“Sejam vocês próprias”, diz uma das pioneiras da diplomacia em Portugal

*Artigo da autoria de Sara de Melo Rocha para a ONU News em português

Ana Martinho foi uma das primeiras mulheres a entrar na carreira diplomática em Portugal, após a Revolução dos Cravos de 1974. A ONU News conversou com a embaixadora sobre o Dia Internacional das Mulheres na Diplomacia

A portuguesa Ana Martinho, licenciou-se em Direito, em 1970. Começou por exercer funções em advocacia, numa altura em que a carreira diplomática não estava disponível para as mulheres. Em Portugal, a lei estabelecia que apenas “os cidadãos portugueses originários do sexo masculino” poderiam aceder ao serviço diplomático.

A mudança chegou com a Revolução de Abril. Em 1974, o I Governo Provisório anunciou oficialmente a abertura da carreira diplomática às mulheres. A decisão foi classificada como “uma medida de justiça e equidade, praticada pela generalidade dos países” e a referência à exigência do “sexo masculino” foi eliminada. 

“Vou experimentar”

Ana Martinho relembrou à ONU News como tomou a decisão de se candidatar à carreira diplomática, após esta mudança.

“Vou experimentar, é uma porta que se abre”, confessou a embaixadora. E em agosto de 1975, integrou um dos primeiros grupos de jovens adidos diplomáticos. Estava a nascer uma nova geração dentro do Ministério dos Negócios Estrangeiros e, pela primeira vez, essa geração incluía mulheres.

 

Uma entrada sem resistência

A chegada das mulheres à diplomacia aconteceu num momento de reorganização do país, mas a integração interna revelou-se simples. Ana Martinho recorda que “fomos muito bem recebidas e não senti qualquer resistência nesse sentido.”

Ainda assim, a diplomata reconhece que a presença feminina introduziu novas nuances à prática profissional e sublinhou que “as diferenças refletem-se na maneira como as mulheres trabalham, numa forma de viver e de exercer diplomacia, um bocadinho diferente.”

Meio século depois, o impacto dessa evolução é visível no topo da administração pública, já que “as quatro diretoras-gerais do Ministério são mulheres”.

Uma carreira entre Lisboa e o mundo

O percurso da embaixadora atravessa várias geografias e inclui diversas funções bilaterais e multilaterais. Começou em Lisboa, seguiu para Nova Iorque, Bruxelas, Viena, Praga e Paris.  

Ana Martinho passou por cargos em diferentes níveis do serviço diplomático, incluindo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e Cultura (UNESCO) e a representação de Portugal nas Nações Unidas. 

Em Lisboa, viria a alcançar um marco histórico ao tornar-se na primeira e única secretária-geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros, o cargo de topo da administração pública diplomática em Portugal. 

Carta da ONU “é sagrada”

Na missão junto das Nações Unidas, a diplomata consolidou uma visão muito própria do sistema internacional: “Sou multilateralista e considero que o multilateralismo é a forma de resolver problemas que dizem respeito a todos.”

Ana Martinho fala sobre a ONU e a Carta das Nações Unidas como “algo sagrado”, mas reconhece também o contexto atual: “Existe, neste momento, uma polarização em que as Nações Unidas têm dificuldade em afirmar-se. Mas não é isso que deve fazer as ONU desistir, porque essa polarização vai acabar através de esforços positivos.”

Foto: ONU News/ Sara de Melo Rocha | Assembleia da República em Lisboa, Portugal.

Diplomacia portuguesa constrói pontes

Ao olhar para a evolução da política externa portuguesa das últimas décadas, Ana Martinho destaca o papel que Portugal tem desempenhado nos fóruns internacionais. 

A embaixadora defende que o país beneficiou de uma característica que o distingue de muitas outras diplomacias: “A função de Portugal foi sempre positiva, por não ter uma agenda de poder.”

Esta posição permitiu a Portugal assumir frequentemente um papel de mediador, facilitador de consensos e “construtor de pontes”. 

As mulheres e o futuro da diplomacia 

50 anos depois de ter integrado uma das primeiras vagas para mulheres na diplomacia portuguesa, Ana Martinho olha para a evolução da carreira com naturalidade. A presença feminina em cargos de liderança (exceção quando entrou para o Ministério dos Negócios Estrangeiros), faz hoje parte da realidade: “metade da população do mundo são mulheres”, relembra.

Às jovens que ponderam seguir uma carreira diplomática, deixa uma mensagem simples: “Entrem, façam o melhor que sabem e sejam vocês próprias.”

Ana Martinho continua a olhar para o futuro com a mesma curiosidade que a levou a candidatar-se à diplomacia em 1975. O seu percurso acompanhou a transformação da profissão em Portugal e ajuda a contar a história de uma mudança, que começou com a abertura de uma porta e que se traduziu numa presença cada vez mais forte das mulheres na representação do país.

Leia na íntegra aqui a entrevista da ONU News com a embaixadora Ana Martinho.

*Sara de Melo Rocha é correspondente da ONU News em Lisboa.