
Uma das histórias mais marcantes está ligada à igualdade de género. “Este é o conto de uma senhora, da comunidade cigana, que perante as adversidades lutou com todas as suas forças para conseguir levar avante o amor da sua vida”, explica Vítor Monteiro.
Há também murais sobre paz, educação, solidariedade e outros ODS da ONU.
De bairro estigmatizado a espaço visitado
O bairro do Zambujal tem cerca de três mil habitantes e começou a ser construído na década de 1970 para acolher populações vindas de diferentes zonas do país e, mais tarde, comunidades migrantes que iam chegando das antigas colónias africanas.
O Zambujal tem uma forte diversidade cultural e social mas também carregou durante décadas uma imagem negativa, associada a problemas sociais, o que contribuiu para um estigma persistente, tanto dentro como fora do bairro.
Hoje, o estigma está a desaparecer e o impacto nota-se com a chegada de visitantes, conta Mário Linhares. “Há claramente uma perceção de que já não vivem num bairro invisível”.
O olhar de fora
O Zambujal passou a receber visitas interessadas em conhecer o percurso dos murais e as histórias associadas.
Uma delas foi Melissa Fleming, subsecretária-geral da ONU para as Comunicações Globais, que destacou a importância do projeto e a capacidade de passar a mensagem.
“Primeiro, somos cativados pelas cores e pela arte. Depois, o passo seguinte é perceber como é que isto se relaciona comigo e questionar: Será que eu também tenho o direito de igualdade? Que todas as crianças têm o direito de ir à escola? Que nós temos o direito de um ambiente limpo e de justiça? É uma forma indireta das pessoas sentirem que fazem parte.”
Melissa Fleming defende que o Zambujal 360 pode ser replicado noutros contextos.
“Não é apenas um projeto local. É um projeto que podemos escalar. Há tantos talentos, artistas e pessoas que gostariam de recriar algo assim no seu próprio bairro, para inspirar e dar esperança à população, especialmente nas comunidades marginalizadas”, concluiu a subsecretária-geral.
“Cada vez gosto mais de aqui viver”
O Zambujal continua a ter os desafios de um bairro social, mas hoje tem uma comunidade mais envolvida e orgulhosa.
“Nestes bairros as pessoas sentem-se mais ou menos marginalizadas mas, de repente, as pessoas começaram a sentirem-se importantes e a acreditar que é possível realizar qualquer coisa”, conta Igor Ramos.
Para Ana Martins, o impacto é claro: “Acho que somos um bom exemplo para o mundo. Cada vez gosto mais de aqui viver”.
Entre paredes pintadas e histórias partilhadas, a transformação não aconteceu de um dia para o outro, mas deixou marcas tanto para quem ali vive como para quem chega de fora.
*Sara de Melo Rocha é correspondente da ONU News em Lisboa.