A humanidade deverá ultrapassar o limite de 1,5 graus Celsius de aquecimento global nos próximos anos, reconhece um novo relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), que considera agora inevitável falhar temporariamente a principal meta do Acordo de Paris. Apesar disso, o documento sustenta que ainda é possível reduzir novamente a temperatura global abaixo desse limiar até ao final do século, desde que sejam tomadas medidas imediatas e ambiciosas para cortar as emissões de gases com efeito de estufa.
O relatório, divulgado esta terça-feira em Nairobi, aponta como cenário mais otimista um pico de aquecimento de 1,8 graus Celsius acima dos níveis pré-industriais. A maioria das restantes projeções, contudo, antecipa temperaturas ainda mais elevadas, ultrapassando os 2 graus. Segundo os autores, cada fração adicional de aquecimento agravará os impactos climáticos e aumentará o risco de fenómenos irreversíveis.
Para limitar os danos, o PNUMA defende uma estratégia de “ultrapassagem, pico e declínio”, que combina reduções rápidas e sustentadas das emissões, incluindo metano, com a remoção de dióxido de carbono da atmosfera através de florestação e outras tecnologias. O objetivo é minimizar tanto a magnitude como a duração do período em que o planeta permanecerá acima da barreira dos 1,5 graus.
“O calor extremo deste verão, os incêndios devastadores e as cheias mortais são um aviso do que está para vir”, afirmou o secretário-geral da ONU, António Guterres, apelando a uma aceleração da ação climática global para tornar a ultrapassagem “o mais pequena e breve possível”.
Foto: Emmanuella Ackon / Creative Commons Zero, Domínio Público
A diretora executiva do PNUMA, Inger Andersen, alertou que “não existem bons resultados se permanecermos acima dos 1,5 graus Celsius”. Segundo Andersen, as ondas de calor extremas já demonstram que os impactos das alterações climáticas serão mais rápidos, mais intensos e mais duradouros, causando mais mortes e perturbações económicas e sociais. A responsável defendeu o reforço imediato da ação climática através da redução das emissões, do aumento da resiliência e de investimentos na adaptação.
O relatório alerta ainda para o agravamento dos fenómenos meteorológicos extremos, a perda de ecossistemas, a ameaça existencial a pequenos Estados insulares e a cidades costeiras de baixa altitude, bem como riscos crescentes para a saúde, a segurança alimentar e os recursos hídricos. A probabilidade de ultrapassar pontos de rutura climática irreversíveis, como o colapso de grandes mantos de gelo, a degradação da floresta amazónica ou alterações profundas nas correntes do Atlântico, aumenta à medida que as temperaturas sobem e permanecem elevadas por mais tempo.
Embora admita que algumas perdas já serão inevitáveis devido a décadas de inação, o PNUMA conclui que uma resposta rápida, coordenada e baseada na cooperação internacional continua a poder reduzir significativamente os riscos. O sucesso dependerá da vontade política, do financiamento, da justiça climática e da capacidade dos países com maior responsabilidade histórica pelas emissões liderarem os esforços de mitigação e adaptação.