O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, apelou esta terça-feira a um reforço dos esforços para alcançar uma solução abrangente e duradoura para a divisão de Chipre, sublinhando que existe entre os cipriotas um desejo claro de progresso e reconciliação. No final da sua visita oficial à ilha, em Nicósia, Guterres afirmou ter encontrado uma população determinada a construir “um futuro mais pacífico e partilhado”, apesar das cicatrizes deixadas por décadas de divisão.
Durante a visita, o líder da ONU reiterou o empenho das Nações Unidas em apoiar as comunidades cipriota grega e cipriota turca na procura de um acordo político. Recordando os sucessivos esforços diplomáticos desenvolvidos ao longo dos últimos anos, Guterres defendeu que este é o momento de reconstruir a confiança entre as partes através da adoção de medidas concretas que produzam benefícios no quotidiano dos cidadãos. “Este é o momento em que devem ser feitos todos os esforços para reconstruir a confiança”, afirmou.
O secretário-geral destacou igualmente o trabalho da sua enviada pessoal para o Chipre, María Ángela Holguín, que tem mantido contactos com ambas as partes e recolhido opiniões diretamente junto da população. Segundo Guterres, a mensagem recebida dos cipriotas foi inequívoca: “Querem progresso. Querem ver os seus líderes fazer compromissos e percorrer esse último quilómetro em direção a uma solução para a questão de Chipre.”
Nas reuniões realizadas com o presidente da República de Chipre, Nikos Christodoulides, e com o líder cipriota turco, Tufan Erhürman, o secretário-geral afirmou ter recebido garantias de que ambos continuarão a trabalhar seriamente com a enviada das Nações Unidas. Na sequência desses contactos, anunciou a intenção de convocar uma nova reunião no formato “5+1”, envolvendo as duas partes cipriotas e os três Estados garantes, Grécia, Turquia e Reino Unido, sob a mediação da ONU.
Contudo, Guterres deixou claro que não pretende repetir encontros sem resultados concretos. “Não quero ter mais reuniões 5+1 sem resultados. Quero uma reunião 5+1 bem-sucedida que abra caminho a uma solução”, declarou aos jornalistas. O responsável adiantou que ainda não foi estabelecido um calendário para o encontro, explicando que serão primeiro desenvolvidos trabalhos preparatórios em áreas como a criação de confiança, a metodologia negocial e os aspetos substantivos do processo.
O líder das Nações Unidas aproveitou ainda para sublinhar a importância da Missão de Manutenção da paz da ONU no Chipre (UNFICYP), presente na ilha há mais de seis décadas, apelando ao respeito pela sua autoridade tanto na zona tampão como nas linhas de cessar-fogo definidas pelas Nações Unidas. Destacou igualmente o trabalho do Comité para as Pessoas Desaparecidas e dos comités técnicos bicomunais, considerando-os exemplos de cooperação prática entre as duas comunidades.
Referindo-se ao contexto geopolítico mais amplo, Guterres alertou para a instabilidade crescente no Mediterrâneo Oriental e no Médio Oriente, defendendo que uma solução para Chipre teria impacto muito além da ilha. “Acredito que uma solução para Chipre é absolutamente crucial não apenas para preservar os interesses e a paz do povo cipriota, mas também como um fator de estabilidade numa região que se está a tornar perigosamente instável”, afirmou. Apesar das dificuldades, o secretário-geral garantiu que a ONU continuará plenamente empenhada em apoiar os cipriotas na procura de uma paz duradoura.