Artigos Sudão em crise: dois anos de guerra e de catástrofe humanitária

Sudão em crise: dois anos de guerra e de catástrofe humanitária

Naçoes Unidas Uma mulher prepara comida em um campo para deslocados no Sudão

À medida que o Sudão entra no terceiro ano de um conflito devastador entre fações militares rivais — as Forças Armadas Sudanesas (SAF) e as Forças de Apoio Rápido (RSF) — a crise humanitária continua a aumentar a um ritmo alarmante. O número de crianças que necessitam de ajuda humanitária urgente duplicou para 15 milhões desde 2023, de acordo com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF). Estas crianças enfrentam uma mistura letal de violência, deslocação, fome e doença, com o acesso humanitário a deteriorar-se rapidamente. Entretanto, a atenção e o financiamento globais não conseguiram acompanhar o ritmo das necessidades crescentes.

O conflito já desalojou 12,4 milhões de pessoas, fazendo do Sudão a maior crise de deslocações do mundo. Mais de metade destes indivíduos deslocados são crianças, e quase um terço tem menos de cinco anos de idade. As crianças não são apenas vítimas de deslocações forçadas, mas também estão cada vez mais expostas a munições não detonadas, à falta de assistência médica e ao colapso dos sistemas educativos — 90% delas estão fora da escola. A guerra aumentou dez vezes o número de violações graves contra crianças, incluindo assassinatos, mutilações, raptos e violência sexual, com os ataques a expandirem-se muito para além dos pontos críticos anteriores, como o Darfur e o Kordofan do Sul.

© UNICEF/Proscovia Nakibuuka Uma mulher prepara comida num campo para deslocados no estado de Kassala, no Sudão.

A fome instalou-se em pelo menos dez locais, ameaçando alastrar à medida que o Sudão se aproxima da estação das chuvas. Durante este período, aumentam os casos de subnutrição aguda grave — a UNICEF alerta que até 462 mil crianças podem ser afetadas este ano. Os surtos de doenças já estão a aumentar; só no ano passado, registaram-se mais de 49.000 casos de cólera e 11.000 casos de dengue, afetando sobretudo crianças e mães. Estas crises de saúde são agravadas por inundações, contaminação da água e saneamento deficiente em campos de deslocados e zonas de conflito.

Apesar da situação terrível, o acesso humanitário continua severamente restringido devido à violência, às barreiras burocráticas e ao subfinanciamento. Apenas 266,6 milhões de dólares dos mil milhões de dólares necessários para a UNICEF em 2025 foram garantidos, tendo sido angariados apenas 12 milhões de dólares este ano. Os trabalhadores humanitários enfrentam riscos extremos: 90 foram mortos desde o início da guerra, e foram documentados mais de 150 ataques a unidades de saúde. Com a maioria dos hospitais em zonas de conflito a deixarem de funcionar, as mortes maternas estão a aumentar, e as mulheres e raparigas deslocadas estão em grande parte sem acesso a água potável e a cuidados médicos básicos.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, realçou que os civis estão a pagar o preço mais elevado neste conflito, que continua a devastar casas, mercados, escolas e hospitais. A violência sexual continua a grassar, e o uso da violação como arma de guerra tem sido amplamente noticiado. As infraestruturas entraram em colapso, deixando milhões de pessoas sem eletricidade ou água potável, e apenas um quarto das unidades de saúde estão operacionais nas zonas mais afetadas. Guterres enfatizou que as fações em guerra devem ser responsabilizadas pelas suas obrigações internacionais e pela Declaração de Jeddah, que inclui compromissos para proteger os civis.

© UNICEF/UNI779552/Ahmed Mohamd A 5 de abril de 2025, crianças brincam num espaço para crianças (CFS) apoiado pela UNICEF no bairro de Alhatana, Omdurman, estado de Cartum, Sudão.

A comunidade internacional está a ser instada a intervir. A diretora executiva da UNICEF, Catherine Russell, apelou ao financiamento e ao acesso imediatos, alertando que as crianças do Sudão não podem esperar. As agências da ONU referem que só no ano passado prestaram assistência a mais de 15,6 milhões de pessoas. No entanto, sem um maior apoio, poderão em breve não conseguir sustentar sequer serviços mínimos, muito menos expandi-los para satisfazer as necessidades crescentes.

As raízes da guerra do Sudão estão no colapso de uma transição frágil para o governo civil após a queda do governante de longa data Omar al-Bashir. Os combates pesados, principalmente em centros urbanos como Cartum e regiões como o Darfur, devastaram as infraestruturas e os meios de subsistência. O fluxo contínuo de armas e combatentes para o país está a sustentar a guerra, com atores externos a alimentar a sua disseminação. Os líderes humanitários apelam ao fim das transferências de armas e a novos esforços diplomáticos para reativar as conversações de paz e as estruturas de governação transitória.

À medida que o conflito avança, Jens Laerke, do Gabinete das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários, alertou que o Sudão está a tornar-se uma “crise humanitária de proporções industriais”. No entanto, apesar da sua escala, a situação recebe uma atenção internacional limitada. Sem apoio internacional imediato e substancial, milhões de sudaneses — especialmente crianças — correm o risco de morte, fome e traumas a longo prazo numa crise que não mostra sinais de melhoria.