
Desde o início da invasão em larga escala da Federação Russa na Ucrânia, a 24 de fevereiro de 2022, a Missão de Monitorização dos Direitos Humanos na Ucrânia (HRMMU) documentou, até meados de setembro de 2025, pelo menos 14.116 civis mortos e 36.481 feridos. O número verdadeiro é, muito provavelmente, bastante superior. A escala da destruição continua a agravar-se, com uma intensificação dos ataques desde junho de 2025.
Mais de 20 agências das Nações Unidas estão ativas na Ucrânia, entre as quais o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), que trabalha em três objetivos principais: governação democrática e coesão social inclusiva, recuperação e crescimento económico sustentáveis e inclusivos, e transformação sustentável do ambiente e da energia.
Nesse contexto, o PNUD na Ucrânia apoia, de forma significativa, o funcionamento das administrações ucranianas em todo o país. Por exemplo, o PNUD ajudou na remoção segura de 800.000 toneladas de detritos e escombros, e mobilizou investimentos privados no setor da energia sustentável, tendo contribuído para a criação de 4.562 empregos verdes em 2024.
O PNUD desempenha um papel crucial na reconstrução da rede de produção e transmissão de energia, fortemente danificada pelos ataques, e na desminagem do território. Mas o trabalho do PNUD vai muito além disso: participa ativamente também na reintegração de veteranos na sociedade e no apoio aos 4,6 milhões de deslocados internos (IDPs) na Ucrânia, como explica Auke Lootsma, cidadão neerlandês e chefe do PNUD na Ucrânia, nesta entrevista exclusiva ao UNRIC.

Quais são as principais prioridades do PNUD na Ucrânia?
Estamos no quarto ano da invasão em larga escala da Ucrânia. Com a recente escalada de ataques, as necessidades da população continuam a aumentar.
O setor mais crítico é o da energia. No ano passado, antes do início do inverno, houve uma grande crise com cortes de eletricidade, que afetaram todos os setores da vida quotidiana. Reparar e reforçar o setor energético é, por isso, uma prioridade, tanto para o tornar menos vulnerável a ataques, como para apoiar os trabalhos de reparação e torná-lo mais verde e compatível com o quadro da União Europeia, tendo em vista uma futura adesão da Ucrânia à UE.
PNUD adquiriu 475 megawatts em equipamentos de geração de energia, garantindo assim o abastecimento de mais de 10 milhões de pessoas.
Outra prioridade é a ação anti minas. A Ucrânia está repleta de minas terrestres explosivas, que põem em perigo a vida das pessoas e representam uma ameaça significativa à segurança humana. Para além do impacto humano, a presença de minas e engenhos não detonados constitui um grande entrave à produção agrícola, especialmente no caso do trigo e do óleo de girassol, setores essenciais para as exportações ucranianas e para a recuperação económica do país.
O PNUD é a principal agência das Nações Unidas responsável pela ação humanitária anti minas na Ucrânia. O programa equipou 202 equipas de desminagem do Serviço Estatal de Emergência e mais de 2.000 profissionais de organizações locais de desminagem receberam formação ou apoio através de atividades de reforço de capacidades.
Até à data, mais de 35.000 quilómetros quadrados de terreno, incluindo zonas agrícolas, foram devolvidos ao uso produtivo, dos quais 23,9 mil km² com o apoio do PNUD. A experiência mostra que qualquer país com este nível de contaminação precisa de décadas para recuperar.
Quais são as outras principais atividades do PNUD na Ucrânia? E têm todos os meios necessários para as implementar no atual contexto de cortes orçamentais?
Uma das principais prioridades para nós é prestar cuidados e apoio aos veteranos que estão a fazer a transição para fora do conflito. Mais de 1 milhão de ucranianos estão atualmente ao serviço das forças armadas. Em janeiro de 2025, a Ucrânia contava 1,6 milhões de veteranos, e este número deverá aumentar para entre 5 a 6 milhões após a guerra.
Um dos nossos estudos revelou grandes desafios: 71% dos veteranos têm ferimentos físicos, um terço apresenta sintomas de stress pós-traumático (PTSD) e 41% dos veteranos com menos de 60 anos enfrentam dificuldades em encontrar emprego.
Apoiar a reintegração profissional destes veteranos deve ser feito com dignidade e produtividade. Numa situação pós-guerra, o apoio à reintegração dos veteranos será uma prioridade fundamental para o governo. Em 2024, o PNUD deu prioridade a abordagens de reintegração baseadas na comunidade, desenvolvendo programas em seis comunidades e duas províncias (oblasts).
Outro foco de ação são as pessoas deslocadas internamente (IDPs). Perder a casa e ter de se instalar num local onde não se conhece ninguém é uma experiência profundamente traumática, pelo que é essencial garantir apoio social.
Recordemos que cerca de 6 milhões de ucranianos se encontram no estrangeiro. Em 2024, havia 4,6 milhões de deslocados internos registados — num país que tinha 41 milhões de habitantes antes da guerra. O PNUD apoia o governo no fornecimento de cuidados médicos, serviços sociais e educação para as crianças.
Por fim, há a questão da economia. É essencial garantir que o país continua a funcionar. A transição para uma economia moderna e competitiva já está em curso.
