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Presidente da Assembleia Geral apela à UE que lidere a defesa da ONU

© União Europeia/Alexis Haulot Presidente da Assembleia Geral das Nações Unidas, Annalena Baerbock, no Parlamento Europeu, em Estrasburgo, França.

Annalena Baerbock pediu ao Parlamento Europeu que defenda a verdade e o multilateralismo; discurso em Estrasburgo realça papel central da Carta da ONU; alerta destaca uso da desinformação e de notícias falsas como instrumentos de poder e para os seus impactos na democracia.

*Artigo da autoria da ONU News

A presidente da 80ª sessão da Assembleia Geral da ONU, Annalena Baerbock, pediu, esta terça-feira, ao Parlamento Europeu, para que a União Europeia assuma um papel central na defesa da Carta da ONU, do sistema internacional e da verdade.

Discursando em Estrasburgo, a líder do maior órgão deliberativo da organização descreveu um contexto de crescente instabilidade global e ataques ao multilateralismo.

Reforço do compromisso com a ONU

Baerbock alertou que a ordem internacional não está apenas sob pressão, mas “sob ataque”, referindo-se aos diversos conflitos que marcam a atualidade, incluindo a Venezuela, o Irão, a Gronelândia, a Ucrânia, Gaza e o Sudão.

A representante sublinhou que o contexto geopolítico atual contradiz mais de um século de progresso, defendendo que no momento em que a ONU é mais necessária, aqueles que têm uma “responsabilidade especial de proteger a paz e a segurança” estão a afastar-se ou mesmo a atacá-la abertamente.

Baerbock apelou a uma aliança entre regiões para proteger e reforçar a Carta da ONU, envolvendo África, Américas, Ásia, Pacífico e Europa. O discurso enfatizou  o reforço do compromisso e uma responsabilidade especial por parte da União Europeia.

União para combater a desinformação

Baerbock alertou para o uso deliberado de notícias falsas e da manipulação informativa como instrumentos de poder político, mencionando a presença generalizada nas “redes sociais, televisão, parlamentos, discursos e na Assembleia Geral”.

A presidente da Assembleia Geral destacou ainda que defender a verdade e combater a desinformação e o discurso de ódio exigem uma resposta firme, imediata e coletiva, como demonstrado recentemente no caso da Gronelândia. O uso do poder do mercado integrado europeu para apoiar iniciativas das Nações Unidas em matéria de governação digital e de inteligência artificial foi uma das sugestões apresentadas.

Ataques aos direitos das mulheres

Falando enquanto mulher, Baerbock defendeu o reconhecimento dos deepfakes como imagens não consensuais, reforçando que 99% têm mulheres como alvo. Para a diplomata alemã, os fenómenos não são isolados, mas sim “ataques sistemáticos contra as mulheres”, que devem ser levados tão a sério como qualquer outra ameaça.

Para a presidente, a defesa da verdade não pode ser passiva, acrescentando que “o silêncio é uma escolha e a inação também”, e que a ação conjunta entre os Estados é essencial perante situações de chantagem, coerção ou intimidação.

ONU/Amanda Voisard Altos funcionários da ONU seguram cópias da Carta da ONU na sede da ONU em Nova Iorque

Resposta europeia à guerra na Ucrânia

Baerbock recordou a resposta da União Europeia à invasão da Ucrânia, há quatro anos, quando em poucos dias, os Estados-membros aprovaram em conjunto um dos maiores pacotes de sanções da história, demonstrando unidade, determinação e um propósito comum.

A presidente da Assembleia Geral da ONU reconheceu, contudo, que essa resposta não teria sido possível sem apoio internacional, lembrando que as solicitações feitas na Assembleia Geral das Nações Unidas e sublinhando que a guerra na Ucrânia não dizia apenas respeito à Europa, mas sim à ordem internacional e à Carta da ONU.

Apelo global à Europa

A presidente afirmou ainda que uma situação semelhante se verifica atualmente, com desafios que não se limitam à Gronelândia, mas se estendem à América Latina, à África e a outras regiões.

Nesse contexto, pediu a uma resposta clara da União Europeia, defendendo um compromisso inequívoco com a ONU e com a paz internacional. Destacou ainda o apelo conjunto feito com o secretário-geral, António Guterres, para a criação de uma aliança transversal entre regiões.

Baerbock saudou também a posição da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, que afirmou estar pronta para reforçar esse compromisso, nomeadamente através de acordos comerciais estratégicos, como os estabelecidos com o Mercosul e a Índia.

Comércio, desenvolvimento e segurança global

A presidente da Assembleia Geral frisou o potencial transformador de acordos comerciais alargados e enfatizou que parcerias com regiões como a Austrália, Nova Zelândia, Canadá, África e Médio Oriente podem criar uma base económica sólida para a paz.

Para a responsável, cabe à União Europeia assumir um papel de liderança neste esforço, impulsionando alianças económicas que reforcem simultaneamente a segurança, o desenvolvimento sustentável e a cooperação internacional.

ONU/Mark Garten Sede das Nações Unidas em Nova Iorque

Reforma das Nações Unidas e responsabilidade financeira

Baerbock reconheceu a existência de burocracia excessiva ao longo dos mais de 80 anos da organização, mas rejeitou qualquer ideia de desmantelamento e alertou ainda para o risco de instrumentalização das fragilidades da ONU por parte de atores que pretendem enfraquecer o multilateralismo ou concentrar a responsabilidade pela paz mundial em grupos restritos.

A representante encorajou a UE a reforçar o seu envolvimento no processo de reforma, ONU80, e apelou à participação ativa nos debates sobre a reforma da arquitetura financeira internacional.

para além disso, defendeu ainda o pagamento em dia e integral das contribuições à ONU e a revisão das regras financeiras em vigor, de forma a evitar um colapso financeiro nos próximos meses.

Inclusão na liderança da ONU

No encerramento da sua intervenção, Baerbock destacou a importância de uma liderança corajosa e inclusiva, defendendo o apoio às candidaturas femininas ao cargo de Secretário-Geral da ONU. Citando o antigo secretário-geral, Kofi Annan, concluiu que não é possível haver desenvolvimento sem paz, nem paz sem respeito pelos direitos humanos.

O discurso apelou ainda a que os Estados não confundam verdade com fraqueza, nem reforma com fracasso.