A corrida para encontrar o sucessor de António Guterres na liderança da Organização das Nações Unidas já está em curso. Esta semana, o mundo volta as atenções para Nova Iorque, com o início dos diálogos interativos com os quatro candidatos ao cargo de secretário/a-geral, que poderão ser acompanhados em direto pela UN WebTV.
Pela primeira vez em dez anos, as Nações Unidas preparam-se para eleger um novo secretário-geral para liderar a organização, num momento de desafios geopolíticos e guerras sem precedentes. Nos dias 21 e 22 de abril, os candidatos irão apresentar na Assembleia Geral da ONU a visão e responder a perguntas dos Estados-membros e da sociedade civil.
“Numa altura de desafios crescentes em que os princípios fundamentais da Carta das Nações Unidas são postos em causa, o mundo precisa mais do que nunca das Nações Unidas e de um secretário-geral capaz de exercer uma liderança forte, baseada em princípios e eficaz”, afirmou a presidente da Assembleia Geral da ONU, Annalena Baerbock. “Em tempos em que a ONU e o direito internacional estão sob ataque direto, o papel do secretário-geral é crucial. Ele ou ela deve ser o mais forte defensor da Carta das Nações Unidas, que é a base da ordem internacional baseada em regras”, concluiu.
Os protagonistas da corrida
Michelle Bachelet: A ex-Presidente do Chile exerceu já funções como alta-comissária da ONU para os Direitos Humanos. Conta com o apoio do Brasil e do México na sua candidatura, contudo o Chile absteve-se. A candidata defende uma ONU “mais eficiente, orientada para resultados e capaz de antecipar crises” e defende que um secretário-geral que “mantenha uma forte presença em campo, possa contribuir significativamente para a diplomacia preventiva”. O diálogo interativo da candidata decorrerá dia 21 de abril, das 10h às 13h.
Rafael Grossi: O argentino é diretor da Agência Internacional de Energia Atómica e ex-embaixador do seu país na Áustria. Apoiado por Buenos Aires, afirma que “o mundo ainda precisa das Nações Unidas. Mas uma ONU que funcione”, rematou na carta em que explica a sua visão. Defende uma “abordagem imparcial e orientada para os resultados” e critica a organização por “ter acumulado mandatos sobrepostos e funções fragmentadas”. O diálogo interativo do candidato decorrerá dia 21 de abril, das 15h às 18h.
Rebeca Grynspan: É ex-vice-presidente da Costa Rica e atual secretária-geral da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD). Foi nomeada pelo seu país de origem e afirma que “defender a ONU é ter a coragem de a mudar”. Propõe o uso de novas ferramentas tecnológicas como sistemas de alerta precoce com base em dados e análises com apoio de Inteligência Artificial para identificar riscos. O diálogo interativo do candidato decorrerá dia 22 de abril, das 10h às 13h.
Macky Sall: Foi presidente do Senegal, mas conta com o apoio de Burundi na sua candidatura. Considera que o mundo “atravessa hoje uma crise profunda” e defende uma agenda que dê prioridade à paz e uma liderança assente no “pragmatismo” e no “respeito pela soberania dos Estados”. O diálogo interativo do candidato decorrerá dia 22 de abril, das 15h às 18h.
As fases de candidatura
A seleção do secretário-geral da ONU é um processo complexo e faseado. Diferente de outros cargos, as candidaturas não são individuais: têm de ser apresentadas oficialmente por um ou mais Estados-membros.
Após a formalização da candidatura, os candidatos devem apresentar uma “Declaração de Visão”, onde demonstram as suas perspectivas para o cargo e participar nos Diálogos Interativos. Nestas sessões, cada candidato dispõe de três horas para responder a perguntas dos Estados-membros e da sociedade civil.
A decisão final passa depois pelo Conselho de Segurança e pela Assembleia Geral. Para o CS eleger um candidato, deve obter 9 votos dos 15 membros do Conselho de Segurança, incluindo o apoio ou a abstenção dos cinco membros permanentes: França, Rússia, Reino Unido, Estados Unidos e China.
Após a recomendação do CS, para ser formalmente eleito, necessita de recolher pelo menos metade de votos a favor dos 193 Estados-membros da Assembleia Geral das Nações Unidas.
A voz de 8 mil milhões de pessoas
“A escolha do secretário-geral irá também demonstrar se as Nações Unidas representam verdadeiramente os 8 mil milhões de pessoas a quem prestamos serviço e a diversidade da comunidade global no século XXI. A este respeito, a participação da sociedade civil é fundamental”, afirmou a presidente da Assembleia Geral, já que durante os diálogos interativos, a sociedade civil terá a oportunidade direta de questionar quem poderá vir a ser esse novo rosto do multilateralismo global.
Este escrutínio público ganha ainda mais relevo num ano em que a pressão por uma liderança feminina é histórica. Com candidatas, como Michelle Bachelet e Rebeca Grynspan, o processo de 2026 poderá culminar na eleição da primeira mulher para o cargo.