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Transformação sem inclusão ameaça o futuro

Relatório da ONU alerta que o crescimento económico, digital e energético está a deixar milhões para trás e defende um novo modelo centrado nas pessoas

As grandes transformações económicas, digitais e energéticas estão a remodelar o mundo a um ritmo sem precedentes, mas os benefícios desse progresso continuam distribuídos de forma desigual. O alerta é lançado pelo relatório World Social Report 2026: The New Economics of Social Inclusion, das Nações Unidas, que conclui que a exclusão social não é apenas um problema moral, mas uma ameaça direta ao crescimento económico, à estabilidade social e à resiliência das sociedades.

Apesar dos avanços em áreas como a tecnologia, a educação e a riqueza global, milhões de pessoas continuam sem acesso a emprego digno, educação de qualidade, serviços de saúde, conectividade digital ou participação nos processos de decisão. Em 2025, 58% dos trabalhadores mundiais encontravam-se na economia informal, 27% das jovens entre os 15 e os 24 anos estavam fora do emprego, da educação ou da formação, e 26% da população mundial permanecia sem acesso à Internet.

O relatório mostra ainda que o crescimento económico não garante automaticamente maior inclusão. A análise de 168 países ao longo dos últimos 25 anos revela que muitos Estados conseguiram acelerar as suas transformações económicas e tecnológicas sem reduzir significativamente as desigualdades. Na prática, países com níveis semelhantes de rendimento apresentam resultados muito diferentes em matéria de inclusão social.

Uma das principais conclusões é a existência de um “fosso de conversão”: os benefícios da inovação, da digitalização e da transição energética nem sempre chegam à população em geral. Segundo a ONU, são as políticas públicas, a qualidade das instituições e as opções de governação que determinam quem beneficia das transformações em curso e quem fica para trás.

O relatório adverte também para os riscos de aprofundamento das desigualdades na era digital. Embora a conectividade continue a expandir-se, cerca de 2,2 mil milhões de pessoas não tinham acesso à Internet em 2025. Mesmo entre os utilizadores conectados, fatores como o custo do serviço, a qualidade das ligações e a falta de competências digitais limitam a participação plena na economia digital.

As alterações climáticas constituem outro fator de exclusão crescente. Dos 1,1 mil milhões de pessoas que vivem em pobreza multidimensional, 887 milhões estão expostos a pelo menos um grande risco climático. Os impactos recaem sobretudo sobre populações e países com menos recursos para se adaptarem, agravando vulnerabilidades económicas e sociais.

Perante este cenário, as Nações Unidas defendem uma nova visão económica baseada na inclusão social. O relatório sustenta que investir nas pessoas não deve ser encarado como uma despesa, mas como uma condição essencial para aumentar a produtividade, fomentar a inovação, reforçar a confiança nas instituições e assegurar prosperidade duradoura.

Entre as medidas prioritárias, a ONU recomenda o reforço da educação de qualidade ao longo da vida, a formação em competências digitais e inteligência artificial, a expansão dos sistemas de proteção social e de saúde, e o acesso universal à energia sustentável e à conectividade digital. O objetivo é garantir que todos possam participar nas oportunidades criadas pelas transformações em curso.

O relatório apela ainda a mercados de trabalho mais inclusivos, com salários justos, proteção dos trabalhadores, formação profissional direcionada e mecanismos para distribuir de forma mais equitativa os ganhos económicos. Segundo as simulações apresentadas, adiar durante dez anos os investimentos em proteção social pode traduzir-se numa perda potencial de 12% da produção económica quando comparado com países que investem mais cedo.

Por fim, as Nações Unidas sublinham que muitos países em desenvolvimento não conseguirão avançar sozinhos. O relatório pede mais cooperação internacional, financiamento acessível, redução dos encargos da dívida e maior acesso à tecnologia. A mensagem central é clara: as transformações globais são inevitáveis, mas a exclusão não tem de ser. Colocar as pessoas no centro das políticas públicas será decisivo para construir sociedades mais resilientes, inclusivas e prósperas.