O que é a segurança alimentar?
Existe segurança alimentar quando as pessoas têm acesso a alimentos seguros e nutritivos, em quantidade suficiente para um crescimento e desenvolvimento normais, levando uma vida ativa e saudável. Por outro lado, há insegurança alimentar quando estas condições não se verificam.
A insegurança alimentar crónica ocorre quando uma pessoa não consegue consumir alimentos suficientes, de forma prolongada, para manter uma vida normal, ativa e saudável. Já a insegurança alimentar aguda refere-se a qualquer situação que ameaça diretamente a vida ou os meios de subsistência das pessoas.
Quantas pessoas vivem em insegurança alimentar?
Segundo o relatório mais recente ’“O Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo” (SOFI), até 757 milhões de pessoas enfrentaram fome crónica em 2023.
De acordo com o “Panorama Global 2025” do Programa Alimentar Mundial (PAM), 319 milhões de pessoas enfrentam níveis agudos de insegurança alimentar nos 67 países onde o PAM opera e onde existem dados disponíveis.
Porque é que a segurança alimentar é tão importante?
A segurança alimentar é uma exigência moral, pois todas as pessoas devem ter acesso igual e irrestrito a alimentos.
Mas vai além disso: é também um investimento na estabilidade e segurança global. Onde há insegurança alimentar, há deslocações forçadas e instabilidade, com impactos que se podem propagar a outros países e regiões.
O que causa a insegurança alimentar?
Os principais fatores são os conflitos, os fenómenos meteorológicos extremos e os choques económicos, muitas vezes interligados.
As pessoas deslocadas das suas casas e meios de subsistência estão entre os grupos mais vulneráveis.
Existem quatro fatores essenciais que afetam a segurança alimentar: utilização, acesso, disponibilidade e estabilidade.
- A utilização refere-se à capacidade de preparar os alimentos com condições higiénicas — o que requer combustível e acesso a água potável — e de absorver os nutrientes. Pessoas em zonas remotas ou deslocadas devido a conflitos ou catástrofes podem não conseguir preparar os alimentos corretamente. Este conceito inclui ainda a utilização adequada de sementes e rações, a redução de perdas pós-colheita e o aumento de excedentes para exportação.
- O acesso pode ser dificultado por colheitas falhadas (devido a fenómenos climáticos), preços elevados nos mercados (devido à inflação) ou pela impossibilidade de se deslocar até aos mercados (em zonas afetadas por conflitos ou desastres). O acesso também pode ser limitado por motivos de género, etnia ou outros fatores de discriminação.
“Durante os conflitos, materiais como sementes e fertilizantes tornam-se menos disponíveis e mais caros.”
- A disponibilidade de alimentos pode ser afetada por fatores como elevados custos de importação ou infraestruturas de transporte deficientes. Em zonas de conflito, sementes e fertilizantes escasseiam, o que impede os agricultores de cultivar, mesmo que não tenham sido forçados a abandonar as suas terras. Em muitas zonas rurais, onde os alimentos cultivados localmente são a principal fonte alimentar, isto tem um impacto direto. Grandes programas de ajuda (do governo, PAM ou ONG) podem melhorar a disponibilidade e o acesso, por exemplo através de distribuição de alimentos ou de vales para compra em lojas registadas.
- A estabilidade é o elemento transversal, que diz respeito à consistência dos outros três fatores. Por exemplo, em Gaza, quando o acesso e a disponibilidade de alimentos foram abruptamente interrompidos, a instabilidade gerou um aumento dramático da insegurança alimentar.
Como é que as estações do ano afetam a segurança alimentar?
O calendário agrícola tem um papel crucial. Antes da colheita ocorre normalmente a chamada “época de escassez”, quando os alimentos em casa são poucos, os mercados têm menos oferta e os preços são mais elevados. Após a colheita, há mais abundância e os preços baixam.
Uma má época de chuvas pode devastar colheitas e afetar a segurança alimentar.
As despesas sazonais — como as propinas escolares — também afetam os orçamentos familiares e a capacidade de comprar alimentos.
Nas zonas urbanas, há ainda outros fatores sazonais: épocas com mais trabalho e rendimento, períodos de migração que aumentam a procura de alimentos ou feriados que implicam grandes despesas.
Existe uma forma padronizada de medir a insegurança alimentar?
Sim. O padrão global é a Classificação Integrada das Fases da Segurança Alimentar (IPC). Define cinco fases, desde “segurança alimentar mínima” (Fase 1) até à “catástrofe” ou “fome” (Fase 5).
A IPC reúne mais de 20 parceiros — governos, agências da ONU e ONG — que partilham dados para criar programas adequados às necessidades reais.
O PAM recolhe dados com base em indicadores estabelecidos, como o Índice de Consumo Alimentar, utilizado há mais de 20 anos.
Quando não há dados IPC, usam-se métodos equivalentes, como o Cadre Harmonisé na África Ocidental ou o método CARI do PAM.
Como o PAM recolhe dados sobre segurança alimentar?
Os dados sobre insegurança alimentar aguda são recolhidos de várias formas. O PAM é o maior fornecedor mundial de dados sobre segurança alimentar, recolhendo informações essenciais para as suas operações e para a IPC.
Os métodos incluem questionários presenciais e inquéritos móveis, imagens de satélite e modelação geoespacial.
Em zonas de difícil acesso devido a conflitos, o PAM recorre a entrevistas telefónicas e outros métodos remotos.
Onde são publicados os dados sobre segurança alimentar?
Os dados anuais sobre insegurança alimentar crónica são publicados no relatório SOFI, todos os meses de julho, por cinco agências da ONU, incluindo o PAM.
Os dados sobre insegurança alimentar aguda estão no Relatório Global sobre Crises Alimentares, iniciativa conjunta centrada em países em crise alimentar, e no Panorama Global do PAM, que se foca nos países com operações do PAM.
As estatísticas mais recentes do PAM estão disponíveis em plataformas como o DataViz e o HungerMap LIVE, que usa inteligência artificial.
Os números podem variar consoante a cobertura geográfica e o período analisado.
Como é que o PAM melhora a segurança alimentar?
O PAM atua de várias formas, em parceria com governos, outras agências da ONU, ONG locais e outros atores.
Reforça o acesso e a disponibilidade de alimentos através de assistência imediata em situações de emergência.
Desenvolve também programas específicos para a época de escassez, distribuindo alimentos adicionais ou disponibilizando apoios em dinheiro para os grupos mais vulneráveis. Os pequenos agricultores, que produzem a maioria dos alimentos no mundo, recebem formação para aumentar a produção, reduzir perdas e melhorar os preços de venda.
No Bangladesh, o PAM distribuiu dinheiro antes de inundações previstas, permitindo que as pessoas comprassem alimentos enquanto os mercados ainda estavam acessíveis. Os pagamentos de seguros climáticos permitem alimentar o gado e adquirir sementes e fertilizantes. Na República Democrática do Congo, o PAM melhorou o acesso a mercados ao reconstruir pontes entre zonas rurais e cidades. Os programas de refeições escolares do PAM garantem alimentação a crianças em mais de 60 países.
O PAM fornece ainda fogões eficientes e combustível, treina comunidades em nutrição e práticas alimentares infantis — tudo isto melhora a utilização dos alimentos.
Há muitas outras formas de o PAM contribuir: desde o reforço da resiliência climática até à capacitação técnica de funcionários governamentais. O objetivo final? Um mundo onde ninguém tenha de se deitar com fome.