A fome no nordeste do Sudão do Sul atingiu um ponto crítico, com quase 7,7 milhões de pessoas a enfrentarem insegurança alimentar grave, à medida que o conflito se intensifica, alertou esta quarta-feira a agência da ONU responsável por ajuda alimentar de emergência.
A situação é especialmente grave para os repatriados que fogem da violência no Sudão, representando agora quase metade dos que enfrentam níveis de fome catastróficos.
Segundo o Programa Alimentar Mundial (PAM), a chegada de mais de 1,1 milhões de pessoas deslocadas a comunidades já frágeis está a sobrecarregar os recursos e os esforços humanitários.
Com o início da época de escassez antes das colheitas, espera-se que as condições piorem ainda mais. O PAM apela aos doadores para que reforcem o apoio e evitem uma catástrofe humanitária crescente.
“Estes são dos piores níveis de insegurança alimentar que já vimos no país desde a independência”, afirmou Mary-Ellen McGroarty, diretora nacional do PAM no Sudão do Sul, numa videoconferência com jornalistas em Nova Iorque.
“Estamos a assistir ao impacto devastador do conflito no agravamento da fome. As comunidades fugiram apenas com a roupa que tinham no corpo e viram-se obrigadas a abandonar os seus já escassos meios de subsistência e estratégias sazonais de sobrevivência.”
Anos de instabilidade
O Sudão do Sul tornou-se independente do Sudão em 2011, mas a nação mais jovem do mundo tem sido assolada por conflitos e instabilidade desde então.
Uma guerra civil eclodiu em 2013 entre forças leais ao presidente Salva Kiir e as que apoiavam o seu antigo vice-presidente, Riek Machar. O conflito – marcado por violência étnica, atrocidades em massa e uma grave crise humanitária – prolongou-se até à assinatura de um acordo de paz frágil em 2018.
Nos últimos tempos, teme-se um novo mergulho na guerra civil, com a escalada das tensões entre líderes sul-sudaneses, incluindo relatos do alegado confinamento domiciliário de Machar no final do mês passado.
Conflito e doença
A crise ultrapassa os limites da fome: está em curso um surto de cólera no volátil estado do Alto Nilo. Em resposta, o PAM já transportou por via aérea 35 toneladas de ajuda para as zonas afetadas, estando mais ajuda pronta para envio assim que as condições de segurança o permitam.
A agência pretende ainda fornecer assistência alimentar a mais de 450 mil pessoas na região, com foco naquelas que enfrentam níveis de fome classificados como emergência (IPC4) e catástrofe (IPC5), segundo a classificação da ONU conhecida como IPC.
Contudo, o conflito ativo está a dificultar os esforços humanitários, e a distribuição de alimentos foi suspensa em seis condados devido aos combates e à insegurança.
“[Nós e os nossos] parceiros temos os alimentos prontos para entregar e distribuir assim que as condições o permitam”, referiu a agência.
Mulheres num ponto de rutura
À medida que o conflito se alastra e a fome se agrava, são as mulheres e raparigas que mais sofrem com esta crise. Muitas foram forçadas a fugir da insegurança repetidamente.
Os choques climáticos constantes e devastadores têm-lhes causado danos particularmente severos, deixando-as em risco de serem coagidas à prostituição, traficadas ou vítimas de violência sexual ao procurarem, sozinhas e por longas distâncias, alimentos, água ou trabalho.
Para responder ao aumento das necessidades, agências da ONU — como a UNFPA, especializada em saúde reprodutiva — têm operado espaços seguros que oferecem abrigo, apoio psicológico, formação profissional e informação essencial sobre prevenção da violência baseada no género.
Contudo, devido a cortes no financiamento, pelo menos dois destes espaços deverão encerrar até maio, deixando milhares de mulheres e raparigas sem acesso a apoio.
“Perante esta crise, cada euro conta, cada intervenção importa e cada vida salva é um passo rumo à paz”, afirmou a diretora executiva do UNFPA, Dra. Natalia Kanem.
O UNFPA precisa urgentemente de 8,8 milhões de dólares para manter os serviços vitais em funcionamento, mas recebeu apenas uma fração desse valor.