Assinala-se hoje o Dia Internacional para Proteger a Educação de Ataques, numa altura em que a violência armada continua a ameaçar milhões de crianças e jovens em todo o mundo. Criada pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 2020, a data pretende mobilizar governos, organizações internacionais e sociedades para salvaguardar um direito humano fundamental que, em zonas de conflito, está cada vez mais ameaçado.
Na sua mensagem para a ocasião, o secretário-geral da ONU, António Guterres, alerta para a gravidade da situação. “A educação é um passaporte para um futuro melhor para cada criança e jovem. É também um direito humano fundamental. Mas o exercício desse direito está a tornar-se cada vez mais perigoso”, afirma Guterres recordando que, nos últimos dois anos, “mais de 8.500 ataques em todo o mundo tiveram como alvo escolas, estudantes e professores”, causando mortes, sequestros e traumas duradouros.
O alerta surge apesar dos progressos alcançados na última década. Segundo as Nações Unidas, desde 2015 mais 110 milhões de crianças e jovens passaram a frequentar a escola e as taxas de conclusão dos estudos aumentaram, especialmente entre as raparigas. Garantir uma educação de qualidade para todos continua a ser um dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, reconhecido como um pilar essencial para a paz, a prosperidade e a igualdade.
Contudo, em muitos países afetados por conflitos, a escola permanece um sonho distante. No Afeganistão, milhões de raparigas continuam impedidas de frequentar o ensino secundário, mais de cinco anos depois de lhes ter sido retirado esse direito. As Nações Unidas têm insistido que nenhum país pode prosperar quando metade da sua população é excluída da educação, defendendo que as jovens afegãs merecem salas de aula e oportunidades, não barreiras.
Na Ucrânia, a educação resiste diariamente aos efeitos da guerra. Entre apagões, sirenes antiaéreas e ataques frequentes, estudantes e professores esforçam-se por manter o ensino em funcionamento. Para muitas crianças, a escola representa não apenas um local de aprendizagem, mas também um espaço de estabilidade e esperança num contexto marcado pela incerteza.
Na Faixa de Gaza, onde a violência destruiu infraestruturas e interrompeu rotinas, a educação continua a desempenhar um papel crucial na recuperação emocional das crianças. Programas apoiados por agências da ONU recorrem a atividades artísticas, materiais escolares e espaços de aprendizagem temporários para ajudar os mais jovens a lidar com o trauma, a perda e o deslocamento forçado.
Também no Sudão a crise educativa permanece profunda. De acordo com dados da UNICEF, a insegurança continua a impedir o acesso a ambientes de aprendizagem seguros, sobretudo em Darfur, Cordofão e zonas que acolhem populações deslocadas. Embora cerca de 14 mil das 19.390 escolas do país estejam atualmente operacionais, centenas de estabelecimentos continuam ocupados por grupos armados ou utilizados como abrigos. Desde o início do ano, parceiros humanitários conseguiram levar oportunidades educativas a cerca de 1,3 milhões de crianças e adolescentes.
Perante este cenário, a ONU, a UNESCO e a UNICEF renovam o apelo à proteção das escolas como espaços seguros e invioláveis. “Todos os Estados têm a obrigação de garantir o direito à educação para cada criança”, sublinha António Guterres, defendendo a implementação da Declaração sobre Escolas Seguras e o reforço dos esforços internacionais para proteger estudantes e professores. Numa época em que salas de aula são cada vez mais atingidas pelos conflitos, a mensagem do Dia Internacional é clara: nenhuma criança deve arriscar a vida para aprender.