Quanto à questão do financiamento, é claro que a Ucrânia é um dos maiores destinatários de ajuda humanitária e de recuperação, avaliada não em milhões, mas em milhares de milhões de dólares.
Alguns escritórios de agências da ONU na Ucrânia são hoje os maiores do mundo. O PNUD tem 500 colaboradores e gere cerca de 200 milhões de dólares por ano.
Podemos fazer mais? Claro que sim. A Ucrânia é um país vasto, com enormes necessidades. Mas, em comparação com os cortes de financiamento noutras partes do mundo, somos menos afetados.
© Christina Pashkina / PNUD Ucrânia
Qual é, em termos gerais, a sua avaliação dos danos causados ao país pelo conflito? E isso constitui um obstáculo à reconstrução?
A destruição em larga escala ocorreu em todo o país, com graves danos a propriedades civis nas regiões da linha da frente e nas zonas fronteiriças que estiveram ocupadas.
Quem tinha uma casa perdeu praticamente tudo, porque ela representava o principal bem económico da família. As pessoas estão a enfrentar falência pessoal, além do trauma de perder a sua casa destruída por explosões.
O governo tenta fornecer compensações, mas o processo é complexo e muitas pessoas continuam a ter dificuldades em satisfazer as suas necessidades básicas. As taxas de pobreza aumentaram de 20,6% em 2021 para 35,5% em 2023.
A guerra também provocou ataques direcionados a infraestruturas essenciais, como centrais elétricas, hospitais, escolas, edifícios altos, estações de comboios, entre outros, com enorme impacto sobre a população civil.
O último valor estimado aponta para 524 mil milhões de dólares necessários para a recuperação da Ucrânia na próxima década. No entanto, isso é apenas a a ponta do iceberg, já que muitos outros custos ainda se irão somar.
Mesmo com os ataques ainda em curso, já é possível aplicar estratégias inteligentes de reconstrução. Em vez de reconstruir uma grande central elétrica, pode-se construir várias mais pequenas, para que, se uma for destruída, a rede elétrica não entre em colapso total.
Quando a guerra terminar, o esforço de reconstrução será colossal. O presidente Zelenskyy mencionou um “Plano Marshall”, e algo desse tipo será de facto necessário para recolocar a Ucrânia no caminho certo.
Quais são os principais desafios para o trabalho do PNUD no terreno?
Todos veem as notícias sobre os ataques e é evidente que isso representa um fator que dificulta o nosso trabalho no terreno.
Temos também de assegurar a segurança do nosso pessoal. Não temos exemplos concretos de membros da equipa que tenham sido alvos específicos, mas quanto mais perto se está da linha da frente, maior é o risco de se estar “no lugar errado, à hora errada”.
Nessas zonas, passamos de veículos normais para veículos blindados, por exemplo.
Preocupamo-nos também com a saúde mental do nosso pessoal. Quase todos na Ucrânia têm familiares no exército. Os colegas vivem constantemente com o receio de que aquela possa ter sido a última vez que viram os seus entes queridos. Os níveis de ansiedade e de stress são, naturalmente, muito mais elevados entre os nossos colegas ucranianos.
Qual é a abordagem do PNUD relativamente aos refugiados e às pessoas deslocadas internamente?
O governo ucraniano não considera os seus cidadãos no estrangeiro como refugiados.
A prioridade é trazer esses ucranianos de volta ao país e, quando regressarem, farão parte do esforço de reconstrução e precisarão de apoio para se reintegrar.
Tenho a sensação de que poderia ser feito mais para estabelecer contacto com os ucranianos que vivem em cada Estado-membro da UE, compreender a sua situação atual e identificar as melhores formas de os apoiar.
Os 4,6 milhões de deslocados internos (IDPs) registados em 2024 são um grupo essencial no contexto do princípio das Nações Unidas de “não deixar ninguém para trás”.
A Ucrânia é um país altamente desenvolvido, pelo que, em vez de fazermos o trabalho diretamente, como em outras situações de crise, ajudamos o governo a utilizar os seus próprios sistemas, que já existem e estão a funcionar.
O governo dispõe de um orçamento e de um sistema de proteção social, e os deslocados internos têm direito às mesmas prestações sociais, tal como acontece noutros países da Europa.
Foi publicado em dezembro de 2024 um estudo sobre a juventude ucraniana. Quais são as principais consequências do conflito para a geração mais jovem?
Os jovens ucranianos têm grandes esperanças na integração europeia e são fortemente pró-União Europeia.
Veem a guerra como um grande obstáculo às suas aspirações e sonhos de se tornarem cidadãos da UE, de estudar e encontrar um bom emprego.
O estudo mostra que 42% dos jovens estão preocupados com questões de saúde (próprias ou dos seus familiares), 31% com a falta de dinheiro e 26% com a segurança física.
Nada menos que 25% afirmam sofrer de estados de espírito negativos, depressão, ansiedade e solidão.
As interrupções na educação e no desenvolvimento profissional têm efeitos profundamente prejudiciais.
Por isso, a resolução deste conflito é particularmente importante para os jovens, a fim de que possam recuperar a esperança num futuro estável e próspero.