Em destaque Portugal enfrenta uma temporada de incêndios sem precedentes: como prevenir?

Portugal enfrenta uma temporada de incêndios sem precedentes: como prevenir?

@UNEP

Do Mediterrâneo aos Balcãs, o calor implacável e a seca têm alimentado incêndios intensos por toda a Europa. Portugal, Grécia, Espanha, Turquia, Albânia, Montenegro, Chipre, Reino Unido, França e Itália, entre outros — as comunidades enfrentam ondas de fogo, deslocamentos e respostas de emergência.

Mais do que uma crise sazonal

Embora os incêndios florestais sejam comuns no verão, esta situação vai além de uma crise sazonal. Ondas de calor impulsionadas pelas alterações climáticas, secas prolongadas, padrões de vento intensos e vegetação seca abundante estão a convergir para criar uma “nova normalidade” de incêndios extremos.

Desde o início de 2025, mais de 450.000 hectares arderam na Europa — mais do dobro da área queimada no mesmo período do ano passado, com impactos severos em paisagens, cidades e comunidades, propagando-se com uma rapidez e gravidade alarmantes.

Enquanto as comunidades lutam para proteger vidas e meios de subsistência, a urgência da prevenção nunca foi tão grande.

Portugal é o país com a maior percentagem de território ardido na UE em 2025. Sistema Europeu de Informação de Fogos Florestais indica que 2,35% do território português já ardeu este ano. Em números absolutos, só é ultrapassado por Espanha.

A questão é: como podemos reforçar os esforços de prevenção a longo prazo e reduzir o risco antes que as chamas comecem?

Cinco ações-chave para a prevenção de incêndios florestais:

  1. Gestão florestal

Criar corta-fogos, eliminar ou reduzir material seco e inflamável através de pastoreio controlado, poda ou queimas prescritas.
Por exemplo, investigadores em França analisaram os corta-fogos como uma medida proativa para futuros incêndios. Estas áreas artificiais com menor carga de combustível atuam como barreiras para travar ou abrandar a propagação do fogo. Também oferecem zonas seguras de acesso e retirada para os bombeiros durante as operações. (Documento de trabalho GAR 2019)

  1. Urbanismo resiliente

Garantir que os novos empreendimentos considerem os riscos, com espaços defensivos e materiais resistentes ao fogo.
Por exemplo, na República Checa, a nível local, os licenciamentos de construção próximos de zonas florestais exigem o consentimento da autoridade florestal estatal e do serviço de bombeiros.

  1. Sistemas de alerta precoce

Expandir e interligar redes de deteção locais com previsões regionais para detetar e travar incêndios rapidamente.
Por exemplo, a Suécia opera um sistema automático de deteção de incêndios em tempo real, utilizando dados de satélite VIIRS. Os incêndios são detetados em 15 minutos e os alertas são enviados aos serviços municipais de bombeiros através de um portal nacional e do SOS Alarm. Em 20–25% dos casos, os incêndios são detetados mais rapidamente do que com métodos tradicionais, especialmente em áreas remotas, permitindo uma resposta mais rápida e precisa.

  1. Consciência comunitária

É crucial que os cidadãos estejam conscientes do risco e equipados com conhecimentos sobre práticas seguras, evacuação e comunicação de perigos.
A resiliência inclusiva com grupos vulneráveis (idosos, pessoas com deficiência, comunidades de baixos rendimentos) deve estar no centro do planeamento e da resposta.
Por exemplo, Portugal realiza campanhas de sensibilização, combinadas com visitas porta a porta e educação nas escolas. Os governos locais também monitorizam proativamente populações vulneráveis para garantir que recebem apoio atempado durante emergências por incêndios.

  1. Planeamento multirriscos

Os incêndios podem aumentar o risco de outros perigos, como inundações, uma vez que a vegetação destruída reduz a absorção da água da chuva e os solos tornam-se repelentes à água.
Reparar os danos e planear estes riscos em cascata reforça a resiliência a longo prazo.
Exemplo: na Turquia, após os grandes incêndios de 2024, o Ministério da Agricultura e Florestas comprometeu-se a plantar 500 milhões de sementes e mudas por ano para restaurar a vegetação, reduzir o escoamento e reforçar a resiliência contra inundações e erosão pós-incêndio.

Esta é a crise climática em movimento. Mas não é inevitável.
Devemos agir agora para reduzir as emissões globais e investir na redução do risco.